Manchetes em vermelho

O meio não é a mensagem. As mensagens são o meio.”

David Carr, jornalista do Times, subvertendo McLuhan

A queda da receita com publicidade e o aumento da competição, resultados das possibilidades da Internet, seriam os principais fatores que obrigaram a mídia impressa a repensar o formato tradicional da comunicação como negócio.

Novos cases de marketing, os veículo impressos se voltam para os livros de Philip Kotler em busca de estratégias de gestão que resultem numa matriz SWOT (avaliação de potenciais e fraquezas; oportunidades e ameaças) com saldo positivo, assegurando o futuro do negócio de instituições consideradas pilares da democracia (e geradoras de muitos empregos).

As respostas para a crise não parecem se formatar com tanta simplicidade na cabeça do documentarista Andrew Rossi, que tomou como ponto de partida as premissas do primeiro parágrafo para averiguar as extensões da crise dos jornais dentro do diário mais poderoso do mundo: o The New York Times. Andrew se pergunta: onde estamos e para onde vamos?

Com acesso à redação do Times, ele acompanha a batalha de repórteres e editores para colocar o jornal nas ruas todos os dias, em meio ao turbilhão econômico. A discussão do doc orbita em torno da viabilidade da mídia como conhecemos hoje, em antagonismo com os novos formatos de comunicação. Todos os pontos nevrálgicos estão lá: enxugamento de redações; cobrança de conteúdos; novas plataformas (incluindo os blogs); credibilidade e capacidade de cobertura dos veículos online; receitas de publicidade; o futuro da profissão de jornalismo; as oportunidades e ameaças da rede.

O jornalista David Carr, um dos mais conceituados profissionais do Times, é filmado na função pouco confortável de porta voz da Dama de Cinza, promovendo defesas apaixonadas e muitas vezes bem criativas, com seu jeitão descolado e carismático dos jornais e da profissão. A importância da credibilidade editorial do Times é ataca e defendida o jornal foi o promotor da separação entre redação e área comercial, reforçando seus compromissos com a informação isenta. A quebra de um grande grupo de comunicação, registrada no doc, é a contextualização do que aconteceria com veículos de comunicação subordinados a interesses puramente comerciais, sem respeito a políticas editoriais, dirigidos por aventureiros do marketing. Mas Rossi não se furta a colocar sob os holofotes os problemas do jornal, sublinhando as falsas notícias sobre as armas de destruição em massa no Iraque e demais erros editoriais gravíssimos, que abalaram a credibilidade do Times.

Conformando-se ao imperativo das transfomações sociais e tecnológicas, o Times, como os demais meios impressos, vem procurando se adaptar conjugando o bom e velho jornalismo com a hiperatividade e a onipresença de novas mídias. O jornal americano, inclusive, numa inversão de conceitos e procedimentos arraigados nos departamentos de RH, cooptou o blogueiro Brian Stelter para suas fileiras na redação. Não pode vencê-los, compre-os.

O balanço final é de mais questionamentos do que respostas, mas as interrogações delineiam uma trilha, instável, cheia de percalços, mas uma trilha. O jornal de papel sofre, sim, transformações em seu modelo de negócio, mas procura se reciclar mantendo seu papel de promotor da transparência de informações na agenda de discussões governamentais, políticas, econômicas, sociais e culturais. E no final das contas, o processamento de informações sempre vai depender de pessoas, os elos mais fortes e ao mesmo tempo mais fracos dessa cadeia. Seja em que meio for.

Uma curiosidade… Andrew Rossi é produtor associado de “Control room” (2004), doc que faz o contraponto midiático da guerra do Iraque, privilegiando o enfoque editorial de cobertura da rede Al Jazeera. Por que digo isso? Musa do blog, a brasileira Julia “ai… ai…” Bacha (diretora do essencial “Budrus”, 2009) é uma das responsáveis pelo doc, dirigido pela egípcia Jehane Noujaim.

Carlos Eduardo Bacellar

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