Arqueologia emocional

Paddy Considine (“O ultimato Bourne”, 2007) é mais um ator que se arrisca na direção de longas. Seu “Tiranossauro”, uma das apostas do Festival do Rio 2011, é o marco de um início auspicioso. Não é à toa que ele levou um prêmio pela direção no Festival de Sundance deste ano.

Neste ensaio sobre a falência do indíviduo, Paddy explora as competências dramáticas de Petter Mullan no papel do viúvo aposentado Joseph. Amargurado com a vida, Joseph permanece em constante modo “Um dia de fúria” (1993). Ele desconta nos outros as frustrações pelo seu fracasso como ser humano. Joseph afoga as desilusões na bebida e extravasa seus recalques iniciando discussões, que quase sempre descambam para as vias de fato, com o primeiro que o olhar torto.

Homem sem fé (provavelmente perdida em algum ponto entre a idealização e a realidade), o William ‘D-Fens’ Foster escocês de Considine encontra na comerciante Hannah (Olivia Colman) o analgésico para as dores da alma. Julgada como burguesa pela amargura obliterante de Joseph, Hannah se asfixia emocionalmente, imersa num casamento falido. Postulante ao amparo legal da lei Maria da Penha, sofre resignada abusos físicos do marido James (Eddie Marsan).

Uma situação-limite engessa a mulher ao calvário do viúvo. Joseph e Hannah, torturados por existências que não lhes deram colher de chá, encontram no ombro um do outro, ao descobrirem o meio termo entre a liturgia religiosa e os ensinamentos da vida prática, o elixir da sobrevivência.

Enquanto Joseph desencava na fé palavras para amenizar o espírito, Hannah descobre da pior maneira seu lado brutal, que dispõe de mecanismos de autopreservação para mantê-la inteira.

Intercambiando personalidades, “Tyrannosaur” (no original), roteirizado pelo próprio Paddy Considine, contextualiza a natureza multifacetada de todos nós: somos anjo e demônio. A fotografia de Erik Wilson ilustra contradições, contrapondo decadência física com luxo (dos locais). A arquitetura cênica nos ilude com conceitos arraigados de estereótipos psicológicos, derivados do preconceito e das ideias estreitas. As agruras são potencializadas com as rupturas de paradigmas. As aparências enganam. Na comunhão de anseios, na difícil acomodação entre egoísmo e altruísmo, uma forma de felicidade encontra sua forma de acontecer, e ela geralmente pede alguém para experimentá-la conosco.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Não vou contar o motivo da escolha do título, pois perderia toda a graça. Mas só isso já vale o ingresso. Dou uma dica: algo a ver com o filme “Parque dos Dinossauros” (1993), do Spielberg.

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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

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