Espeleologia ontológica

Quando Brandon Sullivan, personagem de Michael Fassbender em “Shame”, nasceu, um anjo torto, desses que vivem na sombra, disse: Vai, Brandon, ser gauche na vida! Brandon é um viciado em sexo. O bem-sucedido homem de negócios, na Nova Iorque do século XXI, num exercício de imaginação, diz que gostaria de ser um músico na década de 1960. Deslocado, vivendo hedonisticamente o presente com a cabeça no passado, ele fantasia ser o que nunca foi, nem nunca será.

As labaredas da satiríase de Brandon são oxigenadas pelas contradições da palavra saudade, expressão que funciona como metáfora pervertida dos conflitos emocionais do protagonista do segundo longa do roliço diretor inglês de ébano Steve Rodney McQueen – o realizador, informação que nem o WikiLeaks tem, certamente contratou como preparador de elenco Michael Douglas para auxiliá-lo na composição visceral de Fassbender.

A definição mais poética de saudade que já encontrei é da lavra de António José Saraiva. Diz Saraiva que “o sentimento chamado saudade caracteriza-se pela sua duplicidade contraditória: é uma dor da ausência e um comprazimento da presença, pela memória. É um estar em dois tempos e em dois sítios ao mesmo tempo, que também pode ser interpretado como a recusa de escolher: é um não querer assumir plenamente o presente e não querer reconhecer o passado como pretérito. Do ponto de vista da atividade, é um acelerador combinado com um travão simultâneo, se é possível usar imagens mecânicas em matéria de tanta sutileza qualitativa.”

E mecânica é a Nova Iorque captada pela fotografia de Sean Bobbitt – cidade difusa, que funciona como o painel de controle de um grande sistema processador de substâncias orgânicas; as luzes, sombras e sons conferem à ambientação fora de foco a aparência de uma junkebox que não sintoniza em lugar algum – captamos somente estática emocional.

A adicção de Brandon o transformou numa máquina de foder – não por prazer, mas por compulsão. Ele contabiliza mais penetrações do que o astro pornô Dirk Diggler, personagem de Mark Wahlberg em “Boogie Nights” (1997). O metrô passa cheio de pernas; mijou sentado não é sapo, Brandon traça. Quer dizer, até a terceira parte do roteiro, assinado por McQueen e Abi Morgan. Dali em diante a fauna e os gêneros se diversificam para dar vazão aos imperativos do descontrole psicológico – e nem todo gel lubrificante do mundo pode modificar os resultados devastadores da fricção entre pulsões e os freios racionais de emergência, que nos impedem de despencar no vazio de nós mesmos.

Militando pelo dinheiro ou coração de Brandon como ativistas do Femen, mulheres passam por ele como mãos por maçanetas de banheiros públicos. A excitação descontrolada do personagem não surge da sedução, do carinho e do envolvimento, mas da usurpação do corpo alheio, empalado pelo falo intumescido – degenerado, ele não transa, mas copula como um animal.

Com mais material pornô em casa do que um adolescente na puberdade, detentor do título que antes era do cantor Wando (o homem com a maior coleção de calcinhas do mundo), punheteiro entre um coito desprovido de significado e outro, Brandon, no piloto automático, se satisfaz com o gozo fácil e efêmero até a chegada de sua irmã Sissy – Carey Mulligan que, inconformada com os efeitos no público masculino do topless de Anne Hathaway em “Amor e outras drogas” (2010), parte para um (all!!!)less, mostrando a verdadeira cor dos caracóis de seus cabelos –, com quem tem uma relação trinitrotoluênica de incesto reprimido, sugestionada pela bipolaridade do envolvimento, que despenca abruptamente do carinho ao ódio, do acolhimento à repulsa.

Em “Hunger” (2008), obra com a qual debutou na seara de longas-metragens, McQueen também explorou o corpo como templo pagão – invólucro de carne que evoca o sagrado e o profano; a virtude e o vício; a danação e a absolvição. A pedido do Doidos, o crítico Marcelo Janot descreveu suas impressões acerca do longa de estreia de McQueen: “o que se nota em ‘Hunger’ é o olhar de um artista visual que sabe como se expressar através da câmera, sem exibicionismo algum e respeitando o tempo cinematográfico. Impressionante como o filme, apesar de todo o requinte imagético, é cru e realista, com um forte conteúdo social e político, mostrando uma maturidade rara em um estreante.”

Em “Shame”, a presença de Sissy é o catalisador da espeleologia ontológica deflagrada por Brandon. Adentrando cada vez mais fundo na busca de si mesmo, ele se autoflagela ao encontrar em seu cerne desejos dos quais não deveria gostar, mas nos quais se regozija – como num poema de Drummond, conspurcado pela ausência de licença poética. É ali que Deus e o Diabo se encontram na terra do Tio Sam e o Cinema, o verdadeiro Cinema, acontece.

As faces, ou personas, de Brandon formam uma figura de origami inexpugnável – desdobradas para transparecer o que se oculta nos esconsos do verdadeiro eu, desvelam deformações ainda maiores consumidas num misto de nojo, culpa, arrependimento, fraqueza, impulsividade, desesperança… Brandon se entrega à luxúria desprovida de sentido, um fim em si mesma, não na medida em que Deus o abandonou, mas, fraco, porque desistiu de si mesmo. Como a Mulher que Ri – versão feminina do Coringa de Heath Ledger –, prostituta da casa de caridade do filmaço em cartaz “L’Apollonide (Souvenirs de la maison close)”, do diretor francês Bertrand Bonello, Brandon é consumido por seu sêmen, que o preenche e é expelido na forma de lágrimas de esperma; lágrimas que embaçam seu discernimento.

O mundo é vasto, mas o coração de Brandon não. Ele o aprisiona com fluidos corporais – bombeando sangue em excesso para a extremidade movida pelo lado mais perturbador de seu inconsciente – que teimam em ser excretados, imobilizando-o num lugar em que ele se deleita gozando de ódio, dor, tristeza e vergonha.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Efeito colateral: os afrodisíacos “Shame” e “L’Apollonide (Souvenirs de la maison close)” apimentam qualquer relacionamento. Garanto!

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5 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

5 Respostas para “Espeleologia ontológica

  1. souto

    experimente escrever a critica sem parecer um drogado

    • Souto, por enquanto estou em reabilitação. A minha verve deve ser produto da crise de abstinência.
      Assim que me livrar completamente do vício, vou tentar me redimir.
      CEB

      • Estou fazendo um exercício e excluindo a palavra drogado do meu vocabulário. A melhor palavra é usuário e o moço do filme precisa é de redução de danos. 🙂
        Irei assistir (no caso, download mesmo – não me julgue, moro na colônia). Obrigada pela dica, C!
        Abraços.

      • Júlia, estou até emocionado com seu recado… Achei que você nunca estivesse ouvindo. Obrigado por nos prestigiar.
        Quem sou eu para julgar alguém? Adorei o “C” 🙂 Apareça mais vezes.
        Beijão!
        CEB

  2. Pingback: Os melhores e, claro, os piores filmes de 2012 | Doidos por Cinema

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