Rebobine, por favor

Ao contrário de seu pai, David Bowie, considerado o camaleão do rock — por sua capacidade de remodelar suas construções imagéticas —, Duncan Jones, até o momento, permanece fiel às suas propostas como cineasta. Dando novas acepções ao conceito de sanidade (ludibriando, como um prestidigitador, nossas noções de tempo e espaço), Duncan, dentro de tubos de ensaio estéticos, reage as dúvidas e inconsistências de nosso discernimento sobre o real com avanços da ciência e questionamentos éticos que vem a reboque — composto sempre desestabilizado pela tola pretensão humana. Ovacionado por abordagens narrativas inteligentes, fica claro por que ele transita com segurança no terreno traiçoeiro situado entre as expectativas da crítica e a empatia com o público apreciador do bom cinema.

Em “Lunar” (2009), sua estreia como condutor de longas, produção lançada no Brasil direto em DVD e que rendeu ao filme de Duncan comparações com “2001: uma odisseia no espaço” (1968), de Stanley Kubrick, o realizador colocou sob o microscópio a questão da clonagem e suas implicações na redifinição do processo produtivo de colonização e extrativismo fora da atmosfera terrestre.

Seu mais novo longa, “Contra o Tempo”, nos apresenta ao capitão Colter Stevens (como evolui este Jake Gyllenhaal), que, aturdido por uma experiência extracorporal, descobre que faz parte de um projeto antiterrorismo versão beta do governo americano denominado Código Fonte. Desenvolvido pelo dr. Rutledge (Jeffrey Wright), a técnica de reajustamento temporal permite a Stevens assumir, durante determinado período (8min), a identidade de um civil morto em atentado a bomba que vitimou dezenas de pessoas a bordo de um trem a caminho de Chicago. A explosão seria uma carta de intenções, prenunciando outro ataque maior. A missão do capitão é reviver aquele extrato temporal, repetidamente, até descobrir quem é o terrorista. Identificá-lo seria imperativo para impedir o próximo atentado.

Roteirizado por Ben Ripley, “Source code” (no original) é uma cápsula do tempo que nos remete ao passado “estanque” sem causar enjoos com a constante sequência de avanços e rebobinações presente-passado e sem pecar pela monotonia que tal estratégia de construção poderia acarretar. Durante seus 93 minutos, o filme não sobrecarrega nosso estado de atenção ao apresentar perspectivas diferentes para uma mesma ação dramática. Com a edição dedo inquieto na moviola, de Paul Hirsch, e amparado pela fotografia de Don Burgess, Duncan Jones conseguiu formatar um “Ponto de vista” (Pete Travis, 2008) que deu certo. A perspicácia do roteiro ainda desmonta alguns estereótipos, estigmatizados pela desastrosa administração Bush, do que muitos consideram o terrorista típico (?). No código fonte antipreconceito de Duncan, direitos e garantias individuais são contestados pela cartilha de exceção dos militares em tempos de alerta vermelho: todos são culpados até que se prove o contrário.

Completam a trama Colleen Goodwin (Vera Farmiga, com olhos que nos asfixiam), o elo ambivalente (de dissolução) entre o pragmatismo e a frieza do experimento e o turbilhão emocional que dilacera Stevens espelhado em “Passageiros” (Rodrigo García, 2008) —, e Christina Warren (a afroditiana Michelle Monaghan), que, com seu sorriso incitador da imaginação e traços ingênuos, é capaz de ressuscitar qualquer homem do torpor fatalista e convencê-lo de que vida vale a pena. Qualquer vida.

Carlos Eduardo Bacellar

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