Protagon… Risca! Figurante da própria existência

Desista! Não passe perto! […] Agora, se morrer porque não está fazendo isso, se adoecer, se ficar em tal desassossego que não tem nem como dormir, aí volte, aí venha aqui. Se não passar por este distanciamento, e pela necessidade dessas tábuas aqui, não é do ramo.”

(Fernanda Montenegro, em entrevista concedida ao programa Starte, respondendo o que diria a um jovem ator que está começando.)

Em “Riscado”, o diretor Gustavo Pizzi trabalha o documental dentro do ficcional para evidenciar a discrepância entre idealização e realidade. Bianca (Karine Teles, dentro do riscado) é uma atriz talentosa e determinada que, como tantas outras, procura, entre um bico performático e outro, ganhar a vida enquanto o projeto que poderá alçá-la ao estrelato não faz sua estreia.

Uma produção internacional, na qual Bianca é a protagonista, pode ser a chance por que ela esperava. Escalada para o papel dela mesma, a atriz, ironicamente, percebe na sua rotina profissional desglamurizada e carente de aplausos a oportunidade de transformar seu futuro na dramaturgia.

Com jogos de câmeras que intercalam vídeos caseiros produzidos pela própria Bianca na ficção e gravações profissionais, Pizzi entrelaça duas dimensões antagônicas, mas que conseguem se amalgamar para o espetáculo: a dura realidade de uma atriz tentando conseguir alguns trocados para pagar suas contas e as generosas verbas de uma produção cinematográfica sob a responsabilidade de um diretor renomado.

Nessa interação, o realizador expõe a incongruência entre a aflição pelo prato de comida e a displicência pelos aspirações e expectativas alheias. Nem tudo pode (ou deveria) ser justificado pelo cinema retratado ou compreendido por ele. Ao tratar daquele microcosmo de penas e paetês, Pizzi, num tom de crítica social, desvela como pode ser perversa a relação entre indústria e individualidade. O ofício de ator, ingrato como inúmeros outros, é a metáfora de abismos sociais que podem ser evidenciados, mas não suplantados pela arte. As preocupações com o show, ou com o que se espera dele o espetáculo, o lucro, o prestígio, a ovação se chocam com as esperanças mais prosaicas do indivíduo, nem sempre atendidas num processo que se equilibra entre orçamentos, responsabilibades, egos, vaidades, prazos e… sonhos. Difícil conformação entre concreto e abstrato.

Quando olhamos para uma massa de figurantes, escutamos mais alto os anseios mudos de um sorriso azedo do que o ataque de estrelismo de um diretor com casa em Paris que exige, em alto e bom som, assentos de primeira classe num voo para (mais um) trabalho. A desilusão silenciosa evidencia que mais um não é o bastante. O bastante seria protagonizar sua saída para dentro de cena, mas a chance muitas vezes não depende da ficção, e, sim, da realidade muito mais inflexível.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. “Riscado” foi produzido por Cavi Borges. Ainda não fiz minha ficha de inscrição na Cavídeo. Uma pendência inaceitável com o Cavi que pretendo corrigir em breve.

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