Produto de um deprê nórdico de risinho melancólico

Fui atrasada ver Melancolia e, lamento, prefiro chamá-la Depressão. A propósito (sabe-se lá?), influenciada pela personagem Claire (Charlotte Gainsbourg), busquei pela Rede a referência astronômica ao planeta e nada, tristemente. Além de planeta destruidor numa ficção “científica”, Melancolia não é mais que um arremedo terminal da obra de von Trier: um pouco (muito) de “Medeia” ali, um tantinho de “O grande chefe” (Hitler?), “Dogville” e “Idiotas” num castelo em festa de casamento, além de, claro, um “Anticristo” como “leitmotiv” numa fornada fascista.

Talvez, diriam, o cineasta deva ser reconhecido como um precursor estético, mas o que se sabe mesmo é que lançou um tal de Dogma 95, receita de fazer filme na Dinamarca, uma doutrina prá fazer jus às suas preferências… Mas como faiscou uma porção de copiadores e discípulos seus em questão de década, azar, perdeu a graça.

No dinamarquês, tudo vem a calhar, até a sua bombástica declaração em Cannes: “Sou nazista” (Foi assim mesmo?). Autoproclamando-se ou não, o seu filme é isso aí. Valeu a dica. Vendo Melancolia, Hitler é compreensível, o Apocalipse vem embalado em bela trilha de Wagner, a Besta é um planeta e ele, o cineasta, candidato a um Nietzche na raia direita.

Tomando a trilha do filósofo alemão, o cineasta arrasa conceitos e ilusões da civilização, mas mergulha no extremismo. E o que repudio em Melancolia é precisamente este substrato. Ante a iminência do fim dos tempos — para o qual não se coloca pergunta ou resposta e nem filme –, Justine (Kirsten Dunst) é a louca precoce, John (Kiefer Sutherland) escolhe o suicídio, uma saída nórdica, e Claire, uma mulher de compaixão, propõe tomar uma taça de vinho, mas afinal se entrega ao terror. Antes, nas sequências da festa do casamento, a mãe (Charlotte Rampling) é a cicuta em pessoa e o pai (John Hurt), o bobo da corte. O casamento caminha como uma tarântula, rumo ao extermínio. No fim da obra, ao abrigo da “caverna mágica”, uns gravetos em triângulo, Justine , Claire e o menino, de mãos dadas, recebem o Apocalipse, deixando-nos na ausência de magia… E caberia aqui lembrar que o provável guru do cineasta — Nietzsche — sobreviveu muito além da apropriação nazista, pois para ele, era possível resistir!

Assim, não resisto aqui a um cotejo com a “Árvore da Vida”. Ao nos falar igualmente de morte, traz a ânsia do infinito, vibração dos confrontos, transcendência dos limites. Não teme o ser humano, ainda que ele possa ser apenas uma sedutora ilusão… Já Melancolia é só o produto de um deprê nórdico de risinho melancólico.

Claudia Furiati

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3 Comentários

Arquivado em Estranhos no ninho

3 Respostas para “Produto de um deprê nórdico de risinho melancólico

  1. Dizer que Von Trier é nazista virou mote para todos os seus desafetos. Mais próximo de um ideal fascista pra mim não é a dúvida cósmica do nórdico deprê, mas a certeza gongórica do pastor americano. Comovo-me muito mais com a dilaceração provocante da família dinamarquesa do que com a celebração dos valores familiares e burgueses do Texas. Quando ideologia e religião se juntam, meus nervos tremem de medo.

  2. Carísssimo Carmattos, nossas famílias são diferentes, é isso. Em todo caso, enquanto a certeza do pastor é posta à prova por Mallick, o terror de Von Trier ainda está entrando pela minha goela… Em tempo: Acho que o suicídio de John (Kiefer Sutherlander, o 24 hs) não foi por causa da aproximação do Melancholia, mas pela Depressão por ter gasto uma grana milionária prá bancar o casamento frustrado da louca Justine e ainda ter de sustentá-la no castelo… Beijos. Você tem sempre razão.

    • Queridíssima Furiosa, a menina dos seus olhos não vai com a cara do Lars. Sugiro a ela (não a você) assistir a Ondas do Destino e Dançando no Escuro para ver como o gênio escandinavo trabalha o melodrama. Eu posso ter razão, mas você tem a força da convicção. Um beijo

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