Mississippi em chamas

I have a dream that one day even the state of Mississippi, a state sweltering with the heat of injustice, sweltering with the heat of oppression, will be transformed into an oasis of freedom and justice.” (Trecho do discurso ‘I have a dream’, proferido por Martin Luther King – Lincoln Memorial, Washington D.C., 28 de agosto de 1963)

A opressão é uma incubadora de insatisfações que o medo só pode represar enquanto for inominável. Quando o medo deixa de ser uma sombra, e ganha contornos nítidos, passa a expor a fragilidade de suas contradições. Para evoluir do esboço à arte final, os únicos empecilhos são o silêncio e a subserviência – que transparecem, propositadamente, uma falsa ignorância.

É desse entendimento que parte o diretor Tate Taylor ao compor “Histórias cruzadas” (The Help, no original), baseado no romance de Kathryn Stockett, cujo título em português é A Resposta. A produção, focando em situações do dia a dia que contextualizam o quadro maior de um período vergonhoso da História americana, questiona a discriminação em seu momento mais agudo, período de intensa convulsão social da nação que hoje tem como líder um negro.

Jackson, Mississippi(EUA), década de 1960. Durante o período de ebulição do movimento de direitos civis, a extemporânea Skeeter Phelan (Emma Stone) retorna à sua cidade natal em busca da experiência profissional que poderá ser determinante para a concretização de um sonho: se tornar escritora. A porta de entrada será o jornalismo, e Skeeter vai conjugar militância com literatura em um trabalho que poderá colocar em jogo muito mais que a contratação por uma editora de prestígio.

Indignada com as perversidades de uma ambiente segregacionista, ela resolve contribuir para a dissolução do apartheid (instituído culturalmente) dando voz às empregadas negras, que, subjugadas pela elite branca, responsável por perpetuar um deturpado conceito de hierarquia humana, sofrem todo tipo de humilhação e maus-tratos (violências físicas e, principalmente, psicológicas).

Skeeter será a ghost writerde um livro apócrifo que terá algumas autoras, preservadas por pseudônimos, dispostas a contribuir com declarações incendiárias acerca da iniquidade das relações sociais em Jackson. A obra dará novos pesos aos pratos da balança da igualdade – embaralhando na percepção da sociedade daquela época conceitos de certo e errado, bom e ruim; e questionando o que era entendido como comportamento moral.

A ideia surge quando a aspirante a Jennifer Egan conhece Aibileen Clark (Viola Davis e sua caracterização do estupro da individualidade e do respeito, dramatizado por meio do olhar) em seu “ambiente de trabalho”. Não precisa ser muito sagaz para perceber os absurdos. As negras podem cuidar dos afazeres da casa e da criação das crianças, mas não podem utilizar o mesmo banheiro dos brancos. Nos ônibus há lugares reservados para negros. E restaurantes e outros estabelecimentos possuem entradas diferenciadas para brancos e negros. Só para ficar citar alguns exemplos ilustrativos… Acho que já deu para notar que o diretor consegue angariar nossa indignação rapidamente.

Relutante no início, Aibileen reconsidera os apelos de Skeeter e topa contar sua história – atitude que, se ela não tomar, ninguém mais o fará (ou assim pondera). Além de reunir coragem para o relato, que terá como ônus um pedaço de si que ela reluta em exumar, Aibileen precisa se esforçar para atrair outras colegas para o projeto. O livro depende de múltiplas vozes para ganhar força editorial.

A principal inimiga delas será Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard), guardiã da moral, dos bons costumes e da política de higiene (?) na cidade. Consumida pela inadequação a um ódio atávico, sem nada melhor para fazer do que fofocar e cuidar da vida dos outros, Hilly espelha as contradições de um país que tem dificuldade em se aceitar porque se reconhece no outro, mas nega essa paridade.

Em sua empreitada contra as convenções, Aibileen contará com o ombro e a verborragia da amiga Minny Jackson (Octavia Spencer), uma Whoopi Goldberg aditivada do sudeste americano que transforma a impertinência em deboche – e nos encanta com seu carinho latente.

Histórias cruzadas” vasculha os incômodos das excluídas para traçar a dor do cotidiano – derivada da barbárie a que são submetidas num ambiente de castração do indivíduo. O microuniverso explorado por Taylor é uma amostra do que acontecia em escala nacional e se refletia na política, na economia, na cultura. É ali, no interior das casas de uma cidade americana, observando, com olhos lacrimejantes, a dinâmica de uma família de classe média, que temos um vislumbre de como a intolerância é concebida e perpetuada. Ela não germina nas altas esferas da política governamental (que pode, também, ser reflexo dos comportamentos sociais), mas no quintal de nossas casas. A fita do diretor não é branca, mas negra. De luto. Mas Tate Taylor tem um sonho…

Carlos Eduardo Bacellar

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4 Comentários

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4 Respostas para “Mississippi em chamas

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  3. A primeira vez que eu vi esse filme, não consegui me emocionar… até comentei com uma colega, “é filme pra sessão da tarde”. Mas aí eu o revi outro dia e me peguei chorando horrores, foi com ele que eu conheci a Viola Davis – que atriz magnifica não?!

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