Verdades artificiais

Para Nathalia Dill – você é o que nos faz sentir

As emoções que o cinema proporciona derivam de sua essência, a imagem, talvez a droga mais poderosa que exista. É (também) com ela, no âmbito da arte – espaço dialético permeado de ambiguidades, polissemia, jogos mentais, provocações dos sentidos – que nosso imaginário é moldado. O diretor de fotografia de uma produção, em quem fala a luz, não é muito diferente de um traficante de drogas. Sempre oculto por trás das câmeras, brincando com lentes, pode projetar, caso seja competente em seu ofício, a ilusão emocional que desejar: felicidade, tristeza, angústia, desespero, solidão… Uma miríade de sentimentos que não se afasta de nós nem quando as luzes do cinema são acesas. Após a primeira exposição, tatuados como um negativo orgânico, nós sempre ansiamos por mais.

O diretor Marcos “Estamira” Prado sabe como explorar nossa adicção, pois ele também é um viciado em imagens. Quem melhor para entender? Documentarista, Prado não consegue mais se bastar no real e é atraído pelas possibilidades sedutoras da ficção. Todo viciado acredita estar no controle, como João Moreira Salles na primeira versão de “Santiago” (2007). Até descobrir que ele é controlado – como um marionete de sua própria técnica. Interferindo na performance de seu mordomo, forçando a transformação da atuação em encenação, Moreira Salles, inconscientemente, pede algo diferente da verdade, algo mais forte, que fala a seus desejos, e transmuta seu documentário em ficção.

Esse conceito relativo chamado verdade ilude os diretores nos documentários – já que o artificialismo é criado quando a câmera é colocada em seu objeto ou personagem – e na ficção – mesmo acreditando que aquilo é uma invenção “controlada”, os cineastas instigam os atores a abraçarem a essência de seus personagens. A diferença é que, apesar de ambos os formatos se basearem nas possibilidades de seus “atores”, a ficção não se esgota no personagem, porque há algo chamado roteiro que desconhece os limites do ser e não teme explorar extremos.

Paraísos artificiais”, primeira experiência de Marcos Prado na condução de um longa ficcional, mistura princípios ativos antípodas que, uma vez repudiados, geram a mais violenta crise de abstinência: desejo e obrigação.

Na trama, que confere contornos hodiernos a um drama shakespeariano, como fez Baz Luhrmann em seu “Romeu + Julieta” (1996), o tráfico internacional de substâncias entorpecentes enreda as histórias dos protagonistas: a DJ Érika (Nathalia Dill, exuberante, expondo em seu exercício de entrega o que tem de melhor, mas que às vezes é escamoteado por aquele jeitinho tímido: talento) e o fiscal da natureza (Luca Bianchi, o Christian Bale carioca, ator mais sortudo do momento).

Após a morte misteriosa do pai, Nando se sente responsável pelo futuro da mãe Márcia (Divana Brandão) e do irmão Lipe (César Cardadeiro). Surge para o rapaz uma oportunidade de levantar uma boa grana, mas Nando esquece que de boas intenções o inferno está cheio. Geralmente, dinheiro fácil e licitude não fazem parte do mesmo enunciado, e Nando se torna mais uma mula do tráfico de substâncias sintéticas entorpecentes que vai parar no xilindró. Rodado em Amsterdam, Recife e Rio de Janeiro, “Paraísos artificiais” delineia de forma caleidoscópica o arco de Érika e Nando. O roteiro, assinado por Prado, Cristiano Gualda e Pablo Padilla, fragmenta espaço e tempo numa viagem que instiga nossa percepção. A montagem, sob responsabilidade de Quito Ribeiro, embaralha passado(s) e presente num encadeamento não linear lisérgico, que nos conduz da euforia à depressão. A direção de fotografia, explodindo em cores hipnóticas que criam o ilusório viciante, é de autoria de Lula Carvalho.

A festa rave, o Woodstock da juventude que está aí, fervilhando de expectativas e possibilidades aditivadas pelas drogas, em que Nando, entorpecido, é cooptado para um ménage à trois psicodélico com Érika e sua namorada, a estonteante Lara (Lívia de Bueno numa atuação de dar inveja a Angelina Jolie em “Garota interrompida”, de James Mangold, 1999) – numa transa avatariana, tintas que brilham sob a luz negra demarcam a fronteira entre corpos que quase se confundem; a roubada em Amsterdam, onde Nando volta a rever Érika e os dois se apaixonam e desmoronam; a saída da prisão e a apreensão com as escolhas erradas do irmão – como em “A outra história americana” (1998), de Tony Kaye; tudo converge para um desenlace que desafia nosso ceticismo acerca de predeterminação – gozo, perdas, sorrisos e lágrimas, encontros, desencontros e reencontros condensados em 96 minutos.

A experiência com drogas marca a vida e o emocional de Nando e Érika – a bala de ácido lisérgico, veneno de Romeu e Julieta do século XXI, atravessa o casal deixando sequelas que zombam da morte. Mas a droga que Marcos Prado divide conosco tem um efeito mais devastador, pois ela transforma mentiras em nossas verdades – e continuamos querendo nos enganar na tentativa de compreender quem somos e de nos aproximar de quem gostaríamos de ser.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Não sei se Deus é um DJ, mas, quando imaginamos um como Nathalia Dill agitando as pistas, temos certeza de que, no mínimo, foi criado por Ele num dia de muita inspiração.

Anúncios

5 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

5 Respostas para “Verdades artificiais

  1. Paulo Henrique Souto

    Bacellar, não sei se o diretor, que acha o cinema brasileiro careta,tenha feito um bom filme, ou mais um filme pra ganhar dindilln, e não acredito que Nathalia Dill seja uma locomotiva,coisa rara nos dias de hoje, atriz ou ator que leva púclico ao cinema, como v. sabe, mas muitos desconhecem a expressão. Mas talvez eu vá conferir.Seu texto é profundo demais para o público que o filme se propoem,Faz o filme parecer “cabeça” miura..Me queira bem.

    • Você tem certa razão, PH. Talvez eu tenha pesado na mão… Se for assistir, vá para curtir. É entretenimento bem dirigido, não um filme do Godard. Como eu poderia te querer mal, amigo?
      Abraços!
      CEB

  2. Quem sabe o filme não tenha sido tão bom, mas acho que isso não impede de que um bom texto seja escrito.
    Concordo plenamente que a imagem pode ser a droga mais poderosa que exista. Gostei do filme, e adorei seu texto.

    • Olá, Giselle! Você conseguiu talhar no meu rosto com sua simpatia um sorriso largo 🙂 Obrigado pelos elogios e por prestigiar o Doidos. Sempre que possível, passe por aqui. Senão, ficamos nos sentindo muito sós, sem saber se há alguém ouvindo nossa doideira.
      Abraços!
      CEB

  3. Pingback: Os melhores e, claro, os piores filmes de 2012 | Doidos por Cinema

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s