Etéreo e Só

Senti-lo da tela é puro êxtase e veria tudo outra vez. Wagner Moura, Selton Mello, Lázaro Ramos, perdoem-se. E a mim também. Mas o Santoro é fundamental: Heleno de Rodrigo é de botar todo mundo na chuteira.

Discorde se quiser. Ou se puder vencer o preconceito, sair de casa e ir ao cinema. Admita, como o faço agora, que a rendição ao “star system” (colonizador) atordoa as cabeças… Salve, pois, minha filha Helena (Sroulevich, helena sobretudo), que me carregou prá ver Heleno sem me dar direito a “Drive” ou “Shame” no feriado. E como se não bastasse, para sentar na primeira fila, em sala de lotação esgotada, mas esqueci do sacrifício. Ante os créditos finais, um chorinho de orgulho me brotou pelo desempenho extraordinário desse ator internacional.

Mas, afinal, por que Heleno? Jogador de futebol que nem de seleção foi, não foi prá Copa e nem jogou no Real Madrid (!). Seus tempos eram outros, mas o filme não é nada disso. Heleno é a viagem de um ávido, devasso, um subversivo narciso, desajustado suicida, extremista, violento, sifilítico e visceral, que só queria meter na rede e entrar na delas… Um cara a fim de gol, sedento de vida e doido de morte, intenso e perdido no Éter (seu vício maldito).

Da personalidade de Heleno, o diretor José Henrique Fonseca não teve a pretensão de explicar, graças a Deus. Heleno é sem razões. Delírio diacrônico, o filme se monta sobre os destemperos do personagem até o seu (provável) último chute (sequência final). Presente e ausente, o diretor se dissipa generoso e doa a obra ao protagonista, conspirando (!) com a câmera de Walter Carvalho que o engole em closes, devora em ângulos e perpassa a alma com um presente sutil: a arte de um maquiador (Martín Macías Trujillo).

Bicho de sete cabeças… Um filme me levou ao outro, inevitável. A meu ver, a experiência anterior de Santoro no filme de Laís Bodanzsky é um forte substrato da interpretação de Heleno, escoltada por duas “deusas bandidas” (Alinne Moraes e Angie Cepeda) e um competente time de coadjuvantes e pontas, com destaque para Ernani Moraes (que não deixa o roteiro cair, quando a gente sabe já estar perto do fim).

Heleno, enfim, talento espantoso e marginado, quando mercantilismo no futebol era ainda introito, inserta-se na desilusão de hoje, em que os craques perderam a camisa e as glórias. Heleno era um botafogo fiel. Etéreo e Só.

Claudia Furiati

p.s. Duas senhoras no banheiro do Arteplex, após o término da sessão, perguntavam-se porque as mulheres de Heleno não se infectaram com a sua doença. Faz sentido.

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6 Comentários

Arquivado em Estranhos no ninho

6 Respostas para “Etéreo e Só

  1. Paulo Henrique Souto

    Tb levado pela doce Helena, eu tive o prazer de assistir ao seu lado, só nos primeiros minutos me senti incomodado por estar na primeira fila, pois logo depois o filme te pega e emociona. Quanto a doença transmitida para as mulheres,sou da opinião que o filme sairia do eixo e poderia virar um dramalhão.Felizmente o Jose Henrique Fonseca manteve o foco no afogueado Heleno. Escreva mais minha linda, adoro ler seus textos…bjs

  2. Isso mesmo, Paulo Henrique. Muito boa a resenha da minha mãe. Acho lindo como ela escreve desse maneira tão única, visceral… Parece que consigo vê-la atráves das palavras. Agora, a Pat tem que se pronunciar também. Mais uma carregada pela Helena para assistir ao homônimo masculino. Risos! Ah, e não deixem a “Helena” cair. Helena quer dizer luz aí na escuridão do cinema, a fim de prestigiar o melhor do nosso filme brasileiro. Última coisa: José Henrique Fonseca tem DNA, meu povo. O cara é filho do maior entre os vivos e os mortos: Rubem Fonseca. Fica a dica de coisa boa sempre.

  3. É isso mesmo. Claudia escreve com a liberdade de quem sangra

  4. Carlinhos, sabe que, ela e eu, estávamos conversando sobre a liberdade da blogsfera. E elaboramos em cima da liberdade deste veículo, algo que você sempre fala. Aqui, somos livres. De formatos e interesses. E o resultado sempre é revelador, algo mais literatura e menos jornalismo. Beijão, queridão!

  5. Ver “Heleno” é realmente entrar em êxtase. Rodrigo Santoro superou todo mundo. todos os atores do país. Ele é , hoje, sem dúvida alguma o maior ator brasileiro. Eu achava que ele chegara ao seu limite em “Bicho de Sete Cabeças”, mas Santoro se superou.
    Está simplesmente extraordinário nesse papel de Heleno, mais que um ator, ele “é Heleno” durante o tempo em que estamos diante dele na tela.
    Que alegria constatar que o cinema brasileiro apresenta tamanha qualidade. Que direção impecável, fotografia…Fosse um filme norte-americano e seria o grande vencedor do Oscar: melhor direção, melhor ator, melhor fotografia…

  6. Pingback: Os melhores e, claro, os piores filmes de 2012 | Doidos por Cinema

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