Oliver “Extremamente alto & incrivelmente perto” Twist

Paris, década de 1930. Nas paredes da estação ferroviária de Gare Montparnasse, há mais do que os olhos podem perceber. Num local de transição, que do movimento incessante extrai uma de suas raisons d’être, existem sonhos inertes. Alguns desses sonhos estão aferrados a desilusões do passado, outros ficaram paralíticos precocemente, avariados pela perda, algo sempre complicado de aceitar. Se a estação tivesse sentimentos, seriam baseados no desejo de realizar sua essência.

O propósito de Gare Montparnasse é permitir a circulação. Se sonhos permanecem enclausurados entre concreto e aço, existe um desequilíbrio entre função e realização. O impedimento de ser plenamente instala uma crise existencial na estação antropomórfica. Tal disfunção só pode ser superada por meio de rachaduras, talhadas pela obstinação, permitindo que o sopro quente da esperança impulsione as velas da imaginação.

Martin Scorsese, apaixonado por cinema, sua fábrica de sonhos, não iria permitir que eles fossem sufocados por muito tempo. Baseado no livro A invenção de Hugo Cabret, de Brian Selznick – segundo o The New York Times parente de David O. Selznick, produtor de “E o vento levou” (1939) –, Scorsese fantasia em 3-D, com a diligência de um artífice que conjuga perfeitamente forma e mensagem, a história de um órfão que colide com a do cinema numa trajetória de aparente desesperança. Valendo-se da memória como reinvenção, e não como reprodução, Scorsese – mediado pelo olhar de criança, o qual se recusa a abandonar – presta homenagem à arte que o encanta e o leva a se deslumbrar em uma sala escura.

Hugo Cabret (Asa Butterfield) é o Cronos da estação ferroviária em questão. Após a trágica morte do pai, ele é arrastado pelo tio (Ray Winstone) para auxiliá-lo na manutenção dos relógios de Gare Montparnasse. Invisível, Hugo se faz presente no escorrer do tempo – como um sinfonia muda, dita o compasso de quem atravessa as plataformas.

Vivendo de pequenos furtos, o menino guarda como única recordação do pai um autômato em frangalhos. Ele acredita que o robô pode encerrar uma mensagem, e não poupará esforços para reconstruí-lo na tentativa de desvelar seus mistérios.

Numa loja de brinquedos que funciona dentro da estação, Hugo se mete num entrevero com um senhor ranzinza que se escuda atrás de segredos. Logo, logo ficamos sabendo que o rabugento é ninguém menos que o mágico, caricaturista, inventor e mecânico Georges Méliès (Ben Kingsley), o Roland ‘Rollie’ Tyler (“F/X”, 1986) do final do século XIX.

Méliès estava presente na primeira exibição do cinematógrafo dos irmãos Lumière. Hipnotizado pela bruxaria daquela tecnologia, que os Lumière entendiam como descartável, Méliès resolveu reproduzi-la. Em 1986, dando novos direcionamentos às suas habilidades como mago, ele inaugurou o Théatre Robert Houdin, transformado em cinema. Brincando com as possibilidades da fotografia, Méliès passou a criar efeitos ilusórios mambembes utilizando truques como sobreposição e stop motion, tornando-se o precursor de efeitos especiais para o cinema. Os irmão Lumière, apegados ao realismo, registravam o mundo com sua tecnologia. Já Méliès ficou trabalhando em seu estúdio, criando, segundo reza a lenda, centenas de obras fantásticas. Nasciam as distinções entre documentário e ficção.

Hugo é uma mistura de Oliver Twist com Oskar Schell (personagem de Jonathan Safran Foer no livro Extremamente alto & incrivelmente perto). Schell – inventor, desenhista e fabricante de joias, francófilo, vegan, origamista, pacifista, percussionista, astrônomo amador, consultor de informática, arqueólogo amador e colecionador de moedas raras, borboletas que morrem de causas naturais, cactos em miniatura, memorabiliados Beatles e pedras semipreciosas –, assim como Hugo, tenta resolver dentro de si a morte do pai. Enquanto Schell busca uma fechadura para sua chave, Hugo se aventura na procura de uma chave para se autômatometáforas de uma ligação que permanece palpável.

Na improbabilidade da ficção, os caminhos de Hugo e Méliès se chocam na encruzilhada do ceticismo e do desencanto. Só que a centelha latente na tristeza do olhar de ambos prenuncia o reavivamento de desejos murchados pelas circunstâncias. Para conferir ao filme leveza, drama e, ao mesmo tempo, o suspense das possibilidades, Scorsese escalou Sacha Baron Cohen como o inspetor da estação, algoz de meninos de rua que vagueiam por Gare Montparnasse, e Chloë “Hit-Girl” Grace Moretz como enteada de Méliès. Sua personagem, Isabelle, se torna parceira de Hugo em suas desventuras e o estimula com sua maturidade e autoconfiança.

Sem ser apanhado na zona de distorção do sentimentalismo, o diretor desfia do relacionamento entre um senhor que deixou de acreditar e um garoto que quer acreditar sua homenagem à sétima arte. Alguns filmes recuperados de Méliès são as ferramentas necessárias para fortalecer um relacionamento improvável e exorcizar cada um de suas negações. Ao compor seu “Super 8” (J. J. Abrams, 2011), às vezes resvalando num didatismo exagerado – arapuca criada por sua própria paixão –, Scorsese mostra competência para um determinado tipo de trabalho com o qual não estamos acostumados. Reiterando sua devoção ao seu ofício, o realizador de “Os bons companheiros” (1990) nos impede de sermos carcereiros de nossa própria fantasia. Foram US$ 170 milhões maravilhosamente gastos.

Aplausos para a sensibilidade do roteiro de John Logan, que já deixou claro sua paixão pelas referências cinematográficas legadas por grandes mestres ao roteirizar a animação “Rango” (2011), para o refinamento da fotografia de Robert Richardson, com quem Scorsese trabalhou em “A ilha do medo” (2010), e para toda a equipe de direção de arte, que realizou um trabalho incrível.

Não é à toa que “A invenção de Hugo Cabret” lidera o número de indicações ao Oscar 2012, somando 11.

 Carlos Eduardo Bacellar

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