Coração a 180km/h

A franquia “Transporter” só vingou até o terceiro filme porque não havia concorrência. Com “Drive”, filme baseado no livro homônimo escrito por James Sallis, o diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn acabou com o monopólio de Frank Martin (Jason Statham).

Quem pode tirar Frank do mercado é o Motorista encarnado por Ryan Gosling, galã hollywoodiano da atualidade e o Steve McQueen do século XXI. Na trama de ação com alta octanagem de romance (ou seria um romance aditivado com tomadas de ação?), o personagem de Ryan (soberbo no papel) é um mecânico que faz bicos como dublê de filmes de ação e ganha um extra alugando sua habilidade no volante para empreitadas ilícitas. Ele é o cara que você vai querer contratar quando precisa de extração eficiente da cena do crime.

O Motorista alude ao arquétipo do Pistoleiro sem Nome encarnado por Clint Eastwood na Trilogia dos Dólares, de Sergio Leone – que bagunçou com o conceito de retidão de caráter e com o de maniqueísmo no Velho Oeste, imortalizados na figura icônica de John Wayne. Anti-herói pronto para dar uma de Anderson “Spider” Silva e transformar qualquer recinto numa arena de MMA, se for necessário, soturno, lacônico, independente, cínico e intuitivo, ele transita com seus veículos, guiado por sua moral ambígua, às margens da lei, na interseção do que deveria ser feito com o que é necessário para sobreviver.

Sua situação se complica quando ele conhece Irene (Carey Mulligan, a mulher que durante alguns segundos me fez esquecer Anne Hathaway), sua vizinha de porta. Sempre elas… A garçonete, necessitada, exala feromônios de carência ao receber a atenção do Motorista. Standart (Oscar Isaac), marido de Irene, sujeito que não teve o bom-senso de contratar os serviços do Driver na hora de desafiar para um pega o Código Penal, amarga um tempo atrás das grades. A beldade, sempre de olho em seu filho Benicio (Kaden Leos), não precisa acessar o site de traição The Ohhtel para engatar um relacionamento extraconjugal. É só bater no apartamento ao lado. Pseudorrecatada, olhando para o Motorista com cara de cadelinha abandonada, ela pensa com seus botões: “Quero você dentro de mim agora, mas, por causa da minha [falsa] moralidade, vou tentar refrear minha luxúria e fazer jogo duro enquanto você se debate de desejo tentando encontrar a forma certa de abrir a porta da garagem.” Ele, como não podeira deixar de ser diferente, capota por ela na primeira curva.

O clima de romance dura pouco. Irene vem com alguns opcionais que o Motorista pode não estar disposto a bancar. Standart sai da cadeia e envolve o novo amigo da esposa numa jogada para tentar livrá-lo da agiotagem penitenciária. A adrenalina, combustível da produção, vem batizada com chantagem, traição, vingança e dólares da máfia. Não há moto…, quero dizer, coração que resista… É a deixa para Nicolas Winding Refn mostrar que aprendeu direitinho os ensinamentos da cartilha hemorrágica de Quentin Tarantino, amante dos filmes de violência e vingança americanos. Se fosse em 3-D, o sangue espirraria da tela. Apaixonado, o Motorista parte numa cruzada autodestrutiva e sangrenta contra os mafiosos de pizzaria – à moda “Gomorra” (2008) –, liderados por Bernie Rose (Albert Brooks, o Michael Corleone do diretor dinamarquês, frio e pragmático) e Nino (Ron “Hellboy” Perlman), para assegurar um futuro para Irene e Benicio.

A fotografia de motel de quinta, a cargo de Newton Thomas Sigel, estoura nos contrastes, conferindo o meio-tom da realidade delirante, mistura do hiper-realismo com a ilusão – o trabalho do diretor de fotografia encontra paralelo no de Vittorio Storaro, responsável pela estilização dos enquadramentos em “Apocalypse Now” (1979) e “O fundo do coração” (1982), ambos do diretor Francis Ford Coppola.

A montagem de Matthew Newman evoca as soluções criativas e ousadas empregadas pelo editor Frank P. Keller em “Bullitt” (1968). Newman consegue manter o suspense com hiatos de expectativa e um ritmo que intercala apreensão e alívio. No processo de escaletagem, a inteligência de Newman modificou a linearidade temporal com segurança, criando opções para o (re)ordenamento de causa e efeito, como Tarantino em “Cães de aluguel” (1992).

E a trilha sonora… Ah, a trilha sonora… A real hero, da College e Tick of the clock da Chromatics embalam sentimentos exacerbados e atiçam nervos expostos naquela atmosfera urbana de sonhos e sangue, um Romeu e Julieta contemporâneo no qual quem toma o veneno somos nós, espectadores.

Gerenciando todos esses elementos, a mão segura de Nicolas Winding Refn, premiado no último Festival de Cannes com a láurea de melhor diretor.

 Agora, caro leitor, o que você só lê aqui…

 Stuntman Mike: a origem

Spoilers à frente! Continue a ler por sua conta e risco…

O dublê psicopata interpretado por Kurt Russell em “À prova de morte” (2007), dirigido por Quentin Tarantino e parte do projeto Grindhouse – em parceria com Robert Rodriguez, autor de “Planeta Terror” (2007), e outros três cineastas que filmaram trailers falsos –, foi gestado no filme de Nicolas Winding Refn.

Na sequência final de “Drive”, o Motorista é esfaqueado por um mafioso. Entre a vida e a morte, ele, assim como Johnny Blaze em “O motoqueiro fantasma” (2007), faz um pacto com o diabo. Em troca de sua alma, o Motorista e seu carro são amaldiçoados e obrigados a vagar sem rumo pelas estradas americanas. Sempre que encontra uma jovem voluptuosa e lubrificada, implorando por sexo casual, o Motorista, agora sob o pseudônimo de Stuntman Mike — a jaqueta agora não é mais prateada, mas negra –, enxerga nela sua Irene. Como sabe que nunca poderá ficar com “ela”, pois poderia comprometê-la com a máfia, ele opta pelo homicídio doloso, utilizando seu carro satânico como instrumento de carnificinas e alavancando o número de mortes no trânsito a cada ano nos EUA.

Quero saber agora se a mulherada não vai pensar dez vezes antes de aceitar carona do Ryan Gosling.

 Carlos Eduardo Bacellar

 p.s. Porra, Ruy!

 p.s.2 Se estiver interessado em esmiuçar as músicas que compõem a trilha de “Drive”, a gente ajuda: clique aqui.

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1 comentário

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

Uma resposta para “Coração a 180km/h

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