Mulher de faces

Passar sete dias com Marilyn Monroe é contraindicado para a saúde – mental e emocional. A exposição prolongada às variações de estados de espírito da diva hollywoodiana pode levá-lo à loucura de duas formas: ou tapeando seu coração, que vai se atirar na ilusão amorosa como um beduíno, perdido no deserto, atira-se na miragem de um açude, ou ludibriando suas ideias, o que irá apertar um pouco mais a camisa de força para que você não se sinta fora de moda no manicômio mais próximo.

São os efeitos barrocos de Marilyn, que sempre esgarçou os homens, dividindo-os entre o céu e o inferno, que o diretor Simon Curtis explora em “Sete dias com Marilyn”.

A bipolaridade da atriz (interpretada por Michelle Williams, que incorpora uma Bruna Surfistinha que fala inglês e não cobra para fazer sexo) – movida a drogas (lícitas e ilícitas) – se entrelaça com o desenvolvimento emocional de Colin Clark (Eddie Redmayne, cumprindo seu papel). Na década de 1950, durantes as filmagens da comédia romântica “The Prince and the Showgirl”, ou “O Príncipe Encantado”, título em Português, Colin, então terceiro assistente de direção, teria supostamente compartilhado da intimidade de Marilyn. Hoje um documentarista, Colin registrou esses momentos num livro de memórias, que serviu de fonte para o roteiro de Adrian Hodges. Nos bastidores de “O Príncipe…, lançado em 1957, a maluquice da deusa loura, estimulada pelo ‘método’ de Paula Strasberg (Zoë Wanamaker), colidiu com o profissionalismo ortodoxo de Laurence Olivier (Kenneth Branagh, irretocável), diretor-ator britânico do longa. Primeira vítima de Marilyn, Olivier quase foi parar no hospício ao ter de lidar com os caprichos da queridinha oxigenada dos ianques. O segundo homem a cair aos pés de Marilyn, alvejado direto no coração por uma mentira, encorpada pelos sonhos da falta de experiência, foi Colin.

Norma Jeane Mortenson se tornou radioativa para si e para os outros quando se tornou Marilyn Monroe. Sua beleza obliterava suas fragilidades e irradiava inadequação (dos outros), o que a tornava presa e predadora de um jogo que ela mesma inventou. Com um passado afetivo conturbado – ausência de um lar estável e diversos relacionamentos conturbados, que resultaram num perigoso desequilíbrio emocional –, ela criou camadas dramáticas para se afastar de quem verdadeiramente era. Marilyn era uma personagem quando não estava atuando e um simulacro de Norma quando estava. Seu talento vinha de uma inocência e de trejeitos descuidados, maliciosos na ingenuidade e na composição pouco orquestrada, instintiva, conferindo-lhe um aspecto de doce boboca – que não nos perturbava com mais intensidade do que todo o resto. Uma Gabriela de Jorge Amado depois de um banho de loja. Michelle Williams capta com competência as contradições (e aflições) da atriz – para ser amada, seduzia por meio de artifícios que afloravam em suas curvas, mas passavam longe da verdade de seu coração.

Carlos Eduardo Bacellar

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