Um homem-bomba

Cinema não é Literatura e adaptação literária ao cinema é coisa séria. Aí os acertos de “Corações Sujos”, novo longa-metragem do Vicente (sou fã!) Amorim, que estreia comercialmente em 2012 e teve pré-estreia no Festival do Rio.

Enquanto o livro homônimo de Fernando Morais conta a história desconhecida da organização fundamentalista Shindo Renmei, uma espécie de maçonaria nipônica, extrema em preservar valores e tradições, fronteira tênue com os contemporâneos Hamas e Hezbollah, o filme é um thriller de amor.

Em meio às plantações de algodão do interior brasileiro, vive Takahashi (Tsuyoshi Ihara, de “Cartas para Iwo Jima”, Clint Eastwood, 2006), imigrante fotógrafo e casado com Miyuki (Takako Tokiwa), professora numa escola clandestina de ensino japonês, uma bandeira de resistência. Com os direitos de liberdade confiscados, ninguém sabe ao certo se o Japão venceu ou não a Segunda Grande Guerra. Contexto propício para o surgimento da Shindo Renmei, que em nome do Sol Nascente,  finca a espada do Samurai no peito de todo e qualquer coração sujo (nome do grupo dos “derrotistas”, que não acreditavam no triunfo do Japão na guerra mundial).

O protagonista sangrento é Takahashi, que vai de um homem bom (*) e comum a fundamentalista extremado. Desequilibrado em forças opostas, mas que se retroalimentam — ultranacionalismo, realidade marginalizada e amor complacente da mulher –, Takahashi revela que no mais puro dos corações pode residir um coração sujo em potencial. Afinal, o pior inimigo está dentro de cada um de nós. Um homem-bomba.

A produção dá olé em Hollywood. Ambientado na década de 40, o filme tem direção de arte (Flaksman!) e de fotografia (Rodrigo!) de crescer os olhos. O roteiro (David França Mendes!) é mais do que competente. A direção, um primor. Só alguém com a sensibilidade e o internacionalismo (de berço e de experiência) do Vicente para fazer esse filme. Sem falar que ele usa planos abertos e sucessão de cortes, que nos remetem ao bang bang, e nos deixam nos nervos durante todo o filme. Ou seja, é para americano ver. E aprender. E o Vicente é made in Brazil.

(*) Um Homem Bom, Vicente Amorim, 2008.

Visitem o site: http://www.coracoessujos.com.br

Ao amigos internacionalistas e da família desde sempre Fernando Morais e Vicente Amorim, espero que a parceria de vocês seja tão exitosa quanto a de Marçal Aquino e Beto Brant. Mas chamem o David – o cara sabe extrair a essência para cinema da literatura do Fernando. Uma beleza! Que venham os soldados da Guerra Fria (se o Rodrigo Teixeira deixar… hehe!), Operação Peter Pan e tudo mais. Para o Peter Pan, estou à disposição. Conexão umbilical. 😉

Helena Sroulevich

Anúncios

3 Comentários

Arquivado em Filmaço!!!, Helena Sroulevich

3 Respostas para “Um homem-bomba

  1. Daniel Sroulevich

    Muito Bom!

  2. Helena Sroulevich

    Coisa de irmão! 😉 Será que levo a sério?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s