Arquivo do mês: abril 2012

Mulher de faces

Passar sete dias com Marilyn Monroe é contraindicado para a saúde – mental e emocional. A exposição prolongada às variações de estados de espírito da diva hollywoodiana pode levá-lo à loucura de duas formas: ou tapeando seu coração, que vai se atirar na ilusão amorosa como um beduíno, perdido no deserto, atira-se na miragem de um açude, ou ludibriando suas ideias, o que irá apertar um pouco mais a camisa de força para que você não se sinta fora de moda no manicômio mais próximo.

São os efeitos barrocos de Marilyn, que sempre esgarçou os homens, dividindo-os entre o céu e o inferno, que o diretor Simon Curtis explora em “Sete dias com Marilyn”.

A bipolaridade da atriz (interpretada por Michelle Williams, que incorpora uma Bruna Surfistinha que fala inglês e não cobra para fazer sexo) – movida a drogas (lícitas e ilícitas) – se entrelaça com o desenvolvimento emocional de Colin Clark (Eddie Redmayne, cumprindo seu papel). Na década de 1950, durantes as filmagens da comédia romântica “The Prince and the Showgirl”, ou “O Príncipe Encantado”, título em Português, Colin, então terceiro assistente de direção, teria supostamente compartilhado da intimidade de Marilyn. Hoje um documentarista, Colin registrou esses momentos num livro de memórias, que serviu de fonte para o roteiro de Adrian Hodges. Nos bastidores de “O Príncipe…, lançado em 1957, a maluquice da deusa loura, estimulada pelo ‘método’ de Paula Strasberg (Zoë Wanamaker), colidiu com o profissionalismo ortodoxo de Laurence Olivier (Kenneth Branagh, irretocável), diretor-ator britânico do longa. Primeira vítima de Marilyn, Olivier quase foi parar no hospício ao ter de lidar com os caprichos da queridinha oxigenada dos ianques. O segundo homem a cair aos pés de Marilyn, alvejado direto no coração por uma mentira, encorpada pelos sonhos da falta de experiência, foi Colin.

Norma Jeane Mortenson se tornou radioativa para si e para os outros quando se tornou Marilyn Monroe. Sua beleza obliterava suas fragilidades e irradiava inadequação (dos outros), o que a tornava presa e predadora de um jogo que ela mesma inventou. Com um passado afetivo conturbado – ausência de um lar estável e diversos relacionamentos conturbados, que resultaram num perigoso desequilíbrio emocional –, ela criou camadas dramáticas para se afastar de quem verdadeiramente era. Marilyn era uma personagem quando não estava atuando e um simulacro de Norma quando estava. Seu talento vinha de uma inocência e de trejeitos descuidados, maliciosos na ingenuidade e na composição pouco orquestrada, instintiva, conferindo-lhe um aspecto de doce boboca – que não nos perturbava com mais intensidade do que todo o resto. Uma Gabriela de Jorge Amado depois de um banho de loja. Michelle Williams capta com competência as contradições (e aflições) da atriz – para ser amada, seduzia por meio de artifícios que afloravam em suas curvas, mas passavam longe da verdade de seu coração.

Carlos Eduardo Bacellar

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Etéreo e Só

Senti-lo da tela é puro êxtase e veria tudo outra vez. Wagner Moura, Selton Mello, Lázaro Ramos, perdoem-se. E a mim também. Mas o Santoro é fundamental: Heleno de Rodrigo é de botar todo mundo na chuteira.

Discorde se quiser. Ou se puder vencer o preconceito, sair de casa e ir ao cinema. Admita, como o faço agora, que a rendição ao “star system” (colonizador) atordoa as cabeças… Salve, pois, minha filha Helena (Sroulevich, helena sobretudo), que me carregou prá ver Heleno sem me dar direito a “Drive” ou “Shame” no feriado. E como se não bastasse, para sentar na primeira fila, em sala de lotação esgotada, mas esqueci do sacrifício. Ante os créditos finais, um chorinho de orgulho me brotou pelo desempenho extraordinário desse ator internacional.

Mas, afinal, por que Heleno? Jogador de futebol que nem de seleção foi, não foi prá Copa e nem jogou no Real Madrid (!). Seus tempos eram outros, mas o filme não é nada disso. Heleno é a viagem de um ávido, devasso, um subversivo narciso, desajustado suicida, extremista, violento, sifilítico e visceral, que só queria meter na rede e entrar na delas… Um cara a fim de gol, sedento de vida e doido de morte, intenso e perdido no Éter (seu vício maldito).

Da personalidade de Heleno, o diretor José Henrique Fonseca não teve a pretensão de explicar, graças a Deus. Heleno é sem razões. Delírio diacrônico, o filme se monta sobre os destemperos do personagem até o seu (provável) último chute (sequência final). Presente e ausente, o diretor se dissipa generoso e doa a obra ao protagonista, conspirando (!) com a câmera de Walter Carvalho que o engole em closes, devora em ângulos e perpassa a alma com um presente sutil: a arte de um maquiador (Martín Macías Trujillo).

Bicho de sete cabeças… Um filme me levou ao outro, inevitável. A meu ver, a experiência anterior de Santoro no filme de Laís Bodanzsky é um forte substrato da interpretação de Heleno, escoltada por duas “deusas bandidas” (Alinne Moraes e Angie Cepeda) e um competente time de coadjuvantes e pontas, com destaque para Ernani Moraes (que não deixa o roteiro cair, quando a gente sabe já estar perto do fim).

Heleno, enfim, talento espantoso e marginado, quando mercantilismo no futebol era ainda introito, inserta-se na desilusão de hoje, em que os craques perderam a camisa e as glórias. Heleno era um botafogo fiel. Etéreo e Só.

Claudia Furiati

p.s. Duas senhoras no banheiro do Arteplex, após o término da sessão, perguntavam-se porque as mulheres de Heleno não se infectaram com a sua doença. Faz sentido.

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Quero ser grande às avessas

O processo de criação do diretor canadense Jason Reitman tem início na insatisfação. Do sentimento de incômodo gerado por ela, Reitman aborda em seus projetos quebras de expectativa, sempre estruturadas na polêmica, que deslocam seus personagens para a quarentena do ostracismo psicológico e social.

Obrigado por fumar” (2005) expôs as contradições de Nick Naylor (Aaron Eckhart), porta-voz da famigerada indústria do tabaco – um lobista meio macunaímico que precisava aumentar a incidência de câncer de pulmão ao mesmo tempo que dava uma de pai modelo. Juno MacGuff (Elle Page), protagonista do segundo longa de Reitman, teve que amadurecer na marra ao lidar com uma gravidez inesperada em sua adolescência. Foi com “Juno” (2007) que a ex-stripper, autora e roteirista Diablo Cody ganhou o Oscar de melhor roteiro original na cerimônia de 2008. Já em “Amor sem escalas” (2009), Ryan Bingham (George Clooney) era o vetor operacional de uma empresa cuja especialidade é demitir pessoas de modo cirúrgico.

Jovens Adultos”, novo longa do cineasta, outra parceria com Diablo Cody, que assina o roteiro, dá um passo além: a insatisfação gera o deslocamento e a sensação de vazio. Tal despertencimento, ou incompletude, não se resolve com reflexões e adaptações, o que se espera de uma pessoa equilibrada – descamba para a neurose. Filme que começa no tom melancólico (mas de promessas) de “Elizabethtown” (Cameron Crowe, 2008), logo degenera para um caso manicomial.

Mavis Gary (Charlize Theron) é ex-it girl e autora fracassada de uma série para “jovens adultos” que, inconformada com as desilusões do presente, decide resgatar o passado da maneira mais destrutível e inconsequente possível. Num delírio tardio e irresponsável de juventude, quando era a garota mais popular do colégio, ela encasqueta de rumar para sua pequena cidade natal Mercury (Minnesota), no Meio-Oeste americano, com o intuito de resgatar o relacionamento com seu high school sweetheart. Detalhe: Buddy Slade (Patrick Wilson, o neurocirurgião operador de milagres Michael Holt da série A Gifted Man, em cartaz no Universal Channel; médico que deveria ter operado a personagem de Mia Wasikowska em “Restless”, do Gus Van Sant – ela ainda estaria viva…), seu objeto de desejo, está casado, apaixonado e acaba de ter o primeiro bebê. Mas Gary confia no seu taco, ou melhor, na sua caçapa, e não se intimida com a concorrência.

Perdida na construção de vida fantasiosa arquitetada por seus delírios, ela transfere para a literatura uma ficção que, apesar de se valer de elementos cotidianos, não encontra nenhum respaldo na realidade.

Ah, Mavis, se você pudesse ter acesso à máquina de desejos que transformou a vida de Josh Baskin (“Quero ser grande”, 1988)… Matt Freehauf (Patton Oswalt), geek, ex-colega da beldade e sua âncora no mundo real, alerta a (nova) amiga para o fato de que ela era muito pior quando nova. Superficial, insensível, pedante, egoísta… Os adjetivos pejorativos engasgam na garganta de Matt, apaixonado pela ex-prom queen desde sempre. Mavis não percebe que o melhor não depende dos outros, mas dela mesma – perdida de si, não resta a ela outra alternativa, exceto a perturbação, que tateia no escuro de seus pensamentos em busca de algo para se fixar, como piche.

Mais amadurecido, Jason Reitman se sente à vontade para – amparado no talento de Charlize, no politicamente incorreto, nos diálogos ácidos e no humor negro (mais light do que o de Todd Solondz) –, fugindo dos distúrbios e inconformações epidérmicos, incrementar sua cinematografia com a profundidade de questionamentos existenciais, questionamentos deturpados pela loucura que existe dentro de todos nós, e só precisa de um empurrãozinho das circunstâncias para emergir. Darren Aronofsky (ídolo!!!) faz escola novamente.

Carlos Eduardo Bacellar

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Nuevo día

AVISO DE ANTEMÃO QUE ESTE POST CONTÉM SPOILERS

E QUE O FILME PODE VIR A SER LANÇADO NO BRASIL.

“Strangers in the Night” (versión porteña) é a música que apresenta o casal  protagonista Sol (Julieta Zylberberg) e Martin (Diego Torres). O filme, ora comédia romântica, ora obra policial, “Extraños en la Noche”, dirigido por Alejandro Montiel e distribuído pela Buena Vista, foi lançado ontem em circuito comercial aqui em Buenos Aires.  O filme conta a história do casal de músicos que tenta se equilibrar em suas finanças, fazendo shows em eventos fechados, enquanto atacam de investigadores amadores de um suposto assassinato no apartamento de cima de onde moram.

A relação com o apartamento de cima onde reside Emilio, assessor político que mais tarde se revelará travesti, começa quando Sol pede emprestado ao vizinho um par de sapatos de sua “esposa” para a apresentação que fará logo mais em  Puerto Madero, na grande sequencia inicial do filme.  Só que ao tentar devolver o par de sapatos no dia seguinte, Sol começa a pressentir que algo misterioso aconteceu naquele apartamento a partir da visita de um sujeito esquisito a Emilio, que supostamente teria viajado e deixado suas chaves com o zelador do prédio para que regasse suas plantas. Deconfiada, Sol rouba a chave do apartamento e leva o namorado Martin para conhecer o local do crime. Todas as provas estão lá. No dia seguinte, levam o zelador Aurelio para que ateste que houve um homicídio no apartamento, mas já deu tempo suficiente para o criminoso limpar todas as provas e deixar o apartamento um brinco. Enquanto atacam de investigadores, a história de amor de Sol e Martin passa por altos e baixos e é colocada em cheque quando Sol recebe uma proposta para ser vocalista de uma banda que sairá em turnê internacional em poucos dias. Mas um “nuevo día” há de vir e Sol decide ficar em Buenos Aires, ajudar a esclarecer o crime e viver feliz para sempre com seu amado Martin.

Sem desenvolver nem a comédia romântica, nem o romance policial, tudo acaba sendo meio bobo. Mas eu me diverti. Isso é que vale. Sem falar que o  filme é um hino de amor a Buenos Aires.  Dá pra ver desde Puerto Madero a bairros como Belgrano e Palermo Viejo. Amo essa Madrid do hemisfério sul. E como eu sou bem legal, deixo para vocês a canção-tema do Diego Torres para o filme. Ah, o Diego Torres! 🙂 Chama-se “Nuevo Día”.

Helena Sroulevich

P.S. Post dedicado a los tíos porteños Leo y Diana Gutman. Los amo y sus 50 años de amor! “Siman Tov, Mazel Tov!”

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Devaneios…

Fonte: Literatura em Foco

Andorinha

Andorinha lá fora está dizendo:
— “Passei o dia à toa, à toa!”

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa . . .

Manuel Bandeira

O texto de Bandeira pode ser caracterizado, taxativamente, como literário? Por quê? Afinal, o que define o que é ou não literário? Perguntas difíceis… Para tentar me aproximar não de uma resposta peremptória, o que talvez seja impossível, mas de uma maior clareza de ideias, recorri à produção de alguns pensadores. Por meio de um quebra-cabeça de abonações de intelectuais do gabarito de Umberto Eco, Jacques Leenhardt, Terry Eagleton e José Luís Jobim, acabei me perdendo no labirinto da literatura. Felizmente, de lá não quero sair…

Embarque comigo:

As obras literárias nos convidam à liberdade de interpretação, pois propõem um discurso com muitos planos de leitura e nos colocam diante das ambiguidades e da linguagem da vida”. Só com essas ideias Humberto Eco já enquadraria os versos de Bandeira na seara da literatura.

Segundo Terry Eagleton, na visão dos formalistas o texto seria rotulado como literário por focar na forma, utilizando a linguagem de forma peculiar e explorando o desvio da norma.

Para os formalistas, a literatura é feita de palavra, e a arquitetura da qual Bandeira se vale para construir seu poema levaria a um ruído na comunicação e, consequentemente, ao estranhamento (não um fim para determinarmos o que é ou deixa de ser literário, mas um sintoma da subversão linguística, do afastamento da palavra do lugar-comum).

A literatura transforma e intensifica a linguagem comum, afastando-se sistematicamente da fala cotidiana. Ainda nas palavras de Eagleton, a literatura teria um caráter não-pragmático, conceito que encontra eco na definição de gratuidade (a fruição estética pela fruição estética) de Jacques Leenhardt. Este descarta a ideia da autorreferência da literatura ao sublinhar que não é por si mesma que ela significa, mas sim pelos processos de interpretação variados que colocam em ação múltiplas dimensões do jogo com o real, isto é, com o fictivo – no poema, a interlocução entre a andorinha e um outro personagem caracterizaria essa reflexão.

Avalizados por uma leitura crítica, não podemos perder de foco que o que é ou não literário escorre pelos poros de filtros de valor, que são alicerçados culturalmente – as normas culturais orientam o gosto estético.

José Luís Jobim, em uma de suas reflexões, envereda numa discussão acerca da arte como objeto de consumo. Em nossa sociedade, na qual a arte é também mercadoria e está relacionada a certas finalidades e práticas institucionais, existe um complexo sistema superestrutural – vinculado à infraestrutura econômica – de divulgação, legitimação e negação de gostos. Desse sistema participam, de maneira diversa e em graus diferentes, os críticos, os editores, o sistema educacional, as galerias de arte, as academias, os muses, os censores, entre outros. Bandeira, bem como outros autores, foi canonizado por esse sistema.

Segundo Jobim, a delimitação das fronteiras entre arte e não-arte, ou literário e não-literário, dá-se no interior de sistemas culturais, cujos elementos constituintes estão inter-relacionados, e somente dentro dos sistemas e nos limites de suas articulações podemos entender o papel desses elementos.

Não são apenas as qualidades endógenas de um texto, contrariando o pensamento dos formalistas, que o farão pertencer ou não à literatura, mas é o próprio sistema cultural como um todo que determinará a classificação do texto.

A poesia de Bandeira relaciona desperdício com tristeza na troca entre o pássaro e seu interlocutor. Numa competição de vazio, ou de miséria, a subversão do cronômetro, acostumado a laurear a velocidade nas competitivas sociedades modernas, inverte as posições de vencedor e perdedor. Na ourivesaria das palavras, algo mexe conosco. Algo que não conseguimos expressar. Essa subjetividade fugidia nos dá uma dica. Não existe uma essência da literatura. A literatura é a essência.

Tudo bem, tudo bem… É melhor voltar para o cinema…

 Carlos Eduardo Bacellar

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Divã onírico em 35mm de Cronenberg

Para o amigo Luiz Fernando Gallego, em agradecimento aos elogios.

Síntese de “Um método perigoso”, do diretor canadense David Cronenberg: uma suruba retórica. Enquanto Freud tem o sexo na cabeça, Jung tem a cabeça no sexo.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Uma crítica à moda Twitter, mais por falta de tempo no fim de semana do que por qualquer outro motivo. Peço desculpas… Prometo me redimir no feriado. Como diria Freud: “O sonho é a satisfação de que o desejo se realize”. Se fico muito tempo sem escrever, passo a sonhar de mais com literatura e cinema e de menos com Anne Hathaway, Carey Mulligan e Cia. Ltda.

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