Arquivo do mês: dezembro 2011

Melhores filmes de 2011

Sempre correndo o risco de ser execrado pelas massas, editei minha lista com os melhores filmes de 2011. Tive certa dificuldade. Hesitei em algumas ocasiões, suei frio em outras. Em determinado momento, tive que interromper os trabalhos para ir ao banheiro, carcomido pelas dúvidas, tamanha era a minha tensão. Acabei encontrando a solução: por que selecionar 10 se posso selecionar 15? Como sou da pá virada, para ficar diferente… Os filmes em destaque foram contemplados com textos aqui no Doidos. Sem nenhuma ordenação específica de valor, aí vai:

Incêndios” (Denis Villeneuve);

Cópia Fiel” (Abbas Kiarostami);

Melancolia” (Lars von Trier);

A pele que habito” (Pedro Almodóvar);

Amor a toda prova” (Glenn Ficarra e John Requa);

Rango” (Gore Verbinski);

O vencedor” (David O. Russell);

Inquietos” (Gus Van Sant);

Meia-noite em Paris” (Woody Allen);

Um conto chinês” (Sebastián Borensztein);

Super 8” (J. J. Abrams);

Medianeras” (Gustavo Taretto);

Amores imaginários” (Xavier Dolan);

O garoto da bicicleta” (Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne);

Cisne Negro” (Darren Aronofsky).

“Não atire, por favor… Estou desarmado!”

Felicidades, saúde e paz. Desejo um 2012 repleto de realizações para todos! Até o próximo ano. Filmes e livros, amigos… Muitos filmes e muitos livros.

Carlos Eduardo Bacellar

 

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Cova rasa de silêncio, escamoteada sob camadas de sangue e pólvora, que encerra horrores

Para @acrobat_, que também atende por Tatiana Monassa. Não a conheço, mas, com seus textos, veio conquistando aos poucos meu respeito intelectual. Ela me ganhou de vez quando, na crítica de “Piratas do Caribe – Navegando em águas misteriosas”, fez uma analogia entre o estilo de vida pirata e a encenação do filme, associando construções imagéticas – atreladas a paradigmas – à estética.

A morte não é o fim. Ela deixa rastros”, diz um personagem de “Incêndios” – produção franco(TS Productions)-canadense(micro_scope) lançada em 2010, mas que estreou no Brasil em fevereiro deste ano. Rastros que a guerra escamoteia sob camadas de sangue e pólvora, criando covas rasas de silêncio que encerram horrores.

Baseado na peça Scorched – título da versão inglesa do texto original de Wajdi Mouawad, traduzido por Linda Gaboriau –, “Incêndios”, dirigido pelo canadense Denis Villeneuve, exuma os dramas do passado hediondo de Nawal Marwan (um bravo! para a atriz belga Lubna Azabal).

Após sua morte, os filhos gêmeos de Nawal, Jeanne (Melissa Desormeaux-Poulin, a irmã que a diretora Julia Bacha tem e não sabe) e Simon (Maxim Gaudette), descobrem, por meio do testamento, que o pai está vivo e que eles têm um irmão. Durante os procedimentos de desvelamento do espólio, são surpreendidos por duas cartas lacradas: uma para o pai, que não sabiam que estava vivo, e a outra para um suposto irmão, cuja existência até então desconheciam. Há instruções para que as missivas sejam entregues pessoalmente.

Como o inusitado não se contenta com pouco, havia ainda uma terceira carta. O acesso a esta, destinada aos gêmeos, é contingenciado pelo destino das outras duas. Jeanne e Simon recebem a missão de encontrar seus parentes, peças do quebra-cabeça incompleto da história da família Marwan. Os trâmites burocráticos são gerenciados pelo notário Jean Lebel (Rémy Girard), preciso como um relógio suíço, para quem Nawal trabalhava como secretária.

Jeanne, embrenhada profissionalmente na matemática abstrata, vai descobrir que a vida, a despeito de teoricamente repudiar o pensamento cartesiano, pode ser reduzida a uma equação simples, de fácil resolução, quando as incógnitas são dispostas na ordenação correta.

O filme, roteirizado pelo próprio diretor, assessorado por Valérie Beaugrand-Champagne, intercala flashbacks da juventude de Nawal, em algum período entre a década de 1970 e 1980, e o presente, no qual seus filhos tentam decifrar quem foi verdadeiramente a mãe numa busca genealógica praticamente às cegas. Fugindo ao padrão do que se espera de uma história tão dura, o roteiro enxerta nas feridas expostas toques de comicidade sutil, sopros de leveza numa história de dor que atenua o fardo de quem assiste – doses homeopáticas de tragicomicidade com uma nível de maestria menor que o do cinema argentino, que transita na interseção entre o drama e a comédia sem escorregar.

O inferno geográfico de Nawal é um país fictício assolado pela guerra civil, cujo estopim foi o conflito étnico-religioso. O diretor possivelmente se inspirou em elementos da guerra civil libanesa, que teve seu período mais trágico nos primeiros anos da década de 1980.

O conflito entre cristãos e muçulmanos funciona apenas como o esboço de cenário no qual os dramas de Nawal se desenrolam. Abafando os ruídos da guerra com os estrondos da devastação interior de sua personagem, o diretor dilui a face institucionalizada do confronto, que poderia abrir margem a (somente) interpretações de cunho político ou ideológico. As atrocidades estão lá, mas as violências audiovisuais às quais somos submetidos nos perturbam com cada vez menos intensidade ao longo da exibição, frente ao espírito carbonizado de uma mulher que se inflamou num ódio desmedido. O ground zero é um coração de mãe programado pelas circunstâncias desumanas para ir de encontro à sua natureza.

O trabalho das câmeras, gerenciado pelo diretor de fotografia André Turpin, é estruturado de modo a esmiuçar o estado emocional de Nawal com uma pegada ficcional, expondo uma miríade disforme de dor, sofrimento e ódio – estado de espírito que desafia o entendimento do espectador. Mas Turpin também articula suas lentes para que elas traduzam cenas que dialogam com a linguagem documental, criando imagens de observação passiva e impessoal, entorpecidas pela realidade implacável.

Uma de minha críticas preferidas chama-se Tatiana Monassa. No livro Os filmes que sonhamos – Vol. I, lançamento recente da Lume Filmes, Tatiana contribui com um texto magistral sobre “Vá e Veja” (1985), do diretor russo Elem Klimov – curiosamente, um filme de guerra, mas uma guerra abstrata, que se desenrola no cerne do personagem, como em “A glória de um covarde” (1951), de John Huston. Algumas ideias de Monassa naquela crítica permeiam este texto. Com a licença dela, gostaria de subverter algumas outras para que sirvam ao meu propósito.

O ponto de inflexão da consciência de Nawal Marwan, e da trama, ocorre quando ela encara um “Hitler” (as aspas são minhas) íntimo, mas ao mesmo tempo desconhecido, estabelecendo uma contradição entre instinto e experiência. Refletindo acerca das palavras de Tatiana, enxergo um pouco mais: “olhar para o rosto de Hitler [neste caso adulto] após termos vivenciado a revolta, a raiva e a dor incitadas pela violência mais grotesca que se poderia imaginar é colocar em xeque não apenas um punhado de certezas e vícios, mas se fazer uma interrogação existencial sem resposta possível no horizonte.”

A guerra travada em nosso íntimo é tanto ou mais devastadora, pois a possibilidade de um armistício se torna complexa quando o inimigo é você mesmo – e não existe salvação, apenas compreensão e aceitação.

Incêndios”, embalado pela trilha sonora do Radiohead, concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro este ano. Perdeu a estatueta para “Em um mundo melhor”, da diretora Susanne Bier. Não é à toa que ele integra a minha lista de melhores produções de 2011. Falando nela, dê uma espiadinha aí em cima.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Susana Schild, não fique com ciúmes…

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Cool Clooney

 

Nossa veia não resiste ao declínio do Império Americano e vamos com “Tudo pelo Poder” na despedida de 2011. Quanto a George Clooney, confesso, é aquela chuva no molhado feminino com direito a Globo de Ouro.

Keep cool…

É verdade que nossos irmãos do Norte adoram a catarse sobre o poder deles. Mesmo assim, meu alento perdura ao sair da sala de cinema, ainda que a esquina do Leblon já tenha cervejeiro demais. Huum… Deve ser esse estilo Clooney (vide Nespresso): cool, original e temporão, um quê balzaquiano de boa safra. Quase noir, embora a cores, o filme é uma certeira síntese entre drama político e thriller, ficção, documento e POLÍTICA.

George, para os íntimos, vem de gostosa contenção. Com (aquele) olhar rasgado, narrador em terceira pessoa e personagem (Governador Mike Morris, candidato à presidência), traz lembranças de “Todos os Homens do Presidente”,”JFK”, “Nixon”, “Nos bastidores da notícia”, “O Presidente”, The West Wing e ainda o caso Monica Lewinsky, a estagiária de Bill Clinton. Porém, qualquer referência desta no personagem de Evan Rachel Wood, é uma mera coincidência, dado que para todo político charmoso há sempre uma boa estagiária…

Nada vulgar no filme, entretanto. Caricaturas passam ao largo. A lente se insinua pela fenda, digladia-se com a linhagem das obras sobre os escaninhos do poder, as campanhas presidenciais e o controle da informação. Violento é o cinismo e ferino é o vazio que se instala na medula da democracia made in USA.

Sim, a história política norteamericana está repleta de The Ides of March (título original de “Tudo pelo Poder”). Adaptação de uma peça de Beau Willimon, também co roteirista, a expressão se refere a 15 de março no calendário romano, ao ponto do meio, à lua cheia e a Julio César, quando um adivinho previne o imperador romano sobre os que tramam contra ele, no drama de William Shakespeare.

O protagonista do filme, o comunicador Stephen Myers (personagem do excelente Ryan Gosling), apesar de descrito como idealista nas sinopses em circulação, é por demais inteligente para ser naive. A interpretação, sob a batuta de Clooney, contém um tom necessário de farsa, desde o início. Ao se tornar o alvo da corrupção, o golpe de Stephen é de mestre, uma vendetta na democracia (como num regime autoritário). No clímax, o bloco do poder se assume intérprete da vontade cidadã. Rearranja-se, após ceder ao dono da área, o Senador Thompson (Jeffrey Wright), um negro, a propósito… Quanto à mídia, faz de tudo pelo poder, mas não é poder algum: apenas se ajoelha ao interesse dominante.

Mais que ilustres coadjuvantes — Philip Seymour Hoffman (Paul Zara), Paul Giamatti (Tom Duffy), Marisa Tomei (Ida Horowicz) — alicerçam a moldura. Como nas obras em círculo (vicioso), “Tudo pelo Poder” termina como começa. Stephen Myers (Ryan Gosling) será apenas — e sempre — o fantoche que antecede a cena do candidato. Não voltará a ser como antes, embora seja o mesmo.

Claudia Furiati

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