Rejeitados pelo diabo


Rob Zombie deve estar preocupado… Em competições de empilhamento de corpos, o título ostentado pelos açougueiros do clã Firefly, cujos integrantes são conhecidos como “Rejeitados pelo Diabo” (2005), está ameaçado pelo pastor Abin Cooper (Michael Parks, espetacularmente insano) e seu séquito de fanáticos homicidas.

Em “Red State”, o diretor Kevin Smith que também atua (“Dogma”, 1999), escreve roteiros (“Procura-se Amy”, 1997, produção que também dirigiu), produz (assinou a produção executiva de “Gênio indomável”, de Gus Van Sant, 1997) e se destaca como quadrinista (escreveu, entre outras, histórias do Demolidor, Besouro Verde e Batman, além de ser dono de uma comic-shop, a Secret Stash) — degenera o extremismo religioso, elevando a interpretação das escrituras sagradas à insanidade.

No meio-oeste americano, a seita assassina liderada por Cooper — temida até pelos neonazistas — resolve decalcar o livro do Apocalipse das páginas da Bíblia e pregar, com veemência macabra, uma doentia intolerância, deteriorada por preconceitos, no raio de atividade da paróquia da Igreja das Cinco Pontas. Barricados numa fazenda isolada, armados até os dentes, os integrantes da Cinco Pontas, em vez de promover quermesses para ajudar os necessitados ou se engajar em causas sociais, sequestram homossexuais e todos os demais que consideram hereges. As vítimas pagam por sua suposta apostasia com a vida, sacrificadas no altar da igreja pelos pecados cometidos.

Investigada por atividades suspeitas, danosas à segurança doméstica, a família Manson de Cooper está sob vigilância das autoridades americanas. Uma força policial liderada por Joseph Keenan (John Goodman) é despachada numa missão de busca e apreensão que prenuncia o pior. A batida interrompe um ritual de expurgo de três jovens infiéis Travis (Michael Angarano), Billy-Ray (Nicholas Braun) e Jarod (Kyle Gallner), capturados numa emboscada pelos falos intumescidos, que desviaram a irrigação sanguínea de seus cérebros para regiões periféricas, o que comprometeu o raciocínio do trio —, e os agentes acabam entrando em confronto com os fanáticos.

Numa tecnicalidade política com o intuito de preservar a imagem das autoridades ianques, Cooper e seus devotos são rotulados como terroristas por alguém em um escritório, e Keenan recebe ordens de executar tudo o que se mexer dentro do perímetro. A missão é realizar uma sequência de “A casa dos mil corpos” (Zombie, 2003), transformando a fazenda num mausoléu.

O filme possui uma premissa que inspira possibilidades e atiça expectativas. Só que Kevin Smith peca na construção do roteiro, que abandona a discussão acerca da perversão da fé utilizada como arma de dominação e instrumento de lobotomia moral —, centrada no indivíduo, e descamba, após profusão de capítulos e versículos da Bíblia despejados pelo pastor sobre seu rebanho de lobos em pele de cordeiros, para um filme de tiroteio.

Smith perde uma excelente oportunidade de focar nos desdobramentos da violência psicológica infligida por aquela doutrinação perniciosa, trabalhada somente de forma epidérmica. Essa é a diferença dele para um Frank Miller, autor de Batman: ano um, quadrinho que revela os conflitos, incertezas e pudores de Bruce Wayne nos primeiros anos como o homem morcego.

Melissa Leo se sobressai. Na pele de Sara, a atriz veterana esbanja recursos dramáticos — que a consagraram em produções como “Rio congelado”(2008) e “O lutador” (2010) — para explorar a lavagem cerebral que programou sua personagem para obedecer cegamente, como um autômato desprovido de humanidade. Michael Parks, perfeito, é o resultado de uma ideologia retrógrada e radiotiva, que remonta ao século XIX e a Ku Klux Klan e teima em vicejar em tempos de inseguranças. A fotografia de David Klein, parceiro de Smith em trabalhos anteriores, exponencia a tensão em enquadramentos claustrofóbicos e sujos, dignos de “O massacre da serra elétrica” (2003). Uma pena que a sensibilidade de Kevin Smith para o humano deixou a desejar.

Carlos Eduardo Bacellar

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