Os Simpsons taciturnos de Todd Solondz

Em “Dark Horse”, o diretor americano Todd Solondz continua sua incansável faxina estética – cujos marcos são “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995), sua obra-prima, “Felicidade” (1998), e “A vida durante a guerra” (2009) –, espanando com fúria inteligente a purpurina que escamoteia os traumas e distúrbios da classe média ianque.

Os subúrbios americanos, locais em que se aglutinam as famílias Simpson taciturnas de um país em crise, são zonas de quarentena sob o olhar aguçado de Solondz. Armado de realismo cruel, cinismo, humor ácido, ironia, sarcasmo e do politicamente incorreto, o realizador desvela, disfarçados sob a maquiagem das aparências, os agentes patogênicos – diagnosticados como medo, ansiedade, depressão, perversão, hipocrisia, insegurança, falência da comunicação entre gerações – que atacam o equilíbrio psicológico de seus personagens.

Abe (Jordan Gelber, o Seth Rogen de Todd, que torna constrangedoramente cômica a existência patética de seu personagem) é o azarão da vez. Anomalia típica de uma família de classe média alta americana, cujos progenitores são Jackie (Christopher Walken, excepcional como um zumbi ambulante, contaminado pelas desilusões que a vida lhe impôs) e Phyllis (Mia Farrow, decadente como a matriarca atolada num casamento que segue na comodidade do piloto automático), ele é a ovelha negra do clã.

Alienado, disfuncional, sem ambições, egoísta, parasita dos rendimentos da família e inebriado por ilusões de gandreza, Abe passa seus dias fingindo que trabalha na empresa do pai – o que lhe dá um salvo-conduto de consciência para torrar dólares no moto-perpétuo da incineradora engendrada pela indústria do consumo.

Desprovido de objetivos (acadêmicos e profissionais), sentindo-se diminuído pelas conquistas do irmão Richard (participação especial de Justin Bartha, que ganhou o cachê mais fácil de sua vida) e incomodado pela preocupação lenientemente frouxa dos pais, ele se torna um adulto sem traquejos sociais, irresponsável, inconveniente e incapaz da autossuficiência. Desestruturado emocionalmente, Abe utiliza como reboco para preencher os buracos de seu coração – que grita mais pela necessidade (biológica) da procriação e (cultural) do prazer efêmero do que pela vontade de forjar qualquer laço afetivo mais substancial – um relacionamento fictício com a problemática Miranda (Selma Blair, atriz-assinatura de Solondz, num estado de torpor manicomial, cujo personagem é movido a substâncias químicas. Miranda, ex-Vi, surgiu pela primeira vez em “Histórias proibidas”, filmaço lançado por Solondz em 2001. Na trama, composta de segmentos independentes, ela participa da episódio Ficção).

Sem conseguir se ajustar em algum lugar entre o hedonismo e a despreocupação da adolescência e os compromissos e a inflexibilidade de regras do mundo adulto, Abe cria mecanismos de defesa para gerenciar sua fragmentação psicológica, permanecendo em constante estado de surto. Ele passa a transitar entre realidade e sonho, orientado tanto no lado de lá com no lado de cá por Marie (Donna Murphy), fiel funcionária da empresa do pai e uma segunda “mãe”. Marie, produto da competência e dos recursos dramáticos de Donna, é a responsável pela melhor atuação no longa. A cougar de Solondz, devoradora de homens em pele de senhora recatada, migra com desenvoltura da subserviência à autonomia, da ingenuidade à malícia, colocando panos quentes na negligência de Abe ao mesmo tempo que tenta transformá-lo em um homem de verdade. Horas extras espontâneas, fora da folha de pagamento, que lhe renderão algumas rugas a mais.

A fotografia de Andrij Parekh é caudatária das lentes de Maryse Alberti (“Felicidade”) e Edward Lachman (“A vida durante a guerra”). Quebra expectativas ao tingir de colorido algo sombrio, que se putrefaz em mentiras. Repetidas diversas vezes, como um mantra, depois de algum tempo elas reluzem como verdades.

Dark Horse”, roteirizado por Todd, torna-se mais significativo em meio aos desdobramentos da crise econômica dos EUA, como o movimento Ocupem Wall Street. Para quem os americanos vão legar essa militância ideológica? Pensando melhor, talvez a pergunta mais pertinente seja: que ideologia (ou ausência dela) é esta que dissolve valores e desconsidera o outro?

Carlos Eduardo Bacellar

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

Uma resposta para “Os Simpsons taciturnos de Todd Solondz

  1. Pingback: Wes Anderson e Todd Solondz: duas faces da mesma moeda | Doidos por Cinema

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s