Enredado na nova teia do Aranha

Fonte: deviantart

A vida de Peter Parker balança por um fio. Mas não um fio qualquer. A teia sintética desenvolvida por Parker – inspirada no filamento proteico produzido pelas aranhas, cinco vezes mais forte que um fio de aço do mesmo diâmetro e que pode ser esticado até quatro vezes o seu comprimento sem se partir –, que ele espirra por meio de mecanismos eletrônicos presos aos pulsos, é algo singular, digna do Prêmio Nobel. Como somos fascinados por pessoas comuns com habilidades extraordinárias, não levantaríamos facilmente da poltrona para ir ao cinema, pagar um preço salgado e ver em 3-D um adolescente se exibindo numa descida de rapel.

Agora, para justificarmos os US$ 215 milhões gastos em “O espetacular Homem-Aranha”, nós deixaríamos o Flash comendo poeira numa corrida até a telona na sala escura mais próxima, ansiosos por ver o aracnídeo, criado por Stan Lee e Steve Ditko, pendular insanamente pela geografia urbana de Nova Iorque enquanto combate o crime. Radical é um eufemismo para qualificar o que o Spider é capaz de aprontar.

Fonte: Split Screen

Neste reboot, dirigido por Marc Webb – que, com criatividade e bom humor, ilustrou com lápis de cera pop o ciclo de leveza, dor e superação – paixão fulminante, amor, toco, desencantamento, sofrimento e novo encantamento – em “(500) dias com ela” (2009) –, Peter Parker… Bem, todo mundo sabe quem ele é. Não seria muito interessante recontar uma história já batida no imaginário popular: adolescente, nerd, bullying, solitário, nenhuma aptidão para esportes, nenhum sucesso com as garotas, picada de aranha radioativa, roupa colante constrangedora, teias brotando das munhecas, “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, morte do tio Ben, remorso, culpa, vingança disfarçada de luta contra a criminalidade, ações incompreendidas pelas forças de segurança, Homem-Aranha como ameaça pública, a it girl do colégio começa a dar mole para o outsider, vilão também com superpoderes acaba com o sossego, mundo ameaçado blá, blá, blá… A biografia do personagem do selo Marvel, cuja primeira aparição foi em 1962, no número 15 da antologia de quadrinhos americana Amazing Fantasy, é mais manjada que porta de banheiro público.

Fonte: Split Screen

Se Webb resolveu aceitar o desafio, ele precisava buscar uma nova taxonomia para sua criação. Sem desconsiderar os elementos que mitificaram o super-herói, com a ajuda do trio de roteiristas James Vanderbilt, Alvin Sargent e Steve Kloves o diretor repaginou o trabalho de seu predecessor – Sam Raimi, responsável pelos três primeiros filmes da franquia Homem-Aranha no novo milênio (2002, 2004 e 2007), com Tobey Maguire de protagonista – com elementos da série “Anos incríveis” numa tentativa de conquistar a parcela de público que começa em pré-adolescentes e termina em jovens adultos. Formar novas plateias para filmes de heróis é essencial.

Segundo A. O. Scott, crítico do The New York Times, é uma aposta alta da indústria (que está sendo muito bem recompensada, claro) num momento em que outros gêneros tradicionais, como o western e os filmes de guerra, estão eclipsados pela ideologia do politicamente correto hodierna, e não rendem mais as bilheterias esperadas. Manohla Dargis, outra crítica do Times, analisa nossa babação de ovo pela produção ianque dizendo que os filmes baseados em histórias em quadrinhos, entre outras atrações, magnetizam espectadores pois tocam fundo em mitos nacionais [americanoides] enraizados, incluindo o Éden americano (cujo exemplo seria uma cidade do interior pacata como Smallville); o herói de western (um pária, separado do mundo que, paradoxalmente, ele precisa salvar); e o excepcionalismo americano (nação ungida pelo poder de sua Constituição com responsabilidades extraterritório, que seria diferente das outras porque possui a missão de tornar o mundo um lugar mais seguro para a democracia). E completa: “Toda época tem o super-herói que deseja, precisa e merece.”

Nós desejamos, precisamos e merecemos! O reboot dispensa Tobey e aposta em outro ator, também com rosto de moleque, com espinhas brotando na pele, para interpretar Peter e seu alter ego, o Home-Aranha. Ele viu sua carreira decolar quando aceitou o papel do brasileiro Eduardo Saverin em “A rede Social” (2010) – mais conhecido como o filme sobre o Facebook –, de David Fincher, filme que mudou seu status não só na rede social as garotas devem ter caído matando!), mas em Hollywood: ele é Andrew Garfield.

Este pôster é do filme do Raimi, mas achei tão bacana que não resisti! Fonte: deviantart

Produções desta estatura vêm paramentadas. A estrutura de marketing assombrosa é uma faca de dois gumes. Pode alavancar um sucesso potencial ou disseminar um blockbuster vazio e, consequentemente, macular o prestígio de um diretor. Webb conhece a indústria, seu potencial, e não vacila com a estrutura que tem em mãos.

Neste comic book movie, Peter é criado por seus tios May (Sally Fields) e Ben (Martin Sheen) depois que o pai do garoto percebe que seus experimentos com engenharia genética podem colocar a família em risco. O garoto cresce, descobre o trabalho da pai (morto com a esposa num acidente de avião) numa maleta que bem poderia ser do 007 e o liga ao herpetologista Curt Connors (Rhys Ifans), que desenvolve um soro regenerativo capaz de adaptar características animais aos humanos. Connors trabalhou com o pai de Peter no passado. A relação entre os dois é uma interrogação não resolvida durante os 136 minutos desta produção, entrego logo, filmada em locações em Los Angeles e Nova Iorque.

Fuçando nos laboratórios da Oscorp, imagine você… (podemos esperar um novo Duende Verde?), Peter é picado por uma aranha geneticamente modificada (radiação não faz parte da agenda verde no esteio da Rio +20). Os efeitos colaterias não tardam a aparecer, o que leva Peter a se aproximar de Connors e a ajudá-lo na solução do algoritmo que viabiliza o soro. Pressionado por seu mecenas, ninguém menos que o dono das indústrias Oscorp, o cientista testa uma versão Beta em si mesmo e se transforma num Godzilla em menor escala.

Fonte: Titan Creative

Na caça ao assassino de seu tio, o Homem-Aranha parte numa jornada de amadurecimento que enredará em sua teia, além do réptil abominável que consome o corpo e a sanidade de Connors, tia May, Gwen Stacy (a meiga e lindinha Emma Stone), sua paixão do colégio, e o capitão da polícia Stacy (Denis Leary), papai de Gwen. Adicione à trama bioterrorismo e ameaça doméstica à segurança dos EUA. Pronto! Temos um longa de ação!

O sarcasmo é a marca registrada do Aranha. E Andrew Garfield desempenha seu papel com traquinagens verbais que não irão decepcionar os fãs dos quadrinhos. As cenas de ação elaboradas, montadas como clipes da MTV, exploram com maestria as técnicas de parkour do escalador de paredes entre as espigas de concreto e aço de NY, arquitetura em que ele joga pinball com o seu próprio corpo. Webb diferencia ao utilizar uma câmera em primeira pessoa, que acompanha o ponto de vista do aracnídeo e amplifica nossa sensação de movimento e velocidade.

E aqui fica o reconhecimento pelo desempenho primoroso do diretor de fotografia John Schwartzman – “Armageddon” (1998), “Pearl Harbor” (2001) e “O besouro verde” (2011) –, conferindo às performances do Aranha uma estética de videogame. Quem assina o repertório musical é James Horner, oscarizado por “Titanic” (1997) e também responsável pela música em “Avatar” (2009). Equipe de primeira linha!

Estava me segurando até agora, mas aí vão três spoilers:

1) Old school, o roteiro, como nos comics, encampa o desenvolvimento de um mecanismo eletrônico que produz as teias, ao contrário dos filmes de Raimi, que preferiu uma solução biológica (e fácil);

Fico emocionado quando vejo isso…

2) a cena em que o Home-Aranha constrói sua teia na rede de esgotos e fica à espera, no centro do emaranhado de fios, como suas parentes na natureza, que suas presas toquem numa das ramificações e entreguem suas presenças (fazendo as cordas vibrarem como as de um violoncelo ou as de uma harpa) é incrivelmente criativa;

3) preste atenção no sentido aranha! Um choque de teaser acompanhado por um lampejo de street art, como uma epifania, e somado a um acorde desafinado de guitarra elétrica de uma banda de metal. E a pergunta: o lagarto não dispara o alarme de sobrevivência? Fique atento à cena do esgoto.

Ahhhhhhhhhh! Tenho que assistir de novo!

Blockbuster sim, e divertidíssimo! Assim como “Os Vingadores” (2012), filmaço de Joss Whedon, foca na diversão, e não na reflexão. Pipoca e refrigerante para acompanhar, acomode-se na poltrona e se entregue. Se tio Ben estivesse vivo, ele diria que grandes filmes são acompanhados de grandes bilheterias.

Opa! Meu sentido aranha disparou… Como assim? Não vai assistir? Não faça promessas que não pode cumprir.

Carlos Eduardo Bacellar

Fonte: Shockya

Fonte: deviantart

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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

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