Solução simples para problema impossível

Uma das frentes do tsunami de emigração que se irradia da África para a Europa desemboca na cidade portuária de Le Havre, na França. Os indicadores sociais do continente africano são o epicentro de convulsões desumanas que impulsionam a onda de refugiados em direção à esperança – sentimento que, circunscrito ao campo das possibilidades, mesmo que ilusórias, fortalece a vontade de viver.

É em Le Havre que o diretor finlandês Aki Kaurismäki colide duas histórias para expressar seu incômodo com a fragmentação derivada da xenofobia: a do engraxate Marcel (André Wilms, mestre da interpretação) com a do menino Idrissa (Blondin Miguel).

Perseguido pela polícia de imigração francesa, Idrissa encontra na figura paterna de Marcel um porto seguro. O menino está a caminho de Londres, onde vive sua mãe – desdobramento que tornaria “Coisas belas e sujas” (2002), de Stephen Frears, uma continuação de “O porto” (título em português do longa). Flagelados pelas circunstâncias desfavoráveis, eles se reconhecem e se amparam nas dificuldades – o velho dividindo o pouco que tem; o menino, com sua inocência e delicadeza, dando novos significados à vida do veterano engraxate, que luta com dificuldade para levar o pão para casa no fim do dia.

Com uma narrativa minimalista, que remete aos trabalhos dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, como “O garoto da bicicleta” (2011), Kaurismäki subverte a parábola do mecenas social que, com sua prodigalidade, transforma a realidade de um indigente cujo brilho no olhar acena para potencialidades latentes. O diretor descarta qualquer ensinamento moral, ou juízo de valor, ao colocar os dois protagonistas no mesmo estrato de privações, e nos faz questionar se uma França – e de quebra a Europa – não deveria enxergar o outro da mesma forma que o restante dos franceses, tão humanos, necessitados e frágeis quanto qualquer outro. A inteligência do roteiro relega os inconformismos políticos a um ruído de fundo, quase inaudível para pessoas preocupadas com comida e abrigo, e que só se torna concreto na truculência da repressão.

Nas escaramuças para defender Idrissa das autoridades, Marcel conta com a ajuda de vizinhos e amigos para driblar o faro do policial Monet (Jean-Pierre Darroussin), o inspetor Clouseau que deu certo – ou o outro lado da moeda do personagem de Peter Sellers, agora imortalizado por Darrousin no drama de Kaurismäki. Nas cenas mais memoráveis do filme, Marcel e Monet se desafiam em combates retóricos que logo se articulam como uma dança, coreografada pelo entendimento e respeito mútuos.

Paradoxalmente, a esperança da ficção não é ilusória. Aki Kaurismäki desmonta o preconceito com a simplicidade da solidariedade. O impossível somos nós.

 Carlos Eduardo Bacellar

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