“Lo Sceicco Bianco” e a Expiação do Desejo

“Lo Sceicco Bianco” (1952) é o primeiro filme da carreira-solo de Fellini e marca, também, a estreia de duas parcerias importantes para sua filmografia: com Nino Rota, na trilha musical, fundamental na composição de sua marca; com Giulietta Masina, na pele da personagem Cabiria, que daria título e corpo à protagonista no filme seguinte e primeiro grande sucesso do diretor.

O roteiro do filme só caiu em suas mãos por desistência de Antonioni e Lattuada, mas para a crítica da época Fellini era a escolha mais acertada: tinha experiência como escritor de fotonovelas, a veia cômica e gosto pela farsa de costumes, além de uma observação cáustica da sociedade.

O filme não foi bem recebido, nem pela crítica, nem pelos espectadores, e amargou meio século até ser redescoberto e ter reconhecido seu valor de “pequena obra-prima”. Desde então muito já se escreveu a seu respeito, mas há ainda muito outros motivos para se escrever sobre “Lo Sceicco Bianco”. Fait divers.

Mais do que repisar os temas da alienação pela cultura de massas e pela igreja, ou o conformismo pequeno burguês presente e criticado, também, por Fellini nesse filme, o que me interessa discutir aqui, é que não é senão ‘a expiação do desejo’ o tema de “Lo Sceicco Bianco”.

O roteiro do filme nos mostra dois jovens recém-casados, na Itália dos anos 50: eles desembarcam em Roma, em lua de mel, empolgados e decididos a realizar, cada qual, seu próprio desejo.

Wanda, a jovem e ingênua noivinha, deseja encontrar seu ídolo, o galã da fotonovela mais popular no momento (“Lo Sceicco Bianco”, representado por Alberto Sordi); enquanto isso Ivan, o noivo, uma espécie de ‘social climber’ provinciano, busca o reconhecimento do tio, um alto funcionário-público e representante do lado rico e bem-sucedido da família.

Esses dois jovens são o retrato de uma cultura conservadora, mas o desejo da noiva desobedece e desestabiliza a ordem. Com o sumiço da jovem atrás de aventuras com o ator-galã, Ivan tem que encobrir seu desaparecimento da família, no decorrer de toda lua de mel, seguindo uma agenda repleta de compromissos sociais, que culminaria com uma audiência papal, para uma ‘bênção de casais’.

Trata-se, portanto, de um roteiro concebido sobre dois eixos, em torno de duas aventuras distintas e paralelas: a corrida de cada um dos protagonistas, noivo e noiva, atrás do próprio sonho, com direito a toda sorte de contratempos e desencontros, num verdadeiro jogo de esconde-esconde entre os personagens.

Por se tratar de uma história que tem como tema ‘o desejo’ – e como o desejo, segundo Freud, é sempre o desejo do outro – é inevitável que esses protagonistas vivam o choque da fantasia com a realidade e passem por desilusões.

Na busca do desejo que os move, as situações se sucedem e o desejo desencadeia acontecimentos fora do controle, expondo os protagonistas a riscos e perigos, que magicamente, são contornados e os protagonistas escapam de serem desmascarados.

É assim que age e interfere a veia cômica de Fellini: os jovens amargam esse encontro com a realidade, em uma aventura em tom de comédia, de farsa. Fellini se vale mais do recurso de caricatura do que de sátira, para fazer sua crítica social. Ri da tendência dos jovens de se deixarem enganar e serem manipulados pelo coração e pelas convenções sociais.

Ainda que patéticos e beirando ao ridículo, Fellini tem o cuidado de retratá-los com simpatia e ternura, com delicadeza e compaixão. Isto para mostrar o quanto somos vítimas de nossos desejos e sonhos, embora eles sejam tão importantes e necessários na vida – “a vida real é a vida dos sonhos”, diz um dos personagens numa das cenas do filme.

“Lo Sceicco Bianco” é, com certeza, “um film qu’il n’est pas trop tard de découvrir” (um filme que não é tarde demais para descobrir) – como escreveu um crítico francês de cinema, nessa estreia, Fellini lançava as bases de seu estilo autoral e já nos oferecia alguns dos grandes momentos da história do cinema.

Andréa Nogueira é jornalista e pesquisadora

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