Arquivo do mês: julho 2012

Hagiografia de um santo do pau oco canonizado pela esbórnia

Fonte: Sarah Kahn Studio

A arte que expressa a disposição da mente e não a disposição da vida (a ideia de um vida mortal na Terra) é uma arte morta.” (Jack Kerouac)

Jean-Louis Lebris de Kerouac (1922-1969). O nome era tão comprido quanto a estrada que se estendia à frente dele na segunda metade do século passado. Filho de pais franco-canadenses que imigraram para a Nova Inglaterra em busca de emprego, Jack Kerouac, nome com o qual seria imortalizado como ícone da contracultura, estava numa encruzilhada em 1951. Esgarçado entre leste (passado) e oeste (futuro), ele ainda não sabia que iria romper, ultrapassando os limites da ortodoxia com a velocidade de sua prosa espontânea, com a tradição literária europeia castradora que formatava o gosto estético até então. Assim como os artistas de vanguarda das décadas precedentes, Kerouac ambicionava derrubar a distância entre vida e arte. On the road, romance publicado em 1957 – reza a lenda que o manuscrito original, digitado num rolo de papel de teletipo (metáfora de uma estrada que se perde no horizonte), foi vomitado num texto explosivo por um Jack Kerouac anabolizado pela benzedrina, num período de três semanas, em abril de 1951 –, foi um dos produtos dessa ambição.

Já a aspiração do diretor Walter Salles é pedir carona ao livro e conseguir, na transposição para o cinema, um vislumbre das experiências de Kerouac – permeadas de suor, imediatismo e instinto – enquanto o autor acelera, página após página, à procura de algo indefinido que, paradoxalmente, o define. Temas como perda, incerteza e mortalidade onipresenteabastecidos pela filosofia inflamável do tudo agora e ao mesmo tempo –, que permeiam a produção de Keuroac, são fortemente influenciados pela morte de seu irmão de nove anos, Gerard, em 1926, quando ele tinha apenas quatro, e pela morte do pai, Leo, em 1946. Essa dor velada ecoa no filme – Dean, atormentado pela busca infrutífera do pai, é considerado como um irmão por Sal; o irmão que Kerouac perdeu tão cedo.

Os direitos de transposição de On the road para as telas estavam engavetados na mansão de Francis Ford Coppola. Entusiasmado com o desempenho de Salles no road movie “Diários de motocicleta” (2004), que dramatiza as aventuras latino americanas sobre duas rodas de um jovem Ernesto “Che” Guevara e seu amigo Alberto Granado, a produção foi confiada ao diretor brasileiro. Coppola assina a produção executiva do filme, que estreia nesta sexta no Brasil com título de “Na estrada”. A produção concorreu à Palma de Ouro no último Festival de Cannes.

Um elenco de atores jovens, mas competentes, não deixa Salles perder o controle nas curvas narrativas de Kerouac, antíteses de uma linearidade que sempre capota para fora das linhas engendradas pela prosa do autor. Segundo a professora Penny Vlagopoulos, a intensidade demolidora de grande parte da escrita de Kerouac força o leitor a se posicionar entre a apreciação intelectual e a liberdade emocional. É para essa fresta, em algum local entre elucubração e sentimento em estado puro, que Walter Salles procura direcionar seu olhar de cineasta.

A pecaminosa trindade do filme é formada por Sal Paradise (Sam Riley, excelente no papel do observador ingênuo e imparcial que é contaminado por circunstâncias tentadoramente perigosas, mas irrefreáveis), Dean Moriarty (Garrett Hedlund, incontrolável, em cuja psiquê só fala o id, regido pelo princípio do prazer a qualquer custo) – avatares literários de Jack Kerouac e Neal Cassady, respectivamente, estandartes da Geração Beat – e Marylou (Kristen Stewart irreconhecível, pingando luxúria, devassa até o último pelo pubiano), 16 anos, futura ex-esposa de Dean e uma das mulheres que saem no tapa por um espaço na concorrida agenda do michê Beat, enlouquecidas de tesão. Todas querem escrever seus nomes, com sangue menstrual fixado pelo atrito do coito, em algum centímetro do pênis dirk-diggleriano do rapaz. Dean sofre da mesma satiríase que Brandon, personagem de Michael Fassbender em “Shame” (Steve McQueen, 2011), portanto, não consegue manter seu falo dentro das calças por muito tempo.

Hipnotizados pelo movimento – metaforizado na malha viária americana, veias de concreto por onde circulam leucócitos de aço sobre rodas que imunizam nossos anti-heróis da inércia do status quo –, os três se perdem numa viagem por rodovias que é mais importante que o destino; numa viagem que tornar-se de fato, antes de simplesmente ser, é mais autêntico, como disse George Mouratidis, especialista na literatura Beat, em ensaio sobre o livro. Em determinado momento, as fronteiras dos EUA se tornam um cárcere para temperamentos contestadores, ávidos por novidades. Sal e Dean, impelidos por uma euforia hedonística que se consome em combustão espontânea, agregam ao seu mapa rodoviário o território do México, com direito a charuto de maconha, balada rave à moda mexicana e uma disenteria provocada pela culinária local.

O roteiro, assinado por Jose Rivera, com quem Salles trabalhou em “Diários…”, procura, assim como a prosa de Jack, deslizar nos limites da consciência e da sanidade na linguagem. Se perder é se encontrar. Penny ressalta que Kerouac permite que você se afeiçoe à ideia de se perder. Você se torna afinado com alguma coisa que, em última instância, está fora da linguagem – um rumor muito sutil de inteligência que é apenas sentido, em um caminho que leva ao âmago da existência. Lawrence Ferlinghetti, poeta da Geração Beat, definiu a “voz apressada” de Kerouac como áspera, primitiva, com um certo encanto por sua ingenuidade, a um só tempo bufona e antiquada, frequentemente desajeitada e enrolada, como ocorre a alguém que fala rápido.

Em busca de um sentimento difuso sobre o porquê da estrada, não a estrada em si, o diretor, com as ferramentas da linguagem cinematográfica, procura captar o espaço metafórico que falava alto a Kerouac, impedindo-o de ouvir com clareza a letra da melodia que fazia seu subconsciente vibrar. O escritor sabia que esse espaço seria inacessível por meio da prosa convencional.

De acordo com o poeta e crítico literário Joshua Kupetz, a estrutura da trama de Kerouac no manuscrito do rolo – que, no filme de Walter, se mescla com elementos do romance de 1957 – é contingente e se apropria de seu conceito de “círculo do desespero”. O tal círculo determina, segundo crença de Kerouac, que a experiência da vida é uma série regular de desvios de nossos objetivos. Desvios como uma série de voltas à direita que continuam até que façamos um círculo completo que circunscreva uma “coisa desconhecida” que seja “central para a existência”. Essa “coisa desconhecida” é impérvia aos esforços do autor e do cineasta de rescunhá-la, mas continua nos provocando numa sucessão de curvas infinitas, pedindo para ser iluminada pelo farol alto de nossos desejos. Penny Vlagopoulos diz que o leitor se vê envolvido pela percepção de estar sendo assombrado por pessoas, lugares e momentos específicos que o levam, como Kerouac, aos limites da linguagem onde o balbuciar do subconsciente comece a se ouvir, ansiando chegar ao botão secreto de PAUSA antes daquilo que se revela, de modo que você possa deixar que o processo siga, seja ele o que for. Salles não interrompe a viagem, ele faz seus personagens embarcarem nela como destino, justificando cada quilômetro asfaltado com os US$ 25 milhões do orçamento.

No raio do “círculo do desespero”, com menos quilometragem no hodômetro do filme, encontramos Camille (Kirsten Dunst, perfeita como uma verdadeira Amélia), uma das fêmeas que Dean usa e descarta, como uma camisinha; Old Bull Lee (Viggo Mortensen, desempenhando com competência o papel pequeno que lhe coube), pseudônimo criado por Kerouac para o escritor americano viciado em heroína William S. Burroughs (1914-1997), na produção é o patriarca de um núcleo familiar manicomial, ou líder de uma seita similar à de Charles Manson, incubadora de psicopatas; a companheira de Bull Lee, Jane (Amy Adams, insana), caso de internação imediata (camisa de força e eletrochoques são recomendados); o saxofonista Walter (Terrence Howard), representando o jazz, forte influência para Kerouac – “no sentido de um, vamos dizer, saxofonista no tenor que tomasse ar e soprasse uma frase no seu saxofone, até ficar sem ar, e assim que ele termina, sua sentença, sua declaração está pronta… é assim que de agora em diante separo minhas sentenças, como tomadas de ar da mente”; Terry (a brasileira Alice Braga), uma boia-fria da década de 1950 em busca de oportunidades de trabalho que, na entressafra, esbarra com Sal Paradise na estrada – os dois compartilham, além de momentos “As vinhas da ira” (John Ford, 1940), que desvelam as debilidades humanas frente a um sistema econômico implacável, fluidos corporais; e Steve Buscemi, encarnando um gay enrustido que enxerga Dean como um supositório de carne, indicado para prisão de opção sexual e cuja superdosagem não provoca reações adversas – bem, nada que Hipoglós não possa resolver. Todos passam rápido como paisagens no retrovisor. As filmagens levaram as equipes para locações nos EUA, Canadá, México e Argentina.

Neste “Estranhos na paraíso” (Jim Jarmusch, 1984) Beat, mais uma vez nas palavras de Penny, que nos auxilia a traçar paralelos entre formatos distintos, mas cuja matéria-prima é a mesma, as pessoas são conclamadas a encontrar a beleza nas jornadas fracassadas, à descoberta dos excessos pessoais, a sentir a ferroada dos limites, mas essas são as fronteiras ao redor das quais a humanidade se constrói. E percebe como a obra nos obriga a novas formas de percepção ao dizer que On the road fala a certa ânsia de seus leitores, dando-lhes o vocabulário com que reimaginar suas vidas cotidianas de modos organicamente sentidos em detrimento da articulação plena. É aquilo que não é dito, que não é feito, que impele On the road, o que não pode ser contido, categorizado ou amainado.

Walter Salles optou pela adaptação do romance sempre com um olho no manuscrito do rolo. E não é difícil entender por quê. A versão original, além de apresentar os personagens com os nomes reais, é mais crua e selvagem. Como sublinha Penny, enquanto a preocupação de Kerouac com a questão racial é aparente tanto na versão em rolo de On the roadquanto na publicada, todas as evidentes referências à sexualidade – especialmente a homossexualidade – foram cortadas da edição de 1957. Os atos sexuais são mais explícitos e igualitários no rolo. No filme de Salles há sequências tórridas de sexo, masturbação – dupla masturbação, sobre rodas, o que desafiaria a criatividade dos responsáveis por arrolar as infrações do código de trânsito americano; crianças, não tentem isso em casa definitivamente tentem isso no trânsito – sodomia, felação, bebidas, sexo a três, drogas e mais sexo. Não podia ser diferente para uma geração que hasteava a bandeira da transgressão, da independência e da liberdade e fazia questão de cravá-la em todos os locais possíveis, orgânicos ou não. Sam the Lion, personagem de Ben Johnson em “A última sessão de cinema” (1971), de Peter Bogdanovich, professor, juiz e fonte de valores morais do filme, morreu vinte anos mais tarde que a inocência, asfixiada pelo hímen de Marylou em meio à poeira da Rota 66. Felizmente, a cidadezinha do Texas em que Sam destilava sua liturgia da retidão e dos bons costumes não estava no roteiro do triunvirato da perdição. Caso contrário, teria morrido antes.

Na opinião de George Mouratidis, o Neal do rolo é, em comparação ao Dean da versão publicada, menos mitificado, mais humano. Na verdade, assim como no filme de Salles, Dean Moriarty é uma figura idealizada por Sal Paradise. On the road é uma homenagem a Dean, na medida em que congela nas letras o mito que encantou o autor, e não a desilusão que sua humanidade provocou ao se infiltrar sorrateiramente em Sal através da convivência – que inevitavelmente expõe as falhas. A estruturação da obra vai na contramão da vida: move-se do simbólico para o mítico, do humano para a visão, marcando a separação gradual que faz Kerouac/Sal do Cassady/Dean verdadeiro de sua visão romântica. Quanto mais o escritor é lembrado de que Neal/Dean não é imune ao tempo, ao envelhecimento e à mortalidade, mais elevada, distante e menos acessível de um ponto de vista humano se torna a imagem representativa impregnada no texto. Na tela, essa imagem, ungida com o deslumbramento míope de Sal, é registrada pela fotografia de Eric Gautier, que também foi parceiro de Salles em “Diário…” e assinou a direção de fotografia de “Na natureza selvagem” (2007), do ator-diretor Sean Penn, ambos laboratórios para seus cliques nas externas de “Na estrada”. É a hagiografia de um santo do pau oco canonizado pela esbórnia. Dean é um Jay Gatsby de outra classe social, bem menos abonado, mas ainda assim vazio por dentro e espalhafatoso e transbordante por fora.

O diretor de “Central do Brasil” (1998) buscou com o cinema o mesmo que o escritor com seu livro. Mouratidis diz que o que Kerouac procurava pode ser caracterizado como uma tensão entre uma verdade subjetiva que ele encontrava nas origens – no interior e fora dos limites das instituições socioculturais e temporais – e um senso de uma realidade objetiva que sempre manteve tais verdades “autênticas” a uma certa distância, sempre ausentes, e, nessa ausência, romantizadas e mitificadas.

Salles emula no cinema o que o novo (à época) estilo de prosa de Kerouac pregava: rejeição a um fatualismo objetivo e uma consequente receptividade a uma verdade impulsiva e subjetiva que é imediata e, acima de tudo, verdadeira para o próprio autor de On the road. Kerouac é um motorista que desce em ponto morto uma ladeira acentuada, sem controle do carro, mas aproveitando o turbilhão que entra pela janela e o isola das pressões do mundo externo enquanto lê Clarice Lispector. Ele se aproxima da vida ao flertar com a morte – não uma senhora intimidadora de capuz preto e foice na mão, mas um fim que o obrigaria a diminuir, a parar de ouvir estática existencial, a receber ordens e a frear o veículo antes de atropelar limites.

E Dean é o vetor nessa busca pela essencialidade do ser, pela autenticidade de uma existência que fosse totalmente subjetiva e impulsiva, para além dos limites das instituições sociais conservadoras e das normas culturais – dominantes em seu tempo –, acima de tudo uma existência que transcendesse as constrições imutáveis e objetivas do tempo, sua regimentação da experiência e da expressão.

Tanto no livro com no filme, somos atraídos para um moto perpétuo de ambivalências e contradições que não é multado pelos excessos. Mouratidis ensaia uma explicação para essas bifurcações na estrada. Segundo ele, no trabalho de Kerouac, a busca pelo autêntico é, assim, parte da dualidade que marca sua vida e sua escrita, uma dualidade entre dois imperativos distintos mas a um só tempo entrelaçados – a domesticidade e o “prazer”, a tradição e o progresso, a nostalgia e a possibilidade –, uma ambivalência de significado tanto pessoal quanto sociocultural, em um aspecto mais amplo. A nostalgia de Kerouac era de uma passado americano que ele havia romantizado e mitologizado, a América da Depressão do pré-guerra, da expansão na direção ocidental, do Velho Oeste, que ele impregnou de “alegria”, “honestidade”, “ausência de malícia” e “uma voraz e autoconfiante individualidade”. Este desejo de se reconectar com “o velho brado americano” ao mesmo tempo estava intimamente ligado à sua juventude idílica ainda que assombrada em Lowell, Massachusetts. Ao posicionar os imperativos da individualidade e da inocência em seu próprio passado e no passado da América, a autenticidade buscada por Kerouac dirigia-o para fora do mainstream social e cultura, assim como indicava um deslocamento de seu próprio tempo histórico.

Nas diferentes versões da narrativa na estrada de Kerouac vemos esse sentido da autenticidade como uma presença somente em sua conspícua ausência, como algo pressuposto, e que existe somente em sua potencialidade; enquanto o ideal de autenticidade permanece intacto, assim também permaneceria a sua possibilidade de realização.

O “Paris, Texas” (Wim Wenders, 1984) de Walter Salles não fala de memória, devorada pela intensidade do presente, mas das inquietações de espíritos arredios, em um constante processo de busca que se encerra em si mesmo, tornando o verbo “encontrar” obsoleto.

Para Joshua Kupetz os leitores de Kerouac irão se encontrar igualmente encalhados caso se aproximem de sua montanha de texto integral já antecipando que esta lhes oferecerá um significado inerente, se suas expectativas e estratégias interpretativas estiverem baseadas em linearidades e predeterminadas por convenções romanescas. Entretanto, se um leitor aproxima a prosa alargada de Kerouac e permite que a narrativa gire, para o reverso, para se ajustar sobre si mesma em uma série de desvios, e aceita que o horizonte do deslocamento da significação é parte da experiência do sentido, o leitor pode continuar e ser “por fim guiado até lá”. Em vez de funcionar como obras com significados aprisionados em estruturas hermeticamente fechadas, as narrativas de Kerouac envolvem o leitor no processo de descoberta através do encontro de estruturas não familiares.

A fruição de “Na estrada”, o filme, deve funcionar da mesma maneira. Compre seu ingresso como uma passagem só de ida para um lugar qualquer e aproveite o não chegar.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Espero que depois dessa crítica a Alice Braga me convide para catar algodão junto com ela.

8 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

Enredado na nova teia do Aranha (reboot da crítica)

Havia tanta coisa a ser dita sobre o Homem-Aranha, novamente homenageado no cinema com o reboot “O espetacular Homem-Aranha”, do diretor Marc “(500) dias com ela” Webb, que minha primeira crítica do filme, postada há alguns dias, passou por diversas alterações. Um preciosismo mais do fã que do crítico – ambos ficam remoendo textos dentro de minha cabeça, num processo constante de reescrita que envolve correções, modificações e adições. Apostando na relevância da edição, resolvi postar uma segunda crítica aqui no blog. Este texto se detém com carinho maior na singularidade do Aranha, à época em que apareceu nos gibis, valorizando um novo arquétipo de super-herói; na relação entre os principais inimigos do aracnídeo no cinema (antagonistas que passam longe do maniqueísmo, corrompidos por poderes que obscurecem a sanidade); nas circunstâncias que polarizavam o Aranha e seus algozes (e também nas contingências que o aproximava deles); e na representatividade de Peter nas histórias, sacada da sensibilidade de Stan Lee, que nos permite enxergar o Home-Aranha para além de seu uniforme. Espero que o trabalho tenha valido a pena. 

Fonte: deviantart

A vida de Peter Parker balança por um fio. Mas não um fio qualquer. A teia sintética desenvolvida por Parker – inspirada no filamento proteico produzido pelas aranhas, cinco vezes mais forte que um fio de aço do mesmo diâmetro e que pode ser esticado até quatro vezes o seu comprimento sem se partir –, que ele espirra por meio de mecanismos eletrônicos presos aos pulsos, é algo singular, digna do Prêmio Nobel. Pessoas comuns com habilidades extraordinárias exercem um tremendo fascínio. Não é tarefa simples pedir que alguém se levante da poltrona para assistir em 3-D a um adolescente se exibindo numa descida radical de rapel – e ainda pague caro por isso. Para esse tipo de entretenimento existe o canal de televisão a cabo Off. Mas esse alguém, justificando os US$ 215 milhões gastos em “O espetacular Homem-Aranha”, deixaria o Flash comendo poeira numa corrida até a sala de cinema mais próxima, ansioso por ver o aracnídeo em seu balé acrobático.

Ao aceitar o desafio de dirigir este reboot, Marc Webb (“500 Dias com Ela”) buscou imprimir sua marca nos traços que definem o super-herói. Sem desconsiderar os elementos que mitificaram o personagem, com a ajuda do trio de roteiristas James Vanderbilt, Alvin Sargent e Steve Kloves, o diretor repaginou o trabalho de seu predecessor – Sam Raimi, responsável pelos três primeiros filmes da franquia Homem-Aranha no novo milênio (2002, 2004 e 2007), com Tobey Maguire de protagonista – com elementos da série “Anos incríveis”, situando Parker ainda no ensino médio, brincando de fotógrafo amador, numa época anterior ao Clarim Diário – algo próximo do que Raimi concebeu em seu primeiro filme. Uma clara tentativa de conquistar a parcela de público que começa em pré-adolescentes e termina em jovens adultos.

O personagem cinquentenário, criado por criado por Stan Lee (texto) e Steve Ditko (ilustração) e publicado pelo selo Marvel, cuja primeira aparição foi em 1962, no número 15 da antologia de quadrinhos americana Amazing Fantasy, representa uma inflexão no paradigma do herói que, até então, magnetizava imaginações. Antes do Aranha, o herói era perfeito, não tinha problemas ou uma vida pessoal interessante, se resumia ao sujeito de uniforme. Stan Lee mudou isso. O tímido Peter Parker enfrentava problemas que o aproximavam do indivíduo comum: era assolado por toda sorte de dilemas e adversidades mundanas. Precisava agarrar subempregos para pagar o aluguel; dava mancadas; em algumas situações dizia coisas inapropriadas; e, mais importante, não ganhava o tempo todo, era surrado com frequência por seus inimigos e voltava para casa derrotado. Ou seja, era imperfeito, como todos nós. Constantemente submetido a situações com as quais os outros heróis não lidavam. Com sua complexidade e contradições, Peter encantou os leitores de quadrinhos e passou a ser mais importante que o Homem-Aranha.

O reboot dispensa Tobey e aposta em outro ator, também com rosto de moleque, com espinhas brotando na pele, para interpretar Peter e seu alter ego, o Home-Aranha. Andrew Garfield viu sua carreira decolar quando aceitou o papel do brasileiro Eduardo Saverin em “A Rede Social” (2010) – mais conhecido como o filme sobre o Facebook –, de David Fincher, produção que mudou seu status não só na rede social (as garotas devem ter caído matando!), mas em Hollywood.

Neste comic book movie, Peter é criado por seus tios May (Sally Fields) e Ben (Martin Sheen) depois que o pai do garoto percebe que seus experimentos com engenharia genética podem colocar a família em risco. O garoto cresce, descobre o trabalho da pai (morto com a esposa num acidente de avião) numa maleta que bem poderia ser do 007 e o liga ao herpetologista Curt Connors (Rhys Ifans), que desenvolve um soro regenerativo capaz de adaptar características animais aos humanos. Connors trabalhou com o pai de Peter no passado. A relação entre os dois é uma interrogação não resolvida durante os 136 minutos desta produção.

Fuçando nos laboratórios da Oscorp, imagine você… (podemos esperar um novo Duende Verde?), Peter é picado por uma aranha geneticamente modificada (radiação não faz parte da agenda verde no esteio da Rio +20). Os efeitos colaterias não tardam a aparecer, o que leva Peter a se aproximar de Connors e a ajudá-lo na solução do algoritmo que viabiliza o soro. Pressionado por seu mecenas, ninguém menos que o dono das indústrias Oscorp, o cientista testa uma versão Beta em si mesmo e se transforma num Godzilla em menor escala.

Fonte: deviantart

Na caça ao assassino de seu tio, o Homem-Aranha parte numa jornada de amadurecimento que enredará em sua teia, além do réptil abominável que consome o corpo e a sanidade de Connors, tia May, Gwen Stacy (a meiga e lindinha Emma Stone), sua paixão do colégio (primeira namorada do herói nos quadrinhos, na época pré-Mary Jane Watson), e o capitão da polícia Stacy (Denis Leary), papai de Gwen. Adicione à trama bioterrorismo e ameaça doméstica à segurança dos EUA. Pronto! Temos um longa de ação!

Tanto Connor quanto Gwen já haviam aparecido nos filmes anteriores, de Raimi. O cientista foi interpretado por Dylan Baker no segundo filme (2004), mas sem apresentar seu lado de sangue frio. Já Gwen, por quem Parker, na nova produção, suspira ao som do pop romântico Til Kingdom Come, da banda Coldplay, é vivida por Bryce Dallas Howard no terceiro filme do diretor de “Arraste-me para o inferno” (2009).

Fonte: deviantart

É interessante perceber que os principais vilões do Aranha apresentados no cinema até o momento dizem muito sobre ele. Ambos são cientistas brilhantes, que enxergam nas possibilidades da ciência soluções, ao alcance de uma equação, para os problemas do mundo: O Duende Verde de Willem Dafoe no filme de 2002; o Dr. Octopus de Alfred Molina em 2004; e, agora, o Lagarto de Ifans – no terceiro longa de Raimi, James Franco retoma o legado maligno do pai como o novo Duende Verde. Todos perdem o controle de seus experimentos e de suas sanidades, adquirem poderes que os envenenam e entregam-se ao lado negro da força. O que diferencia nosso herói de seus antagonistas é a voz do tio Ben – pilar da ética e da moralidade –, que divide espaço com o sentido aranha na cabeça de Peter. Com sábias palavras, escolhidas cautelosamente no dicionário da experiência, ele é o principal responsável pela formação de caráter do rapaz.

O sarcasmo, claro, é a marca registrada do Aranha, e não poderia ficar de fora da nova aventura. E Andrew Garfield desempenha seu papel com traquinagens retóricas que não irão decepcionar os fãs dos quadrinhos. As cenas de ação elaboradas, montadas como clipes da MTV, exploram com maestria as técnicas de parkour do escalador de paredes entre as espigas de concreto e aço de NY, arquitetura em que ele joga pinball com o seu próprio corpo.

Webb diferencia-se ao utilizar uma câmera em primeira pessoa, que acompanha o ponto de vista do aracnídeo e amplifica nossa sensação de movimento e velocidade. E aqui fica o reconhecimento pelo desempenho primoroso do diretor de fotografia John Schwartzman – “Armageddon” (1998), “Pearl Harbor” (2001) e “O besouro verde” (2011) –, conferindo às performances do Aranha uma estética de videogame. Quem assina o repertório musical é James Horner, oscarizado por “Titanic” (1997) e também responsável pela música em “Avatar” (2009). Equipe de primeira linha!

Diversão escapista e entretenimento vazio são alguns dos rótulos dos quais o Aranha terá de se esquivar. Blockbuster sim, e divertidíssimo! Assim como “Os Vingadores” (2012), filmaço de Joss Whedon, foca na diversão, e não na reflexão. Pipoca e refrigerante para acompanhar, acomode-se na poltrona e se entregue. Se tio Ben estivesse vivo, ele diria que grandes filmes são acompanhados de grandes bilheterias.

Opa! Meu sentido aranha disparou… Como assim? Não vai assistir? Não faça promessas que não pode cumprir. 

Carlos Eduardo Bacellar

 

 Fonte: deviantart

1 comentário

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

Enredado na nova teia do Aranha

Fonte: deviantart

A vida de Peter Parker balança por um fio. Mas não um fio qualquer. A teia sintética desenvolvida por Parker – inspirada no filamento proteico produzido pelas aranhas, cinco vezes mais forte que um fio de aço do mesmo diâmetro e que pode ser esticado até quatro vezes o seu comprimento sem se partir –, que ele espirra por meio de mecanismos eletrônicos presos aos pulsos, é algo singular, digna do Prêmio Nobel. Como somos fascinados por pessoas comuns com habilidades extraordinárias, não levantaríamos facilmente da poltrona para ir ao cinema, pagar um preço salgado e ver em 3-D um adolescente se exibindo numa descida de rapel.

Agora, para justificarmos os US$ 215 milhões gastos em “O espetacular Homem-Aranha”, nós deixaríamos o Flash comendo poeira numa corrida até a telona na sala escura mais próxima, ansiosos por ver o aracnídeo, criado por Stan Lee e Steve Ditko, pendular insanamente pela geografia urbana de Nova Iorque enquanto combate o crime. Radical é um eufemismo para qualificar o que o Spider é capaz de aprontar.

Fonte: Split Screen

Neste reboot, dirigido por Marc Webb – que, com criatividade e bom humor, ilustrou com lápis de cera pop o ciclo de leveza, dor e superação – paixão fulminante, amor, toco, desencantamento, sofrimento e novo encantamento – em “(500) dias com ela” (2009) –, Peter Parker… Bem, todo mundo sabe quem ele é. Não seria muito interessante recontar uma história já batida no imaginário popular: adolescente, nerd, bullying, solitário, nenhuma aptidão para esportes, nenhum sucesso com as garotas, picada de aranha radioativa, roupa colante constrangedora, teias brotando das munhecas, “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, morte do tio Ben, remorso, culpa, vingança disfarçada de luta contra a criminalidade, ações incompreendidas pelas forças de segurança, Homem-Aranha como ameaça pública, a it girl do colégio começa a dar mole para o outsider, vilão também com superpoderes acaba com o sossego, mundo ameaçado blá, blá, blá… A biografia do personagem do selo Marvel, cuja primeira aparição foi em 1962, no número 15 da antologia de quadrinhos americana Amazing Fantasy, é mais manjada que porta de banheiro público.

Fonte: Split Screen

Se Webb resolveu aceitar o desafio, ele precisava buscar uma nova taxonomia para sua criação. Sem desconsiderar os elementos que mitificaram o super-herói, com a ajuda do trio de roteiristas James Vanderbilt, Alvin Sargent e Steve Kloves o diretor repaginou o trabalho de seu predecessor – Sam Raimi, responsável pelos três primeiros filmes da franquia Homem-Aranha no novo milênio (2002, 2004 e 2007), com Tobey Maguire de protagonista – com elementos da série “Anos incríveis” numa tentativa de conquistar a parcela de público que começa em pré-adolescentes e termina em jovens adultos. Formar novas plateias para filmes de heróis é essencial.

Segundo A. O. Scott, crítico do The New York Times, é uma aposta alta da indústria (que está sendo muito bem recompensada, claro) num momento em que outros gêneros tradicionais, como o western e os filmes de guerra, estão eclipsados pela ideologia do politicamente correto hodierna, e não rendem mais as bilheterias esperadas. Manohla Dargis, outra crítica do Times, analisa nossa babação de ovo pela produção ianque dizendo que os filmes baseados em histórias em quadrinhos, entre outras atrações, magnetizam espectadores pois tocam fundo em mitos nacionais [americanoides] enraizados, incluindo o Éden americano (cujo exemplo seria uma cidade do interior pacata como Smallville); o herói de western (um pária, separado do mundo que, paradoxalmente, ele precisa salvar); e o excepcionalismo americano (nação ungida pelo poder de sua Constituição com responsabilidades extraterritório, que seria diferente das outras porque possui a missão de tornar o mundo um lugar mais seguro para a democracia). E completa: “Toda época tem o super-herói que deseja, precisa e merece.”

Nós desejamos, precisamos e merecemos! O reboot dispensa Tobey e aposta em outro ator, também com rosto de moleque, com espinhas brotando na pele, para interpretar Peter e seu alter ego, o Home-Aranha. Ele viu sua carreira decolar quando aceitou o papel do brasileiro Eduardo Saverin em “A rede Social” (2010) – mais conhecido como o filme sobre o Facebook –, de David Fincher, filme que mudou seu status não só na rede social as garotas devem ter caído matando!), mas em Hollywood: ele é Andrew Garfield.

Este pôster é do filme do Raimi, mas achei tão bacana que não resisti! Fonte: deviantart

Produções desta estatura vêm paramentadas. A estrutura de marketing assombrosa é uma faca de dois gumes. Pode alavancar um sucesso potencial ou disseminar um blockbuster vazio e, consequentemente, macular o prestígio de um diretor. Webb conhece a indústria, seu potencial, e não vacila com a estrutura que tem em mãos.

Neste comic book movie, Peter é criado por seus tios May (Sally Fields) e Ben (Martin Sheen) depois que o pai do garoto percebe que seus experimentos com engenharia genética podem colocar a família em risco. O garoto cresce, descobre o trabalho da pai (morto com a esposa num acidente de avião) numa maleta que bem poderia ser do 007 e o liga ao herpetologista Curt Connors (Rhys Ifans), que desenvolve um soro regenerativo capaz de adaptar características animais aos humanos. Connors trabalhou com o pai de Peter no passado. A relação entre os dois é uma interrogação não resolvida durante os 136 minutos desta produção, entrego logo, filmada em locações em Los Angeles e Nova Iorque.

Fuçando nos laboratórios da Oscorp, imagine você… (podemos esperar um novo Duende Verde?), Peter é picado por uma aranha geneticamente modificada (radiação não faz parte da agenda verde no esteio da Rio +20). Os efeitos colaterias não tardam a aparecer, o que leva Peter a se aproximar de Connors e a ajudá-lo na solução do algoritmo que viabiliza o soro. Pressionado por seu mecenas, ninguém menos que o dono das indústrias Oscorp, o cientista testa uma versão Beta em si mesmo e se transforma num Godzilla em menor escala.

Fonte: Titan Creative

Na caça ao assassino de seu tio, o Homem-Aranha parte numa jornada de amadurecimento que enredará em sua teia, além do réptil abominável que consome o corpo e a sanidade de Connors, tia May, Gwen Stacy (a meiga e lindinha Emma Stone), sua paixão do colégio, e o capitão da polícia Stacy (Denis Leary), papai de Gwen. Adicione à trama bioterrorismo e ameaça doméstica à segurança dos EUA. Pronto! Temos um longa de ação!

O sarcasmo é a marca registrada do Aranha. E Andrew Garfield desempenha seu papel com traquinagens verbais que não irão decepcionar os fãs dos quadrinhos. As cenas de ação elaboradas, montadas como clipes da MTV, exploram com maestria as técnicas de parkour do escalador de paredes entre as espigas de concreto e aço de NY, arquitetura em que ele joga pinball com o seu próprio corpo. Webb diferencia ao utilizar uma câmera em primeira pessoa, que acompanha o ponto de vista do aracnídeo e amplifica nossa sensação de movimento e velocidade.

E aqui fica o reconhecimento pelo desempenho primoroso do diretor de fotografia John Schwartzman – “Armageddon” (1998), “Pearl Harbor” (2001) e “O besouro verde” (2011) –, conferindo às performances do Aranha uma estética de videogame. Quem assina o repertório musical é James Horner, oscarizado por “Titanic” (1997) e também responsável pela música em “Avatar” (2009). Equipe de primeira linha!

Estava me segurando até agora, mas aí vão três spoilers:

1) Old school, o roteiro, como nos comics, encampa o desenvolvimento de um mecanismo eletrônico que produz as teias, ao contrário dos filmes de Raimi, que preferiu uma solução biológica (e fácil);

Fico emocionado quando vejo isso…

2) a cena em que o Home-Aranha constrói sua teia na rede de esgotos e fica à espera, no centro do emaranhado de fios, como suas parentes na natureza, que suas presas toquem numa das ramificações e entreguem suas presenças (fazendo as cordas vibrarem como as de um violoncelo ou as de uma harpa) é incrivelmente criativa;

3) preste atenção no sentido aranha! Um choque de teaser acompanhado por um lampejo de street art, como uma epifania, e somado a um acorde desafinado de guitarra elétrica de uma banda de metal. E a pergunta: o lagarto não dispara o alarme de sobrevivência? Fique atento à cena do esgoto.

Ahhhhhhhhhh! Tenho que assistir de novo!

Blockbuster sim, e divertidíssimo! Assim como “Os Vingadores” (2012), filmaço de Joss Whedon, foca na diversão, e não na reflexão. Pipoca e refrigerante para acompanhar, acomode-se na poltrona e se entregue. Se tio Ben estivesse vivo, ele diria que grandes filmes são acompanhados de grandes bilheterias.

Opa! Meu sentido aranha disparou… Como assim? Não vai assistir? Não faça promessas que não pode cumprir.

Carlos Eduardo Bacellar

Fonte: Shockya

Fonte: deviantart

Deixe um comentário

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!