Trair é…

O significado de infidelidade, quando recortado de seu verbete no dicionário e decalcado nas relações humanas, perde seu conceito absoluto e se torna, ironicamente, traiçoeiro.

A roteirista iraniana Massy Tadjedin, debutando na direção com “Apenas uma noite” (2010), que só estreia agora no circuito exibidor carioca, explora as camadas semânticas da traição conjugal optando pelo engano como forma de nos conduzir por um complexo labirinto que encerra desejos e afetos latentes.

Joanna (Keira Knightley e sua beleza cadavérica, vestindo modelos de tamanho negativo) e Michael Reed (Sam “Jake Sully” Worthington, fraco…, atuando como o autômato que interpretou em “Terminator Salvation”, 2009) formam o casal aparentemente perfeito. Jovens, bonitos, bem-sucedidos, eles seriam felizes para sempre se a tentação – ou os fantasmas conjurados por ela – não teimasse em desestabilizar a união. Insegura, Joanna encasqueta com Laura (Eva Mendes, predadora de machos indefesos que balançam frente ao terremoto provocado por sua beleza exótica), colega de trabalho do marido e um risco para qualquer relacionamento. A história se desenrola ao longo de uma noite, quando Michael está fora da cidade a trabalho, na companhia de Laura, e Joanna reencontra Alex (Guillaume Canet), um amor do passado que bateu forte e ficou marcado na pele como um hematoma que não sara nunca.

A diretora, que também assina o roteiro, intercala sequências em que Laura e Alex usam todo seu arsenal de sedução para dobrar Michael e Joanna, casal cuja relação é assombrada pela dúvida. Separados pelo espaço, um não sabe do desenrolar da noite do outro, mas nós sim, espiões da intimidade alheia.

A tensão cresce à medida que o roteiro de Tadjedin vai testando uma por uma as defesas contra aventuras extraconjugais dos Reed, que não são inexpugnáveis. Há brechas na couraça da moralidade que o desejo enfraquece com a persistência – e as oportunidades. O espectador vai ao limite junto com Michael e Joanna (perdida emocionalmente nas palavras de Lionel Shriver em O mundo pós-aniversário) e, em determinado momento, se vê torcendo pelo pior – uma catarse que não vai aliviar consciências, mas vai relaxar musculaturas num gozo perverso.

Last night”, no original, lida com algo mais malicioso que a sugestão – por si só catalisadora das fantasias de nossos temores, indefinidos e envoltos no desconhecimento. O objetivo não é inflar nossa libido com cenas tórridas como as protagonizadas por Diane Lane e Olivier Martinez em “Infidelidade” (2002), de Adrian Lyne. A cineasta iraniana não se restringe aos sentimentos de reprovação e provocação que esgarçam seus personagens numa agonia agridoce.

Talvez o maior acerto do filme seja escarnecer de nossos valores, mesmo confirmando espectativas (preconceituosas) machistas. A diretora zomba de nós ao sublinhar uma questão: o que é, afinal, traição? Interrogação que suscita outros questionamentos (sim, geralmente ele vêm em série)… Um jantar secreto? Um beijo? Uma transa? O pensamento no outro? Existe trair mais?

O que pesa mais na balança da infidelidade: sexo vazio e descompromissado ou amar outro com mais intensidade, em silêncio, num leito conjugal burocrático e conveniente? Em “apenas uma noite”, traídos e traidores se revezam em papéis que são relativizados pelas circunstâncias. Massy Tadjedin ilustra que a entrega do corpo não representa nada perto da entrega do coração. Ele bate selvagem, além de nossas desculpas, além de nosso discernimento, além de nossa razão. E trai com força, mesmo sem toque, sem gosto, sem cheiro. Mesmo à distância de um oceano.

Carlos Eduardo Bacellar

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3 Comentários

Arquivado em Aprecie com Moderação (dá um caldo), Carlos Eduardo Bacellar

3 Respostas para “Trair é…

  1. Tati

    Nunca achei que fosse dizer isso, mas acho a traição (traição sim!) da Joanna bem mais grave. Enfim, longa discussão, filme bom, que demorou uma eternidade para chegar aqui.
    bjs

  2. Pingback: Os melhores e, claro, os piores filmes de 2012 | Doidos por Cinema

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