Ato de fé

Não confunda “Man on a ledge”, do diretor Asger Leth, com “The Ledge”, de Matthew Chapman. O impulso suicida que dá início às duas produções camufla com o suspense motivações diferentes – nossa miopia é inversamente proporcional à dos protagonistas, que, ameaçando se jogar do alto de prédios, conseguem enxergar o quadro maior.

No primeiro filme, a suposta tentativa de suicídio desvia as câmeras da mídia e os holofotes das forças de segurança de um roubo dentro do padrão de qualidade Danny Ocean. Nem diga isso perto de Joe Harris, personagem de Patrick Wilson em “A tentação”, obra de Chapman, pois você vai receber um sermão na tentativa de livrá-lo do inferno. O pastor fundamentalista certamente acha que “Man on a ledge” – ou “À beira do abismo”, título nacional do longa – é coisa do demônio.

Em “A tentação”, Chapman, roteirista que se inclina para os mistérios da literatura de Agatha Christie, vide “A cor da noite” (1994) e “O júri” (2003), ambos escritos para as telas por ele, mensura a preponderância de fé e ateísmo na conduta de seus personagens quando coração e pele tentam com o desejo – tanto salvação como perdição.

Os caminhos do pastor Joe Harris, de sua esposa, Shana (Liv Tyler deslumbrante, a derrocada de quem enfrenta seu olhar e teima em não se entregar, com sua pele de porcelana e sua boca carnuda que parece fruto de um processo alérgico a camarão) e do fura-olho Gavin Nichols (Charlie Hunnam) se cruzam no ponto em que crença, racionalidade e prazer desmagnetizam a bússola do bom-senso.

Num esforço de catequização, Joe tenta aproximar Gavin de sua fé, sem sucesso. A manobra de conversão apresenta efeitos colaterais: Gavin permite que um encantamento inicial pela esposa do pastor se transforme em paixão. Quem pode culpá-lo? O sentimento é recíproco. Atentada pelo clamor de seu corpo, que faz com que ela se contorça em volta de si mesma num leito matrimonial frio, Shana se entrega ao relacionamento extraconjugal. Como em “Homens em fúria” (2010), de John Curran, a dificuldade em conjugar, no longo prazo, tesão e respeito implica o ocaso da vida a dois, que, em certos casos de falência do querer, encontra a traição como subproduto da indigência do afeto e da orfandade da pele.

Joe descobre e, desnorteado pelo caso da mulher, procura nas escrituras algo que justifique a conduta exigida por seu lado humano – seu lado falho. Neste ensaio sobre os limites da fé, encarcerada (paradoxalmente) em dogmas ambíguos, a vontade, sempre egoísta, encontra sua maneira de se esgueirar pelas palavras e torcê-las para que esbocem nossos sentimentos. Escritas como tábuas de salvação, podem se tornar veneno.

Interpretadas arbitrariamente, podem significar (e permitir) tudo, como “Red State”, de Kevin Smith, e a tragédia de 11/9, sublinhada no roteiro, deixam assustadoramente claro. Tomado pelo ódio, Joe sequestra a esposa e obriga Gavin a pular de um prédio. O mergulho no vazio tem hora certa. Caso contrário, Shana morre. Tique-taque. O policial Hollis (Terrence Howard), imerso em seu próprio tormento existencial ele atravessa uma dor semelhante à do pastor Joe –, é o responsável por dissuadir Gavin de virar panqueca no asfalto. Um cético desesperançoso tentando convencer o outro. Irônico.

As contradições são destacadas pela crise. Joe mistura sagrado e profano num coquetel de desespero, respeito ferido e vingança. E Gavin resolve pagar por uma falha do passado. Na concepção dele, não há nada de bíblico em tirar a própria vida. Mas só o fato de acreditar que pode salvar a mulher que ama se atirando para a morte é um ato de fé.

Carlos Eduardo Bacellar

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