Errol Morris é primeira página!

A história de Joyce McKinney, ex-Miss Wyoming que adquiriu status de celebridade instantânea ao protagonizar um escândalo midiático na Inglaterra, onde foi processada por manter em cativeiro o ex-namorado mórmon, é tão incrivelmente absurda que parece ficção. De tão bizarra, chamou a atenção do documentarista Errol Morris, que a elegeu como objeto de seu mais recente registro da versatilidade humana: “Tabloid”.

Digna de um filme de Quentin Tarantino — provocando as mesmas risadas azedas de escárnio que nos tomam de assalto em “Pulp Fiction” (1994) — a biografia constrangedora de Joyce escrutinada por Morris envolve paixão, egoísmo, obsessão, religião, sequestro, espionagem, cárcere privado, sadomasoquismo, estupro, prostituição, clonagem de animais, atuação duvidosa da imprensa… Meu Deus, @errolmorris! Não posso levar minha mãe para assistir a um doc desses… Tal “ficha corrida” da americana foi um prato cheio para os tabloides ingleses — alvos de escândalos recentes que movimentaram a polícia e o judiciário inglês, obrigando os conglomerados de comunicação a providenciarem uma nova edição de seus manuais de ética profissional —, que se refestelaram como urubus sobre carniça. As incongruências entre a repressão sexual da doutrina mórmon e os anseios de jovens com os hormônios em ebulição rendem esquetes dignas de filmes de Woody Allen, devidamente exploradas pelos jornais sensacionalistas. Fica claro que o importante para a imprensa marrom não são os fatos, mas as versões: quanto mais apimentadas e escabrosas, melhor.


Senhor da linguagem documental, Errol Morris equilibra com maestria as versões pró e contra Joyce McKinney. Sua reconstrução dos imbróglios envolvendo a ex-Miss Wyoming utiliza elementos estéticos que configuram as assinaturas do diretor proposta semelhante à que foi empregada em trabalhos anteriores, como “The thin blue line”(1988) e “The fog of war” (2003). A edição de “Tabloid”, a cargo de Grant Surmi, vale-se de uma pesquisa criteriosa e entrevistas extensas com poucos personagens para formatar algo próximo de uma investigação policial escrutinada pelo senso crítico aguçado de um jornalista. A fotografia espartana de Robert Chappell serve de contraponto à comicidade daquela disfuncional história simpsoniana. Se existisse um roteiro para docs, o deste certamente seria escrito por Matt Groening.

A todo momento tomamos uma rasteira da dúvida criada pelas narrativas dos entrevistados. Hora acreditamos na versão de Joyce, ora duvidamos de seu relato (e até mesmo de sua sanidade). A montagem clássica de Morris intercala depoimentos com imagens (contextualizadoras) que remetem a registros de arquivo, a filmes antigos e àquela direção de arte estilo Mad Men, privilegiando aspectos da cultura americana dos anos 1960, especialmente a publicidade.

A riqueza de Joyce os disparates de suas idiossincrasias , nas mãos de Morris (que trabalha a linguagem com inteligência diferenciada), torna-se o substrato para a realização de um documentário excepcional. Diversão garantida.

Carlos Eduardo Bacellar 

p.s. Assisti ao filme na sempre agradável companhia do xará @carmattos, que se mijou de tanto rir.

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4 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

4 Respostas para “Errol Morris é primeira página!

  1. Mijei-me e não nego. Gostei da expressão tablóidica.

  2. Helena Sroulevich

    Que merda que eu perdi esse filme. Eu me odeio muito. Mas odeio mais o meu trabalho: escravo. Ter que trabalhar na terça-feira pré-feriado às 16h30, ninguém merece. E sem falar que assistiria ao filme em família… Coisa triste!

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