Pulsão de vida que se esquiva do rebate falso

Gustavo Taretto é um cineasta cronista e talvez lembre um pouco Woody Allen, talvez ele o tenha em mente (o Allen de Paris ou Nova York). Em seu primeiro longa em cartaz tardio, o cineasta inicia o filme como quem descortina afrescos e arestas de Buenos Aires, para logo estar ali nas medianeras, paredes laterais dos edifícios. Marca assim o tema, fronteiras da distância, em movimentos de linhas e blocos buenarenses, à procura do belo no caos.

Ao falar da bela Buenos Aires, Taretto esbanja de interseções arquitetônicas para aterrissar em duas kittinets, de dois seres. Lança um sinal: feitos um para o outro… A grafia deles é frágil, uma singela arquitetura de solidões. Mariana (a excelente Pilar López de Ayala) e Martin (Javier Drolas, ótimo) vivem quase no mesmo edifício, andam quase na mesma rua, quase se notam, por muito pouco não se esbarram — uma vez no cruzamento do sinal  — e, ora, uma animação de coraçãozinho se desenha na tela… Pistas não faltam na trama, mas nenhuma cansa: o filme é saboroso, quase um folhetim. Lá pelo clímax — depois de, enfim, um bate bola por acaso entre os dois, num chat virtual — eles convergem à procura de uma vela, na loja do quarteirão, em busca de luz no apagão, mas não, ainda não, o encontro é surpresa. O argentino trapaceia, novelesco.

“Medianeras” é um trivial completo, se não fosse a sua qualidade, no sabor das falas e dos offs, na dosagem dos silêncios e da trilha, se não fosse a câmera genial nos cubículos, um domínio técnico, modesto e quase imperceptível. “Medianeras” seria pueril, se não fosse o roteiro engenhoso, com todos os elementos e neuroses da urbis metropolis: altos e baixos, entulhos e cachorros, pânico, escadas, esquinas, elevadores, espirais, tosses, vitrines para os manequins, farmácias para um Rivotril e o afã de respirar! Além das pistas, claro: a caneca (com nome de Mariana) espatifada, a piscina coberta e superlotada (deixa para um sexo fortuito e frustrado), a figura de camisa listrada que falta no livro de pinturas… “Medianeras” seria rebate falso, se não fosse a sua pulsão de vida.

Taretto não se inibe de traçar a rota do encontro, como num óbvio folhetim, até que — surpresa –, os dois decidem abrir duas janelas onde não há (medianeras), no melhor estilo happening subversivo de Martha Minujin (uma genial artista argentina). Enfim, podem se ver… Quiçá seja a homenagem de Taretto à liberdade formal, rompendo a distância entre criador, obra e cotidiano. Do cubículo que ganhou visão, Mariana encontra na calçada a sua figura perdida no quadro: é ele, Martín. É. Como no recente “O Homem do Lado”, “Medianeras” é uma janela aberta ao espaço.

Claudia Furiati

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3 Comentários

Arquivado em Estranhos no ninho

3 Respostas para “Pulsão de vida que se esquiva do rebate falso

  1. Helena Sroulevich

    Ela é tão melhor do que eu acho que vou pedir demissão do blog, Carlinhos. 🙂 Era uma vez uma menina que tinha um blog com uns amigos. Mas forçosamente ficou sem escrever. Recrutou a mãe. Melhor do que ela. Pra quê continuar? Beijos!

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