Extremamente equivocado

Nem todas as imagens valem mais que mil palavras. Melhor seria dizer que nem todas as imagens podem ser depreendidas por mil palavras, principalmente quando elas machucam tanto. Mas a incompreensão da perda pode ser um estímulo emocional para colocar essas (in)certezas à prova – e nada melhor que um escritor talentoso para nos desafiar com abordagens diferenciadas.

Para Oskar Schell, 9 anos – que se apresenta como inventor, desenhista e fabricante de joias, francófilo, vegan, origamista, pacifista, percussionista, astrônomo amador, consultor de informática, arqueólogo amador e colecionador de moedas raras, borboletas que morrem de causas naturais, cactos em miniatura, memorabilia dos Beatles e pedras semipreciosas (ufa!) –, o léxico é uma maneira de modelar, valendo-se de construções metafóricas que desafiam licenças poéticas, a massa disforme (e pesada) que ele carrega dentro do peito; e nas botas.

Com uma missão análoga, a de transformar as idiossincrasias de Oskar impressas em celulose em imagens, o diretor inglês Stephen Daldry (“As horas”, 2002) verteu para o cinema “Extremamente alto & Incrivelmente perto”, incensado romance do americano Jonathan Safran Foer.

Tão forte e Tão perto”, título em português do filme, começa com barulho, chamas, cinzas e lágrimas. Oskar (Thomas Horn) perde o Pai Thomas (Tom Hanks), assim mesmo, grafado em maiúscula, no atentado terrorista ao World Trade Center. A data ninguém esquece: 11 de setembro de 2001.

Incapaz de lidar com a morte, obliterando sua juventude com exercícios de autoimolação física e psicológica, o garoto encontra nos pertences do Pai uma chave dentro de um envelope com a palavra Black. Entendida como um último sinal do Pai, a chave é o vetor para um série de desventuras de Oskar pela cidade de Nova Iorque, na busca por respostas para as quais não há perguntas.

A maestria da direção de Daldry, senhor das possibilidades oferecidas pela linguagem cinematográfica, não o impede de moldar sua própria forca com as palavras do livro. A personalidade bizarra e pouco crível (mas cativante) de Oskar – um misto de Data (“Os Goonies”, 1985) com a síndrome do pânico e a hipocondria de Woody Allen – funciona no scrapbook de Foer, que utiliza as páginas para abusar da inventividade formal – de uma forma criativa como a de Steven Hall em seu Cabeça Tubarão – livro que brinca com a tipografia –, irmã gêmea da excelente narrativa. Como destaca Érico Borgo, em sua ótima crítica no Omelete: “O livro, afinal, tem como diferencial não a história em si, mas a maneira como ele emprega recursos que são possíveis apenas através de um meio gráfico, de insights de diagramação, para narrá-la. São fotos, gráficos, anotações, códigos numéricos, páginas em branco e outros recursos visuais que enriquecem a narrativa e a fortalecem.”

Outro diferencial do livro de Foer é o mergulho no fluxo de pensamento de Oskar – dificilmente o cinema, arte que (especialmente quando falamos de blockbusters) entrega conteúdo prêt-à-porter, consegue competir com a imaginação, atiçada pelas letras. É necessário tomar fôlego para acompanhar a hipersensibilidade e o ultrarromantismo do protagonista.

Em completa contradição com o livro, o roteiro, da lavra de Eric Roth, descontextualiza a improvável relação de Oskar com o misterioso inquilino – personagem que rendeu a Max von Sydow uma indicação a melhor ator coadjuvante –, um senhor misantropo e mudo que aluga um quarto no apartamento da Vó do menino, em frente ao seu prédio, e se comunica por meio de racados num bloquinho. A opção do roteirista retira toda a força de um personagem central e confere uma implausibilidade forçada àquela relação, ancorada em raízes que apodrecem num passado brutal.

A qualidade da fotografia de Chris Menges e a inteligência da montagem de Claire Simpson destoam num trabalho equivocado. O filme disputa com “Cavalo de Guerra” (Steven Spielberg) o Oscar de pior entre os melhores, sem dúvida.

O crítico Carlos Alberto Mattos, em sua página no Facebook, disse o seguinte a respeito da produção: “‘Tão Forte e Tão Perto’ é mais uma demonstração de que a ideologia da autoajuda penetrou fundo na dramaturgia americana: perdas, culpas, superação etc. Duas tragédias históricas são exploradas num roteiro sentimentaloide, inverossímil, previsível e, no fundo, bastante desonesto.”

Infelizmente, é mais um caso de transposição para as telas que fracassa. Mas, por favor, não desista da obra literária — tenho faro para boas histórias e textos. Não devemos julgar o livro pelo filme, ou algo do tipo. Bem, sou suspeito para falar… Afinal, sou apaixonado por eles, os livros.

Carlos Eduardo Bacellar

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1 comentário

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