Arquivo do mês: setembro 2011

Pulsão de vida que se esquiva do rebate falso

Gustavo Taretto é um cineasta cronista e talvez lembre um pouco Woody Allen, talvez ele o tenha em mente (o Allen de Paris ou Nova York). Em seu primeiro longa em cartaz tardio, o cineasta inicia o filme como quem descortina afrescos e arestas de Buenos Aires, para logo estar ali nas medianeras, paredes laterais dos edifícios. Marca assim o tema, fronteiras da distância, em movimentos de linhas e blocos buenarenses, à procura do belo no caos.

Ao falar da bela Buenos Aires, Taretto esbanja de interseções arquitetônicas para aterrissar em duas kittinets, de dois seres. Lança um sinal: feitos um para o outro… A grafia deles é frágil, uma singela arquitetura de solidões. Mariana (a excelente Pilar López de Ayala) e Martin (Javier Drolas, ótimo) vivem quase no mesmo edifício, andam quase na mesma rua, quase se notam, por muito pouco não se esbarram — uma vez no cruzamento do sinal  — e, ora, uma animação de coraçãozinho se desenha na tela… Pistas não faltam na trama, mas nenhuma cansa: o filme é saboroso, quase um folhetim. Lá pelo clímax — depois de, enfim, um bate bola por acaso entre os dois, num chat virtual — eles convergem à procura de uma vela, na loja do quarteirão, em busca de luz no apagão, mas não, ainda não, o encontro é surpresa. O argentino trapaceia, novelesco.

“Medianeras” é um trivial completo, se não fosse a sua qualidade, no sabor das falas e dos offs, na dosagem dos silêncios e da trilha, se não fosse a câmera genial nos cubículos, um domínio técnico, modesto e quase imperceptível. “Medianeras” seria pueril, se não fosse o roteiro engenhoso, com todos os elementos e neuroses da urbis metropolis: altos e baixos, entulhos e cachorros, pânico, escadas, esquinas, elevadores, espirais, tosses, vitrines para os manequins, farmácias para um Rivotril e o afã de respirar! Além das pistas, claro: a caneca (com nome de Mariana) espatifada, a piscina coberta e superlotada (deixa para um sexo fortuito e frustrado), a figura de camisa listrada que falta no livro de pinturas… “Medianeras” seria rebate falso, se não fosse a sua pulsão de vida.

Taretto não se inibe de traçar a rota do encontro, como num óbvio folhetim, até que — surpresa –, os dois decidem abrir duas janelas onde não há (medianeras), no melhor estilo happening subversivo de Martha Minujin (uma genial artista argentina). Enfim, podem se ver… Quiçá seja a homenagem de Taretto à liberdade formal, rompendo a distância entre criador, obra e cotidiano. Do cubículo que ganhou visão, Mariana encontra na calçada a sua figura perdida no quadro: é ele, Martín. É. Como no recente “O Homem do Lado”, “Medianeras” é uma janela aberta ao espaço.

Claudia Furiati

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Contemplando o amor por meio do processo de busca, desconsiderando início, fim e tudo entre eles

Medianeras Buenos Aires na era do amor virtual”, do diretor argentino Gustavo Taretto, desvela possibilidades ao tratar o amor por meio do processo de busca, desconsiderando extremos (o fogo e as flores do início; a mágoa e melancolia do fim) e todo contexto entre eles. Novamente o cinema argentino comprova sua competência para percorrer as fronteiras entre romance, drama e comédia, sem ser enquadrado pela alfândega da pieguice.

A história do webdesigner Martín (Javier Drolas, o Jesse Eisenberg que fala espanhol) e da vitrinista de lojas Mariana (Pilar López de Ayala, a Charlotte Gainsbourg da terra de Rafael Nadal), vizinhos que desconhecem a existência um do outro, roteirizada pelo próprio Taretto, termina com (o!!!) encontro. Num primeiro momento, tal abordagem pode parecer desencantadora, mas é o segredo de composição dessa instigante produção.

Integrando a cidade de Buenos Aires ao elenco com a mesma força que Woody Allen imprime em seus trabalhos locais como Nova Iorque, Londres, Barcelona e Paris , por meio de uma prosa poética que metaforicamente transforma os significados da disposição de cimento e aço da urbe portenha remetendo nosso pensamento para as construções textuais do escritor Gonçalo M. Tavares em O senhor Swedenborg e as investigações geométricas, livro da série O Bairro, coleção literária que repensa (e desafia) os significados do concreto (e do pensamento ortodoxo, cartesiano) , o filme, coprodução entre Argentina, Espanha e Alemanha, orçado em US$ 11 milhões, pode ter sua força traduzida pelas palavras do escritor Santiago Nazarian.

Construções poética similares são encontradas no livro O prédio, o tédio e o menino cego, editado no Brasil pela Record. O olhar singular de Nazarian ilumina a ousadia do realizador: “Parece que as oportunidades são mais reais quando elas não podem acontecer temporariamente. Parece que o derradeiro encontro é sublinhado, destacado, por estar suspenso; pois com quase nada acontecendo, poderíamos imaginar como seria se apenas isso — o certo, o esperado, o desejado — acontecesse. E quando tudo volta a acontecer, tudo volta ao mesmo tempo e as possibilidades parecem ainda menos possíveis, menos identificáveis, em meio aos excessos a que nossa vida está submetida, tantos acidentes e enganos, e o momento certo sempre resguardado pela chuva…”

Em uma Argentina que tenta juntar os cacos após a crise econômica, os caminhos de Martín e Mariana, a princípio paralelos, se entrelaçam ao acaso. Ele, um recluso, sem nenhum traquejo social, movido a remédios e relações efêmeras, desprovidas de sentido; ela, uma desastrada sentimental, sem saber como lidar com o interesse dos homens e incapaz de administrar novos relacionamentos.

Repleta de contradições, Buenos Aires se torna essencial na encenação, funcionando como um jogo de lego para que insatisfações e construções linguísticas, que jogam com estados de espírito, tenham seus espaços contemplados nas limitações sufocantes de um grande centro. Novamente, refletindo sobre a cidade como personagem, encontro o que desejo no texto de Santiago Nazarian: “Vaidade, eu diria. Vaidade que um ser inanimado só poderia ter pelo poder das palavras, que dá sentimentos a todos que vivem calados. Palavras em bocas de desdentados. Mentindo por eles. Ou moldando-os a nosso gosto.”

Conectados ao mundo virtual, Martín e Mariana, ao som de True love will find you in the end, interpretada pela voz anasalada de Daniel Johnston, procuram aquilo que lhes falta na realidade — em seus dois significados possíveis nessa sintaxe. Martín, com sua inabilidade bem ao estilo do personagem de Steve Carell em “O virgem de 40 anos” (2005), tapa os buracos de seu coração com os curativos Band-Aid que a cultura pop pode oferecer, mascarando sua carência com consumo. Já as incertezas afetivas são a causa da miopia de Mari, que não consegue enxergar aquilo que está na frente de seu nariz. O improvável talvez seja o antídoto para a solidão. Na física do amor, polos iguais também se atraem. Alienados do outro até então, eles percebem no encontro inusitado uma nova chance para o que não vinha dando certo. Na troca de olhares, na ausência da busca, o roteiro perde o significado para as câmeras do diretor.

E, como disse ao começar este texto, a história termina um pouquinho antes do início. Porque, com diz Nazarian, “o momento certo é sempre aquele que não podemos viver…” Transita somente na imaginação de todos nós.

Carlos Eduardo Bacellar

 

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Protagon… Risca! Figurante da própria existência

Desista! Não passe perto! […] Agora, se morrer porque não está fazendo isso, se adoecer, se ficar em tal desassossego que não tem nem como dormir, aí volte, aí venha aqui. Se não passar por este distanciamento, e pela necessidade dessas tábuas aqui, não é do ramo.”

(Fernanda Montenegro, em entrevista concedida ao programa Starte, respondendo o que diria a um jovem ator que está começando.)

Em “Riscado”, o diretor Gustavo Pizzi trabalha o documental dentro do ficcional para evidenciar a discrepância entre idealização e realidade. Bianca (Karine Teles, dentro do riscado) é uma atriz talentosa e determinada que, como tantas outras, procura, entre um bico performático e outro, ganhar a vida enquanto o projeto que poderá alçá-la ao estrelato não faz sua estreia.

Uma produção internacional, na qual Bianca é a protagonista, pode ser a chance por que ela esperava. Escalada para o papel dela mesma, a atriz, ironicamente, percebe na sua rotina profissional desglamurizada e carente de aplausos a oportunidade de transformar seu futuro na dramaturgia.

Com jogos de câmeras que intercalam vídeos caseiros produzidos pela própria Bianca na ficção e gravações profissionais, Pizzi entrelaça duas dimensões antagônicas, mas que conseguem se amalgamar para o espetáculo: a dura realidade de uma atriz tentando conseguir alguns trocados para pagar suas contas e as generosas verbas de uma produção cinematográfica sob a responsabilidade de um diretor renomado.

Nessa interação, o realizador expõe a incongruência entre a aflição pelo prato de comida e a displicência pelos aspirações e expectativas alheias. Nem tudo pode (ou deveria) ser justificado pelo cinema retratado ou compreendido por ele. Ao tratar daquele microcosmo de penas e paetês, Pizzi, num tom de crítica social, desvela como pode ser perversa a relação entre indústria e individualidade. O ofício de ator, ingrato como inúmeros outros, é a metáfora de abismos sociais que podem ser evidenciados, mas não suplantados pela arte. As preocupações com o show, ou com o que se espera dele o espetáculo, o lucro, o prestígio, a ovação se chocam com as esperanças mais prosaicas do indivíduo, nem sempre atendidas num processo que se equilibra entre orçamentos, responsabilibades, egos, vaidades, prazos e… sonhos. Difícil conformação entre concreto e abstrato.

Quando olhamos para uma massa de figurantes, escutamos mais alto os anseios mudos de um sorriso azedo do que o ataque de estrelismo de um diretor com casa em Paris que exige, em alto e bom som, assentos de primeira classe num voo para (mais um) trabalho. A desilusão silenciosa evidencia que mais um não é o bastante. O bastante seria protagonizar sua saída para dentro de cena, mas a chance muitas vezes não depende da ficção, e, sim, da realidade muito mais inflexível.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. “Riscado” foi produzido por Cavi Borges. Ainda não fiz minha ficha de inscrição na Cavídeo. Uma pendência inaceitável com o Cavi que pretendo corrigir em breve.

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Produto de um deprê nórdico de risinho melancólico

Fui atrasada ver Melancolia e, lamento, prefiro chamá-la Depressão. A propósito (sabe-se lá?), influenciada pela personagem Claire (Charlotte Gainsbourg), busquei pela Rede a referência astronômica ao planeta e nada, tristemente. Além de planeta destruidor numa ficção “científica”, Melancolia não é mais que um arremedo terminal da obra de von Trier: um pouco (muito) de “Medeia” ali, um tantinho de “O grande chefe” (Hitler?), “Dogville” e “Idiotas” num castelo em festa de casamento, além de, claro, um “Anticristo” como “leitmotiv” numa fornada fascista.

Talvez, diriam, o cineasta deva ser reconhecido como um precursor estético, mas o que se sabe mesmo é que lançou um tal de Dogma 95, receita de fazer filme na Dinamarca, uma doutrina prá fazer jus às suas preferências… Mas como faiscou uma porção de copiadores e discípulos seus em questão de década, azar, perdeu a graça.

No dinamarquês, tudo vem a calhar, até a sua bombástica declaração em Cannes: “Sou nazista” (Foi assim mesmo?). Autoproclamando-se ou não, o seu filme é isso aí. Valeu a dica. Vendo Melancolia, Hitler é compreensível, o Apocalipse vem embalado em bela trilha de Wagner, a Besta é um planeta e ele, o cineasta, candidato a um Nietzche na raia direita.

Tomando a trilha do filósofo alemão, o cineasta arrasa conceitos e ilusões da civilização, mas mergulha no extremismo. E o que repudio em Melancolia é precisamente este substrato. Ante a iminência do fim dos tempos — para o qual não se coloca pergunta ou resposta e nem filme –, Justine (Kirsten Dunst) é a louca precoce, John (Kiefer Sutherland) escolhe o suicídio, uma saída nórdica, e Claire, uma mulher de compaixão, propõe tomar uma taça de vinho, mas afinal se entrega ao terror. Antes, nas sequências da festa do casamento, a mãe (Charlotte Rampling) é a cicuta em pessoa e o pai (John Hurt), o bobo da corte. O casamento caminha como uma tarântula, rumo ao extermínio. No fim da obra, ao abrigo da “caverna mágica”, uns gravetos em triângulo, Justine , Claire e o menino, de mãos dadas, recebem o Apocalipse, deixando-nos na ausência de magia… E caberia aqui lembrar que o provável guru do cineasta — Nietzsche — sobreviveu muito além da apropriação nazista, pois para ele, era possível resistir!

Assim, não resisto aqui a um cotejo com a “Árvore da Vida”. Ao nos falar igualmente de morte, traz a ânsia do infinito, vibração dos confrontos, transcendência dos limites. Não teme o ser humano, ainda que ele possa ser apenas uma sedutora ilusão… Já Melancolia é só o produto de um deprê nórdico de risinho melancólico.

Claudia Furiati

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