Dogville islâmico

O cinema do diretor iraniano Asghar Farhadi é uma armadilha na qual enredamos nossas fraquezas. Quanto mais os personagens se debatem na tentativa de se livrar das situações impostas, mais revelam suas iniquidades morais. O egoísmo – sempre disfarçado de altruísmo hipócrita – revela suas diversas facetas num contexto predatório de sobrevivência social. Foi assim em “Procurando Elly” (2009), filme no qual o misterioso desaparecimento de uma jovem abre a Caixa de Pandora do núcleo de personagens, e é assim em “A separação”.

Farhadi se vale da reciclagem da banalidade para construir sua cama de gato embebida em cerol, na qual os protagonistas esfacelam camadas superficiais de humanidade – aproximando-os de um estado primitivo, no qual a moralidade se torna relativa e a ordem legal se torna um empecilho à liberdade, à reputação e ao bolso.

Um episódio aparentemente prosaico, a separação de um casal, complexifica-se quando é relacionado com o futuro de uma adolescente no Irã, com um idoso que sofre de Alzheimer e com um suposto ato de agressão sofrido por uma mulher grávida que termina em tristeza.

Preocupada com o desenvolvimento da filha Termeh (Sarina Farhadi) sob o regime iraniano, Simin (Leila Hatami) sonha levá-la para o exterior. Seu marido Nader (Peyman Moadi) se recusa a deixar o país, pois seu pai, lobotomizado pelo Alzheimer, requer cuidados intensivos. Inconformada com a desavença entre seus pais, Termeh joga um xadrez afetivo arriscado para impedir a separação de fato. Em meio ao conflito familiar, Nader precisa lidar com Razieh (Sareh Bayat), contratada para cuidar de seu pai. Um desentendimento entre patrão e empregada dinamita atritos, acusações, mentiras, violências, litígios. De inflexões nos detalhes mais simples do dia a dia, o diretor sutilmente arma sua arapuca. A isca é a dúvida em sua suas mais variadas acepções. Elipses no roteiro provocam o espectador. Ele se torna cúmplice ao ser deixado momentaneamente à deriva, imerso em suas suposições e seus preconceitos.

Ao derrubar seus personagens no poço, Farhadi observa que, ao se digladiarem para ver quem alcança a superfície primeiro, eles, ironicamente, exumam comportamentos condenáveis e desrespeitam a si mesmos. Ideias antes consolidadas de bem/mal, pecado/virtude, moral/imoral, verdade/mentira, vontade/dever se embaralham numa guerra psicológica de autopreservação no cerne de cada um deles. Paradoxalmente, quanto mais escalam o poço, mais se afundam em suas próprias razões (relativas), mesmo as menos nobres. Até as motivações mais íntegras são desvirtuadas pelo fluxo inexorável de acontecimentos.

No embate retórico, a razão se perde, ou melhor, deixa de ter relevância. Não há mais que determinar quem está certo e quem está errado. Todos são vítimas das próprias escaramuças. A maior delas é Termeh – em sua formação de caráter é semeado o desencanto e a descrença.

Com uma história ancorada na matéria-prima mais instável da natureza – ou seja, em gente –, desprovida de qualquer tipo de pirotecnia vazia, “A separação” cria a condição para que a nossa mediocridade rompa o dique das aparências. Quando nós fracassamos, o cinema de Asghar Farhadi sai fortalecido.

Partindo do banal, Farhadi cria um labirinto alegórico de emoções que encerra em seus esconsos as contradições e ambiguidades da condição humana.

É cada vez mais raro sairmos de uma sala de cinema com a sensação de que ali assistimos a algo singular, que muda bruscamente o centro de gravidade de nossas convicções e, consequentemente, quem somos. “A separação” provoca essa perturbação. Um filme universal nas suas humanidades. Ninguém sai incólume. Isto é arte. Isto é cinema.

Carlos Eduardo Bacellar

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8 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

8 Respostas para “Dogville islâmico

  1. Mandou muito bem, xará. O filme inspira nossas melhores ideias e palavras.

  2. Andre Luiz

    Sensacional análise de um filme que não deixa dúvida: Sim, é cinema de verdade, como você bem cita. Cienema que flui sem dificuldade, sem subterfúgios e principalmente, sem clichê.

  3. Arrepiei com teu post, Carlinhos. E eu doida por cinema e pra ver este filme desde a Berlinale 2011. Dei mole no Festival do Rio e agora o que me resta é saboreá-lo com pipoca. Mas registro: salve o Cinema Iraniano! Vou ali pra Teerã e volto mês que vem. Beijos pra ti! (não te abandonei, apenas impossível conciliar, no momento, diletantismo de prática!)

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