Arquivo do mês: junho 2012

Todos os caminhos levam a Woody Allen

Ah, o amor… Para Woody Allen ele é tudo, menos decifrável. E quando me refiro a tudo, é tudo mesmo: romântico, traiçoeiro, sacana, amargo, esquizofrênico, pervertido, safado, suado, excitante, doce, envolvente… Continue ao infinito ou se perca, entregue-se às possibilidades. Allen opta pela segunda opção. Mas não sem antes analisar cada situação que, invariavelmente, o desequilibra para uma síndrome de pânico. Quando esse pacote sentimental é descomprimido naquela cabecinha perturbada, não há como ele não se deformar ao preencher os espaços cenográficos que o diretor nova-iorquino utiliza para tentar tatear as aflições do coração.

Em seu périplo pela Europa, ele chega a Roma. É lá que ele fragmenta suas inquietações sobre o amor em vários personagens, de gêneros distintos. Sim, ele tem sua porção feminina, e ela é bem mais intrigante que seu lado masculino.

Allen sabe que gostamos de boas histórias. Histórias que falem ao nosso cotidiano, mas, ao mesmo tempo, se distanciem dele por meio de absurdos e uma boa dose de esquetes que flertam com a inverossimilhança. E é por meio delas que ele se torna um escritor da comédia que é tentar ser humano. Não conseguir é sua vitória.

O nome do filme? Faz diferença? De qualquer forma está no pôster aí em cima. A trama? Não importa… É um filme de Woody Allen. Todo mundo sabe o que vai encontrar. Todo mundo vai ver, independentemente do que eu disser.

Os atores? Mais importantes são os personagens. E todos levam ao diretor. Provocado pela impossibilidade da certeza, envelopando suas crises no humor autodepreciativo, Woody Allen consegue novamente. A única certeza: boas risadas.

Carlos Eduardo Bacellar

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Pesadelo burtoniano

Mais do que transformar sonhos em realidade, Tim Burton arte-finaliza com sua imaginação os rascunhos de pesadelos que o acompanham desde a infância. Solitário, alienado e desajustado, o pequeno Timothy fazia do horror e do grotesco um ambiente (des)esterelizado que o protegia de um mundo exterior que não conseguia delinear o que havia na escuridão que se alongava no interior do garoto. Sua “excentricidade” precoce o afastou do convívio social, fazendo de sua criatividade mórbida a amiga de todas as horas.

Segundo Paul A. Woods, organizador de O estranho mundo de Tim Burton, almanaque editado pela Leya que reúne textos e entrevistas sobre (e com) o diretor de “Edward mãos de tesoura” (1990), filmes clássicos de monstros em preto e branco, ficção científica dos anos 1950, sessões de desenhos animados exibidas nos finais de semana, contos de fadas em animação e todo tipo de produções amaldiçoadas como trash moldaram a estética gótico-infantil de Burton.

Sombras da noite”, novo longa do mestre do cinema obscuro que acaba de estrear por aqui (cuja matéria-prima é uma produção americana para a televisão de mesmo nome que o título em inglês do filme, idealizada por Dan Curtis), mantém-se fiel às propostas estéticas de Burton – elas, filme após filme, exumam o que está enterrado no inconsciente do diretor, traumas mumificados numa tumba de sombras que se moldam à imaginação fervilhante. Cassius Medauar destaca “o clima sombrio […], atores que sempre trabalharam com ele e visuais fantásticos, como em todos os seus filmes anteriores, um tom de fantasia e desafio, com um pé no obscuro, sempre fugindo do lugar-comum.” Somam-se a esses elementos o grotesco, o surreal, um sentimentalismo mórbido, o humor negro o caricaturismo macabro, o ilógico e uma inocência distorcida que sublinha o desenvolvimento emocional tardio de seus protagonistas. Há também fortes influências da literatura infantojuvenil de Neil Gaiman, como Coraline e O livro do cemitério. Gaiman e Burton operam na mesma frequência fora de sintonia com o comum (ou o que é considerado comum para a maioria). 

Em “Dark Shadows” (no original), Burton comanda uma equipe que reúne o roteirista Seth Grahame-Smith (autor do romance Abraham Lincoln: caçador de vampiros e também roteirista do longa homônimo, dirigido por Timur Bekmambetov e ainda inédito no Brasil); o diretor de fotografia Bruno Delbonnel, que trabalhou em “Harry Potter e o príncipe mestiço” (2009), de David Yates, e “Fausto” (2011), de Aleksandr Sokurov, que entrará em cartaz em breve; seu montador habitual, Chris Lebenzon, responsável pela edição em “A lenda do cavaleiro sem cabeça” (1999), “Peixe grande” (2003), “Sweeney Todd: o barbeiro demoníaco da rua Fleet” (2007) e a versão Senhor dos Anéis de Burton para “Alice no país da maravilhas” (2010), baseada na obra literária de fantasia de Lewis Carroll; a metade musical do diretor, Danny Elfman, com quem ele joga Song Pop; e claro, o combo de dramaturgia com Johnny Depp e Helena Bonham Carter, mulher de Burton, que ocupou o vácuo emocional no coração do diretor deixado por Lisa Marie, com quem teve um relacionamento de oito anos e de quem chegou a ficar noivo. Ou seja, todos com o pé na escuridão e no sobrenatural.

Neste conto de fadas ao avesso, acolhedor como um cemitério, Barnabas Collins (Depp) é fruto de uma família aristocrata inglesa que prospera do outro lado do Atlântico no século XVIII. Para seu azar, ele se torna a obsessão da bruxa Angelique Bouchard (a heartbreaker Eva Green, absurdamente estonteante como sempre; mais para uma pin up afroditiana e menos para feiticeira do mal), com quem teve um caso efêmero. Desprezada por Barnabas, Angelique mata os pais e a amada de sua fixação passional, transforma-o num vampiro, enterrado por quase dois séculos por causa da dor de cotovelo, e se dedica a desgraçar a vida dos Collins.

Quando é despertado por acidente, na década de 1970, o ser efeminado da ordem Chiroptera, que faria Bram Stoker se revirar no caixão, reencontra seus descendentes, arruinados como a mansão em estado de putrefação onde vivem. A chefe anos 70 do clã Collins é Elizabeth (Michelle Pfeiffer, anestesiada pela decadência de sua personagem), responsável por sua filha adolescente (= rebelde) Carolyn (Chloë Grace “Hit-Girl” Moretz), o sobrinho Davi (Gulliver McGrath), projeto de Cole Sear e filho de seu irmão canastrão Roger (Jonny Lee Miller). Os apêndices são o caseiro Willie Loomis (Jackie Earle Haley sujo, fedendo a álcool), a psiquiatra Julia Hoffman (Bonham Carter em uma versão antropomórfica da Rainha Vermelha) e Josette DuPres (Bella Heathcote), a misteriosa tutora nova-iorquina contratada pelos Collins para lidar com os “problemas” de David, sósia da amada setecentista de Barnabas. Outra surpresa desagradável. A bruxa continua na ativa como uma oxigenada empresária do ramo de pesca. E, sim, ela não perdeu o tesão pelo antigo affair, com quem quer negociar e procriar (?). Josette será a nova antagonista de Angelique na disputa pelo cadáver do vampiro.

Os críticos de Burton condenam justamente os ambientes oníricos degenerados que ele estrutura em detrimento da ação dramática. Apesar de serem o grande apelo das obras burtonianas, e continuem encantando plateias do mundo todo, o olhar mais atento, sensibilizado por aquela estética necroteriana, percebe que as atmosferas sistematicamente se repetem, com pequenas variações. O que poderia enriquecer (mais) os filmes são os personagens. Mas é possível que as sessões de Burton com seu analista não estejam fazendo efeito. Ele não consegue deixar de se projetar em suas criações, tornando-as alter egos das mesmas inquietações, envoltas na névoa da solidão e da tristeza, que o perturbam – sempre sublimadas da mesma maneira, valendo-se do bizarro – dê a Burton um cadáver e ele irá transmutá-lo num Woody Allen zumbi pronto para divertir crianças despedaçando gentilmente corpos no picadeiro do Cirque du Soleil. Barnabas é só mais um garoto monstruoso e desajustado com coração de criança e alma antiquada. Outra versão do rapaz com mãos de tesoura e de Ichabod Crane. Depp ainda comete o erro, talvez inconscientemente, por causa da força do personagem, de aproximar Barnabas de Jack Sparrow, o pirata de sexualidade ambígua da franquia “Piratas do Caribe”.

O potencial criativo do bullying psicológico que Tim Burton inflige em si mesmo e o torna uma fábrica de doces absurdidades assustadoras, válvulas de escape de uma alma atormentada pelo horror (que, curiosamente, o conforta), precisa ser desinfectado para evitar os fungos da mesmice – uma linha de produção burtoniana, semelhante à de Ford, no sentido pejorativo. A capacidade do diretor é inegável. Resta ousar.

Reciclando algumas palavras de Woods, talvez seja necessário que o realizador de “Noiva cadáver” (2005) encontre novas formas de reconciliar a poesia do terror barato – levada a outro patamar pela macabra e inortodoxa direção de arte de suas ideias tortas – e seu negrume pessoal com a tragédia silenciosa das aspirações humanas.

Burton precisa deixar os pesadelos um pouco de lado e sonhar mais.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Depois de assistir ao filme, impressionado por não ter ficado impressionado, não consegui pegar no sono, tamanha a frustração. Tive que contar sardas para dormir. Uma, duas, três… Perdi a conta… Novamente… Uma, duas, três…

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Trair é…

O significado de infidelidade, quando recortado de seu verbete no dicionário e decalcado nas relações humanas, perde seu conceito absoluto e se torna, ironicamente, traiçoeiro.

A roteirista iraniana Massy Tadjedin, debutando na direção com “Apenas uma noite” (2010), que só estreia agora no circuito exibidor carioca, explora as camadas semânticas da traição conjugal optando pelo engano como forma de nos conduzir por um complexo labirinto que encerra desejos e afetos latentes.

Joanna (Keira Knightley e sua beleza cadavérica, vestindo modelos de tamanho negativo) e Michael Reed (Sam “Jake Sully” Worthington, fraco…, atuando como o autômato que interpretou em “Terminator Salvation”, 2009) formam o casal aparentemente perfeito. Jovens, bonitos, bem-sucedidos, eles seriam felizes para sempre se a tentação – ou os fantasmas conjurados por ela – não teimasse em desestabilizar a união. Insegura, Joanna encasqueta com Laura (Eva Mendes, predadora de machos indefesos que balançam frente ao terremoto provocado por sua beleza exótica), colega de trabalho do marido e um risco para qualquer relacionamento. A história se desenrola ao longo de uma noite, quando Michael está fora da cidade a trabalho, na companhia de Laura, e Joanna reencontra Alex (Guillaume Canet), um amor do passado que bateu forte e ficou marcado na pele como um hematoma que não sara nunca.

A diretora, que também assina o roteiro, intercala sequências em que Laura e Alex usam todo seu arsenal de sedução para dobrar Michael e Joanna, casal cuja relação é assombrada pela dúvida. Separados pelo espaço, um não sabe do desenrolar da noite do outro, mas nós sim, espiões da intimidade alheia.

A tensão cresce à medida que o roteiro de Tadjedin vai testando uma por uma as defesas contra aventuras extraconjugais dos Reed, que não são inexpugnáveis. Há brechas na couraça da moralidade que o desejo enfraquece com a persistência – e as oportunidades. O espectador vai ao limite junto com Michael e Joanna (perdida emocionalmente nas palavras de Lionel Shriver em O mundo pós-aniversário) e, em determinado momento, se vê torcendo pelo pior – uma catarse que não vai aliviar consciências, mas vai relaxar musculaturas num gozo perverso.

Last night”, no original, lida com algo mais malicioso que a sugestão – por si só catalisadora das fantasias de nossos temores, indefinidos e envoltos no desconhecimento. O objetivo não é inflar nossa libido com cenas tórridas como as protagonizadas por Diane Lane e Olivier Martinez em “Infidelidade” (2002), de Adrian Lyne. A cineasta iraniana não se restringe aos sentimentos de reprovação e provocação que esgarçam seus personagens numa agonia agridoce.

Talvez o maior acerto do filme seja escarnecer de nossos valores, mesmo confirmando espectativas (preconceituosas) machistas. A diretora zomba de nós ao sublinhar uma questão: o que é, afinal, traição? Interrogação que suscita outros questionamentos (sim, geralmente ele vêm em série)… Um jantar secreto? Um beijo? Uma transa? O pensamento no outro? Existe trair mais?

O que pesa mais na balança da infidelidade: sexo vazio e descompromissado ou amar outro com mais intensidade, em silêncio, num leito conjugal burocrático e conveniente? Em “apenas uma noite”, traídos e traidores se revezam em papéis que são relativizados pelas circunstâncias. Massy Tadjedin ilustra que a entrega do corpo não representa nada perto da entrega do coração. Ele bate selvagem, além de nossas desculpas, além de nosso discernimento, além de nossa razão. E trai com força, mesmo sem toque, sem gosto, sem cheiro. Mesmo à distância de um oceano.

Carlos Eduardo Bacellar

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