Arquivo do mês: novembro 2011

Circo Esperança

Sabe o que me parece mais gozado em “O Palhaço”? Incrível mesmo? É que teria tudo para dar errado. Título e tema fora do script metropolitano, um ruído informático mercadológico, um tropeção desses de picadeiro. Mas conquistou o público.

Podia. “O Palhaço” podia ter dado em trapalhada, mas obra de arte com sucesso continua aquela combinação sem receita, às vezes até subversiva (!).

Suponho que na sessão do último sábado (16hs, Unibanco Arteplex), boa parte do público era de quem nunca foi ao circo ou sempre desdenhou palhaço, nem nunca viu o Carequinha na TV (Gente, eu vi…). Porém, o pessoal se encantou e se intrigou com Selton Mello, um palhaço deprimido na vida, cuja graça persiste além da arena circense (como constata em fala sutil, a atriz Fabiana Karla), embora ele a julgue perdida.

A narrativa, cujo fio é o itinerante Circo Esperança, nos assalta de surpresas. “Pontas” divinas não faltam (Moacyr Franco, Jorge Loredo, Tonico Pereira e a própria Fabiana Karla). Ao contrário, os atores dão o tom da competente produção de Vânia Cattani. Partem de um inteligente desenho de “casting”, escolhidos a dedo, conhecidos ou não. São quase a alma do filme — a começar por Paulo José –, se não fosse a maestria da “posta em cena” do diretor Selton Mello, escoltado por uma direção de arte (Cláudio Amaral Peixoto) e figurinos (Kika Lopes) de grande beleza, em sintonia com uma bucólica Minas Gerais.

O filme nos provoca uma gostosa saudade: das crianças que somos e do ingênuo humor brasileiro. Se o palhaço Selton Mello já não tem esperança, perdeu a graça de viver, a sua expectativa é, no mínimo, pueril. Quer alguém que o faça rir, além de um ventilador, que vira a sua hilária obsessão, muito bem pontuada pelo roteiro. No fim de contas, o palhaço quer uma ventania que tudo desarrume. Ele precisa romper.

Prendendo o espectador do início ao fim, com alguma ameaça de perder o alinhavo nas sequências anteriores à despedida do Palhaço da Trupe Esperança, a obra indica que a ruptura é o campo da descoberta. Com ela, ele reencontra o riso, abre-se ao amor e compra, enfim, um ventilador, quase em pacote, um depois outro. E regressa ao Circo Esperança, a si mesmo.

Após “Feliz Natal”, seu primeiro longa, em “O Palhaço”, Selton faz um reveillon de gala e se revela, precocemente, um diretor sensível e maduro.

Claudia Furiati

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Um é pouco, dois é bom, três é perfeito!

Imiscuindo a linguagem documental no âmbito ficcional, como fez, recentemente, o diretor Gustavo Pizzi em “Riscado” (2010), Nando Olival (“Domésticas”, 2001), em “Os 3”, testa a resistência dos laços emocionais de um triângulo amoroso, arquitetado na amizade, utilizando a representação como a cortina de fumaça que nos impede de discernir verdades de mentiras.

Cazé (Gabriel Godoy), Rafael (Victor Mendes) e Camila (a estonteante Juliana Schalch) são jovens universitários como tantos outros que existem por aí. Originários de locais distintos, convergem para um grande centro em busca de emancipação, novidades e oportunidades. Ao se conhecerem numa festa, decidem morar juntos e criam elos (quase) inabaláveis de afeto durante um relacionamento intenso, que agrega companheirismo, inocência e jogos de conquista numa república hormonal.

Um projeto de faculdade sai do PowerPoint e estremece o dia a dia dos amigos: um reality show, patrocinado por uma loja de departamentos, emplaca os três como protagonistas de… suas próprias existências. A ideia do esforço de merchandising editorial é encher o apartamento dos estudantes de câmeras ligadas à web, de modo a acompanhar a rotina do trio pela Internet, como uma novela da vida real on-line. A narrativa realista seria o elemento persuasivo para alavancar as vendas de produtos espalhados estrategicamente por todo o apê, a distância de um clique. Prestes a se formar, os 3 encaram a experiência como uma forma de ganhar algum dinheiro e continuar juntos por mais algum tempo.

O site se torna um sucesso graças às histórias apimentadas, repletas de insinuações provocativas, cujas locações são a cama, o sofá da sala, a cozinha, o banheiro… sabe como é, filme de baixo orçamento. Possivelmente por causa das restrições orçamentárias, não há câmeras no terraço, onde a caixa d’água faz as vezes de piscina. Felizmente as lentes do diretor de fotografia Ricardo Della Rosa estavam a postos nessas ocasiões.

Olival, maroto, tripudia de nossas certezas quando obriga Cazé, Rafael e Camila a transitar às cegas na interseção escorregadia entre honestidade e mentira. Os sentimentos são privados da autenticidade e se transformam em peças de um jogo em que o desejo se torna uma falsificação, um blefe para angariar page views. Os conflitos se confundem com ganchos, e a teatralidade torna ambígua qualquer tipo de interação, paradoxalmente diluindo a força da veracidade, sob suspeição, de aproximações e rupturas.

A realidade se curva à encenação, e não o contrário. Os personagens sufocam em palavras de carinho comprimidas pelas dúvidas. Imersos na ficção, não conseguem fugir do roteiro criado por eles mesmos (ou seria por Nando Olival e Thiago Dottori?): a sedução (segura) da obra em detrimento das incertezas de dizer “quero você”. A essência do relacionamento dos 3 é resignificada num ménage à trois de amadurecimento, não de prazer. Afrodisíaco!

Curiosidade: Nando Olival foi o realizador do simpático curta “Eduardo e Mônica”, produzido pela produtora O2 para a operadora Vivo.

 Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Nando Olival se vale da metalinguagem para, sutilmente, ironizar a sociedade do espetáculo, cujo estandarte, na sociedade atual, são os reality shows.

p.s.2 Curta a trilha sonora de “Os 3”, criada por Ed Côrtes.

p.s.3 Nando, precisamos do telefone da Juliana Schalch. Queremos fazer uma entrevista extensa para o blog. Pode ser?

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