Sonhos escamoteados

Para @hsroulevich. Convalescemos juntos.

O desfazimento dos frágeis laços familiares, atados pelo frouxo nó da conveniência enfraquecido pela ausência do amor verdadeiro, não cultivado em anos de rotina distanciadora , e a revelação de conflitos de personagens burgueses que se debatem, muitas vezes em silêncio, na inércia do vácuo asfixiador de sonhos (tomados por ilusões) e vontades são os focos do diretor Luca Guadagnino em “Io sono l’amore” (no original).

Emma (Tilda Swinton), há mais de duas décadas, trocou sua Rússia natal pela Itália para se unir à família Recchi. Casada com Tancredi (Pippo Delbono), teve três filhos: Edoardo (Flavio Parenti), Elisabetta (Alba Rohrwacher) e Gianluca (Mattia Zaccaro). Atarefada com toda sorte de rituais aristocráticos dos Recchi, que em determinados momentos tornam a exibição do filme arrastada e enfadonha, Emma encontra na liturgia do luxo uma forma de dar algum sentido ao seu dia a dia oco e alienado e abstrair aquilo de que realmente necessita.

As rupturas no seio da família Recchi começam a ocorrer com sismos de baixa intensidade, mas que pressagiam tremores mais intensos. Emma descobre que sua filha é homossexual e conta com a conivência de seu primogênito. Edoardo é precocemente encarregado dos negócios da família, criando um clima tenso de rivalidade entre ele e o pai. Além disso, interessado em expandir seu portfólio empresarial, Edoardo resolve ajudar seu grande amigo Antonio (Edoardo Gabbriellini), um cozinheiro talentoso com quem mantém relação ambígua, a abrir o próprio restaurante.

Encantada pelos dotes culinários do rapaz, Emma, num momento “Ratatouille” (2007), é fisgada pelo estômago e logo inicia um romance proibido com Antonio. Mesmo em sua (patética) crise burguesa pior que essa só a da personagem de Julia Roberts em “Comer, rezar, amar” , Emma jamais abandonaria a família para assumir o amor pelo cozinheiro. Ah!, chegam aos meus ouvidos ecos distorcidos de “Mademoiselle Chambon” (2009) e a angústia de abandonar o protocolar.

Envolvida na liturgia da ostentação e da tradição há anos, ela conjuga a fome de seu corpo com as responsabilidades como esposa e mãe composto heterogêneo altamente instável. Só um evento traumático seria capaz de provocar a separação. E ele acontece. Edoardo descobre o romance clandestino da mãe e aflora todas as contradições de seu sentimento dúbio por Antonio numa explosão de raiva: tudo bem a irmã ser lésbica, mas a mãe não pode se apaixonar por um homem mais novo, de outra classe social, principalmente se esse homem mantém com Edoardo uma relação mais calorosa. Bem diferente da frieza que Edoardo dispensa à sua namorada. O ciúme velado, sublimado por Edoardo na frustração com problemas profissionais e no repúdio ao caso extraconjugal de Emma, envenena as entrelinhas da tragédia.

Emma, espetáculo de Tilda, é uma mulher em conflito. Se a vida dela não estivesse estagnada numa empolação sem nenhum significado para seus imperativos como mulher circunstância traduzida nas práticas de riqueza que os Recchi fomentam, encenações de banquetes e festas muitas vezes dispensáveis para a ação dramática —, possivelmente a ruptura não seria tão severa. Os rituais burgueses eram ao mesmo tempo refúgios (justificativas para sua vidinha insípida) e purgatórios (o quero algo mais latente que a incomodava por dentro).

Sem ter mais nada a perder, só o que resta a Emma é se entregar ao amor, caminho de menor resistência para ela mesma. Amar, comer, amar…

Carlos Eduardo Bacellar

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