Moneyball

Ciências e humanidades. Áreas do conhecimento que “antagonizam” no campo das ideias, muitas vezes colocando em lados opostos lógica e intuição, podem provocar revoluções ao convergirem com inteligência para um ponto de menor tensão. Tal simbiose, nem sempre óbvia, nunca descomplicada, pode gerar, na interseção de habilidades, a criatividade necessária para transformar algo tão emocionante e mobilizador como o esporte. O ônus da empreitada, açoitada pelas exigências mercadológicas de práticas que não se bastam mais, pode ser a desromantização de uma instituição americana, o beisebol, no imaginário ianque.

Correndo riscos, o diretor Bennett Miller (“Capote”, 2005) desafia paixões ao transpor para as telas o romance Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game, do jornalista Michael Lewis, supostamente baseado numa história real. Em português o título escolhido foi “O homem que mudou o jogo”. E esse homem é o personagem de Brad Pitt.

Na briga pelo Oscar de melhor ator (vai entender a cabeça dos membros da Academia…), Brad Pitt interpreta Billy Beane, o gestor executivo da equipe Oakland Athletics, ou Oakland A’s para os mais chegados. Para ilustrar a situação da equipe, Beane se vale da espirituosidade: “Existem times ricos e pobres. Aí, tem 15m de merda e depois a gente.” Pelo menos o A’s está adubado…

Ex-promessa do esporte, Billy, quando jovem, teve suas expectativas frustradas em algum lugar entre a teoria e a prática. Agora, com um orçamento apertado em mãos, terá de fazer malabarismo financeiro para montar uma equipe competitiva.

Em uma de suas negociações de compra/venda/troca de atletas, Billy se depara com Peter Brand (Jonah Hill). Adepto das teorias de Bill James – que colocou o beisebol num quadro negro e desmebrou todo o contexto inerente ao termo em equações –, Brand é um economista formado em Yale que enxerga no beisebol não um rol da fama, mas um tabuleiro de xadrez em que cada peça serve a um propósito específico.

Limitado pela falta de grana, sem ter como competir nos moldes tradicionais, Billy aposta nas estatísticas e abstrações numéricas de Brand e monta uma equipe de renegados que, dentro de um padrão coletivo, desenhado pelos cálculos, pode gerar resultados com um aporte modesto de dólares. A nova relação custo/benefício implementada no A’s indispõe Billy com os cartolas do time e coloca seu futuro no mercado do beisebol em jogo.

Deixando de lado todo o beisebolês do filme, que pode assustar quem é proficiente em futebolês, “O homem que mudou o jogo”, ao apresentar a dicotomia entre números e sentimentos envolvidos em um jogo que vai além das vitórias e das cifras milionárias, perde um pouco de força ao desenvolver de modo ralo o tema da redenção, tão caro aos americanos.

Na tentativa de extrair poesia da matemática, o roteiroconstruído por Aaron Sorkin (“A rede social”, 2010) e Steven Zaillian sobre a história de Stan Chervin — entrelaça as oscilações da história de Billy com os rumos do Oakland A’s, tornando toda aquela conformação determinista esperada e piegas. Os melhores momentos de Pitt no filme passam longe das quadras em formato de diamante. Contracenando com Kerris Dorsey, sua filha Casey na ficção, ele transparece o lado paizão, doce e preocupado, distante da frieza pragmática com que promove trocas e demissões.

Por outro lado, para quem ainda tinha dúvidas, a produção consagra o talento de Jonah Hill. Em “Cyrus” (2010), Hill já havia demonstrado capacidade para segurar papéis que se esquivam do cômico caricato e se embrenham nas perspectivas do trágico – fragmentado em nuances interiores que vão da psicopatia à ingenuidade. O gordinho desajeitado e engraçado cresceu, deixando sua parte Jack Black de lado e assumindo cada vez mais seu lado Philip Seymour Hoffman.

Carlos Eduardo Bacellar

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