Recorte impreciso da experiência

A vida não é momento, mas processo. O hoje deve ao ontem sua constituição – e o futuro deriva dos dois. Se dissociarmos nossas conquistas de nossa história, momentos definidores se transformam, para olhos descontextualizados, em recortes imprecisos de nossa experiência e, consequentemente, de quem somos.

O que fortalece a urdidura de um documentário são os personagens. Se você esgota um personagem em determinada situação, circunscreve o “enredo” pessoal a um momento, o antes se torna uma interrogação e o depois uma incógnita na cabeça do espectador. A incerteza, na ficção, pode gerar uma brecha para o existir, que se espremerá nas dúvidas. Em um doc, se essa incerteza, constituída de vácuos de informação que ilham os personagens, migra do psicológico (onde é muito bem-vinda, pois provoca nossa interpretação) para o registro do real, torna-se traiçoeira, pois enfraquece histórias e nos ilude com uma definição de verdade.

É onde peca a documentarista Julia De Simone em seu “Romance de Formação”. Quem são seus personagens, Julia? Donde eles vieram? Qual é a história de cada um? Como se desenrolou a trajetória de cada um até o sucesso? Sucesso? São questionamentos que não são respondidos claramente ou ficam nebulosos.

Julia acompanhou a rotina de quatro estudantes brasileiros, três no exterior e um no Brasil. O ponto em comum: ambos estão distantes de suas raízes. São eles: Wilian Cortopassi, cursando Química na PUC-Rio; Caetano Altafin, bolsista da Harvard Law School; Victoria Saramago, doutoranda em Literatura em Stanford; e Fábio Martino, pianista, estudante de Música na Universidade de Karlsruhe, na Alemanha.

Além de termos de nos contentar com momentos incomoda a irregularidade dos registros. Quando nos apaixonamos, por um personagem, e todos são apaixonantes, logo somos remetidos a outro. Somos passageiros de uma montanha-russa que, próxima da identificação e da empatia, mergulha na saudade. Essa sensação de desassossego é amplificada pelas dúvidas acerca da bagagem cultural e social dos jovens.

Outro problema é a falsa sensação de que aquela experiência estaria ao alcance de qualquer um que ousar sonhar. Sim, tenho meus preconceitos, como todo mundo. Não me deixo enganar pela palavra bolsista. Caetano parece filho de uma abastada família paulista dos Jardins. Victoria, aos meus olhos, com aquele ar de intelectual francesa do século XIX, me faz imaginar que é produto da classe média alta da Zona Sul do Rio. E nem sei se ela é carioca… Wilian e Fabio poderiam ser o contraponto, mas, novamente, sabemos de menos. E são poucos os que têm formação adequada para pleitear uma vaga no Instituto Militar de Engenharia (IME); menos ainda os que têm um piano em casa para brincar na infância. Duvido que algum deles seja de classes menos favorecidas. Como saber? As informações são escassas. Terreno fértil para os preconceitos, como disse. Um doc elitista? Produto para fisgar o imaginário dos jovens? O encantamento pelas universidades do exterior, especialmente as americanas, é patente na juventude brasileira, o que atrai o interesse para o filme de Julia. O doc não é uma propaganda institucional, mas funciona como uma.

Apesar dessa visão crítica, é um trabalho que merece atenção. É interessante constatarmos o amadurecimento dos personagens. A inocência dando lugar ao calejamento emocional, ao desencanto, ao ceticismo, à desromantização do roteiro que imaginavam para suas vidas. A solidão e o silêncio como companheiros de caminhada.

É muito forte o simbolismo de algumas passagens. Caetano e seu jantar virtual com a namorada, que está no Brasil. Naqueles instantes, ele, paradoxalmente, existe num não lugar, onde leva uma não vida. Canalizado pelas relações geográficas fluidas da modernidade, Caetano é a metáfora de uma geração conectada que se dissolve entre fronteiras e estabelece no espaço virtual suas ligações com o real. No Facebook, por exemplo, rede social que traduz bem a mentalidade americana – que, espertamente, incute em cada um de nós a possibilidade de uma falsa individualização, mas nos torna massa de consumo – nós podemos ser outro, criamos uma identidade publicitária.

Victoria, que traz no sobrenome a literatura. Aprimida pelas estantes de um biblioteca, ela se liberta ao sufocar nas palavras. Por meio da literatura, ela pode experimentar o impossível, os excessos, aquilo que não deveria, mas faz parte de nós. O mais irônico é que, subvertendo o pensamento aristotélico, ele percebe que as absurdidades integram a arte, perseguida como uma abstração intelectual, e a vida tem regras – por isso ela, soterrada em leituras obrigatórias, não consegue terminar o Harry Potter.

O equilíbrio entre ordem e desordem não se complementa. “A experiência do ficcional supõe a experimentação do que não se conhece”, diz Luiz Costa Lima. Um doc não é ficção nem pode estar imerso nela. O desconhecido, se tanto, é a história do(s) objeto(s) do documentarista. “Romance de Formação” se esgota nas bordas irregulares de seus personagens e nos obriga a exercícios de imaginação para entender e preencher experiências, esquecendo-se de algo capital: a fabulação dos sujeitos.

Ou, talvez, tudo que eu pensei com meus botões esteja errado e esses fragmentos de um discurso amoroso dos personagens, desconexos e aleatórios, sejam o objetivo de Juliacapturar esquivos sopros mornos da existência. Roland Barthes nos ajuda a entender por quê: “[…] o discurso amoroso é hoje de uma extrema solidão. Tal discurso talvez seja falado por milhares de sujeitos (quem pode saber?), mas não é sustentado por ninguém; é completamente relegado pelas linguagens existentes, ou ignorado, ou depreciado ou zombado por elas, cortado não apenas do poder, mas também de seus mecanismos (ciência, saberes, artes). Quando um discurso é assim lançado por sua própria força na deriva do inatual, deportado para fora de toda gregariedade, nada mais lhe resta além de ser o lugar, por exíguo que seja, de uma afirmação […]”

Sabe das coisas esse Barthes…

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Victoria entende minha alma vagabunda. Ainda não consegui terminar a tetralogia Crepúsculo e estou arranhando timidamente a superfície do primeiro volume de Jogos Vorazes. Alguém tem o telefone dela?

p.s.2 Alguém viu a Julia Bacha nos créditos? Eu vi!

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3 Comentários

Arquivado em Aprecie com Moderação (dá um caldo), Carlos Eduardo Bacellar

3 Respostas para “Recorte impreciso da experiência

  1. Pingback: Os melhores e, claro, os piores filmes de 2012 | Doidos por Cinema

  2. Marlon de Figueiredo

    Achei o filme bastante interessante: exemplos inspiradores de dedicação à vida acadêmica. Não me senti perdido por conta de inexistir referências à vida pregressa das personagens porque me parece que a posição por eles alcançada independe de classe social. Se porventura integram famílias abastadas, por óbvio, o leque de oportunidades que a eles disponíveis não foi pequeno e caminho nem tão tortuoso como é para a maioria dos brasileiros. No entanto, acho que a mensagem que prevalece é a que ninguém chega à Stanford ou Havard sem obstinação, dedicação e renúncias. É a opção por esse estilo de vida que encanta, sobretudo em tempos em que para a maioria dos jovens viver se resume em manter o face atualizado com a exposição de uma vida perfeita que só existe virtualmente…

    • Ideias interessantes, Marlon. Mas acredito que essa idealização do estudo em faculdades de ponta no exterior se confunde um pouco com a “vida perfeita que só existe virtualmente”. Acho que a contextualização enriqueceria o documentário e o afastaria de uma estética de reality show.
      Abraços!
      CEB

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