Um é pouco, dois é bom, três é perfeito!

Imiscuindo a linguagem documental no âmbito ficcional, como fez, recentemente, o diretor Gustavo Pizzi em “Riscado” (2010), Nando Olival (“Domésticas”, 2001), em “Os 3”, testa a resistência dos laços emocionais de um triângulo amoroso, arquitetado na amizade, utilizando a representação como a cortina de fumaça que nos impede de discernir verdades de mentiras.

Cazé (Gabriel Godoy), Rafael (Victor Mendes) e Camila (a estonteante Juliana Schalch) são jovens universitários como tantos outros que existem por aí. Originários de locais distintos, convergem para um grande centro em busca de emancipação, novidades e oportunidades. Ao se conhecerem numa festa, decidem morar juntos e criam elos (quase) inabaláveis de afeto durante um relacionamento intenso, que agrega companheirismo, inocência e jogos de conquista numa república hormonal.

Um projeto de faculdade sai do PowerPoint e estremece o dia a dia dos amigos: um reality show, patrocinado por uma loja de departamentos, emplaca os três como protagonistas de… suas próprias existências. A ideia do esforço de merchandising editorial é encher o apartamento dos estudantes de câmeras ligadas à web, de modo a acompanhar a rotina do trio pela Internet, como uma novela da vida real on-line. A narrativa realista seria o elemento persuasivo para alavancar as vendas de produtos espalhados estrategicamente por todo o apê, a distância de um clique. Prestes a se formar, os 3 encaram a experiência como uma forma de ganhar algum dinheiro e continuar juntos por mais algum tempo.

O site se torna um sucesso graças às histórias apimentadas, repletas de insinuações provocativas, cujas locações são a cama, o sofá da sala, a cozinha, o banheiro… sabe como é, filme de baixo orçamento. Possivelmente por causa das restrições orçamentárias, não há câmeras no terraço, onde a caixa d’água faz as vezes de piscina. Felizmente as lentes do diretor de fotografia Ricardo Della Rosa estavam a postos nessas ocasiões.

Olival, maroto, tripudia de nossas certezas quando obriga Cazé, Rafael e Camila a transitar às cegas na interseção escorregadia entre honestidade e mentira. Os sentimentos são privados da autenticidade e se transformam em peças de um jogo em que o desejo se torna uma falsificação, um blefe para angariar page views. Os conflitos se confundem com ganchos, e a teatralidade torna ambígua qualquer tipo de interação, paradoxalmente diluindo a força da veracidade, sob suspeição, de aproximações e rupturas.

A realidade se curva à encenação, e não o contrário. Os personagens sufocam em palavras de carinho comprimidas pelas dúvidas. Imersos na ficção, não conseguem fugir do roteiro criado por eles mesmos (ou seria por Nando Olival e Thiago Dottori?): a sedução (segura) da obra em detrimento das incertezas de dizer “quero você”. A essência do relacionamento dos 3 é resignificada num ménage à trois de amadurecimento, não de prazer. Afrodisíaco!

Curiosidade: Nando Olival foi o realizador do simpático curta “Eduardo e Mônica”, produzido pela produtora O2 para a operadora Vivo.

 Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Nando Olival se vale da metalinguagem para, sutilmente, ironizar a sociedade do espetáculo, cujo estandarte, na sociedade atual, são os reality shows.

p.s.2 Curta a trilha sonora de “Os 3”, criada por Ed Côrtes.

p.s.3 Nando, precisamos do telefone da Juliana Schalch. Queremos fazer uma entrevista extensa para o blog. Pode ser?

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5 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

5 Respostas para “Um é pouco, dois é bom, três é perfeito!

  1. Paulo Henrique Souto

    Fiquei curioso. Parabéns Bacellar temos que divulgar o Cinema Brasileiro,tão distante do público, com o qual se identifica.Como falou Paulo Emilio Salles Gomes, sabiamente: ” qualquer filme brasileiro, diz mais ao brasileiro que o filme estrangeiro”.Saravá.

  2. Pingback: MIOLÃO • Cinema - Os 3

  3. Júlia Quinan

    Maravilhosa resenha! Assisti ao filme e gostei muito dele, uma pena que filmes nacionais tão bons fiquem esquecidos por aí,

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