Homem em queda

Fonte: deviantart

Disse ele: “Você devia ter escutado sua próstata.”

O quê?”

Você tentava prever os movimentos do iene a partir de estruturas da natureza. Claro, claro. As propriedades matemáticas dos anéis de crescimento das árvores, das sementes de girassol, dos braços das galáxias espirais. Aprendi isso com o baht. Eu adorava o baht. Adorava o contraponto entre a natureza e os dados. Foi você que me ensinou isso. Que os sinais que emanam de um pulsar na profundeza do espaço seguem sequências numéricas clássicas, as quais por sua vez servem pra descrever as flutuações de uma determinada ação ou moeda. Foi você que me mostrou isso. Que os ciclos do mercado podem ser intercambiáveis com os ciclos temporais da reprodução dos gafanhotos, com a colheita do trigo. Você deu a esse tipo de análise um grau de precisão horrível e sádico. Mas esqueceu uma coisa.”

O quê?”

A importância do torto, do ligeiramente penso. Você procurava o equilíbrio, a beleza do equilíbrio, partes iguais, lados iguais. Eu sei disso. Eu conheço você. Mas você devia estar acompanhando o iene no que havia de torto e troncho. As pequenas falhas e deformações.”

Os desvãos.”

Era ali que estava a resposta, no seu corpo, na sua próstata.”

O bilionário Eric Michael Packer “sempre desejara se transformar em poeira quântica, transcender sua massa corpórea, o tecido mole que cobria os ossos, o músculo e a gordura. A ideia era viver fora dos limites dados, num chip, num disco, em forma de dados, num torvelinho, num rodopio radiante, uma consciência salva no vazio.”

A próxima fronteira para o gênio do mercado de ações, que envolveria na relação simbiótica entre tecnologia e capital o componente orgânico, “estende a experiência humana ao infinito como meio de investimento e crescimento empresarial, para acúmulo de lucros e reinvestimentos vigorosos.”

Para frustração de Eric, seu desejo esbarra nos componentes humanos indomáveis que o constituem como sujeito. “As coisas que faziam dele quem ele era dificilmente podiam ser identificadas, muito menos convertidas em dados, as coisas que viviam e rodopiavam dentro de seu corpo, por toda parte, aleatórias, caóticas, bilhões de trilhões, nos neurônios e peptídeos, na veia a latejar em sua têmpora, nos desvios de seu intelecto libidinoso. Tanta coisa que viera e fora embora, isso é o que ele era, o sabor perdido do leite lambido no seio da mãe, a substância que ele espirra quando espirra, isso é ele, e a maneira como a pessoa se transforma num reflexo que ela vê numa janela empoeirada quando passa por ela.”

A insatisfação com as limitações impostas pela própria condição humana e a somatização dessas impossibilidades, expressas nas deformações do psicológico que extravasam nas atitudes, são o ponto de convergência entre “Cosmópolis”, romance do mestre americano das letras Don Delillo, e a cinematografia do diretor canadense David Cronenberg.

Missão temerária transpor para as telas uma obra calcada no diálogo, que traz a ação como elemento secundário na dramaturgia – sua estruturação se assemelha à de “The Sunset Limited” (2011), filme obrigatório, derivado da peça de outro mito americano das letras chamado Cormac McCarthy, que sublinha uma discussão entre fé e ceticismo.

A narrativa se desenrola ao longo de um dia. Packer (Robert Pattinson, escolha equivocada para o papel; sem profundidade de atuação, é concretado pelo estoicismo de uma estátua e abusa dos beicinhos para as câmeras, visivelmente pouco confortável no desenvolvimento canhestro de um personagem denso) começa o dia disposto a cortar o cabelo. O barbeiro da esquina não serve. Por motivos pessoais, ele precisa atravessar a cidade até um profissional específico, ligado ao seu passado. Quem tem bilhões no banco pode fazer o que quiser, inclusive contratar Delillo para aparar suas madeixas numa das cadeiras do estádio do New York Yankees.

Seu aparato de segurança, cujo pilar é Torval (Kevin Durand, perfeito na interpretação do inabalável guarda-costas, “um homem cuja cabeça parecia ser removível para fins de manutenção”), desaconselha tal empreitada. Nova Iorque convulsiona no caos: o presidente dos EUA está na cidade, deslocando-se com sua comitiva, protestos anticapitalistas explodem nas ruas e o cortejo que cerca o caixão de um famoso rapper emperra o trânsito. O alerta vermelho é ligado quando Eric se torna alvo de uma ameaça não identificada. Apesar de tudo, o plano inicial permanece inalterado. Assim como o advogado Michael Haller, interpretado por Matthew McConaughey em “Cliente de risco” (2011), Eric faz de seu carro o escritório. Instalado na espreguiçadeira nos fundos da limusine, pode controlar todos os seus negócios por meio de computadores que fariam Steve Jobs se levantar da tumba e processá-lo por roubo de patentes.

Apesar de a rica matéria-prima fornecer elementos para uma produção excepcional, o roteiro peca na concisão e no encadeamento. A partir do momento em que Eric entra em seu veículo, a trama se torna confusa para quem desconhece o livro e não consegue amalgamar as sutilezas da produção intelectual de Delillo. Eric se encontra com diversos colaboradores e trava embates retóricos sobre segurança da informação, arte, especulação financeira, filosofia, sexo. Destituídas do contexto maior, essas interações se tornam episódios desconexos, que dispersam a atenção como fragmentos herméticos, sem vínculo com o todo — mas há ordem no caos. No livro, diagnosticam a rede de relações superficiais e voláteis de Eric, que interage com seu círculo social numa lógica hipertextual, da mesma maneira que com seus contatos no Facebook os tempos não são mais analógicos, mas digitais, atropelando trivialidades e desviando a atenção a todo momento.

Didi Fancher (Juliette Binoche), amante que negocia obras de arte para Eric, e Vija Kinsky (Samantha Morton), chefe de teoria (masturba Eric mentalmente a um preço exorbitante) do ricaço, defendem com afinco papéis pequenos. Sarah Gadon, como Elise Shifrin, esposa de Eric, protagoniza momentos interessantes – a frieza, frigidez e alienação de sua personagem desvelam a superficialidade de um casamento de aparências, cuja única razão é o acúmulo de ativos. André Petrescu (Mathieu Amalric, faz milagre em poucos segundos atuando como um Birol Ünel drogado), o ativista que adoça o azedume de suas vítimas com uma torta na cara, é um aperitivo, sinalizando que o pior está por vir. Outras histórias são suprimidas ou deixadas inacabadas, como a transa da Eric com uma subordinada de Torval, Kendra Hays (Patricia McKenzie) – episódio incomodamente aleatório no processo de montagem.

Enquanto o relógio do fim do mundo se aproxima da meia-noite para a maioria, Eric, desconectado do real por ter esgotado as possibilidades de consumo material, começa a se entender como produto último de suas fixações. Sua obsessão por si mesmo e o completo desinteresse pelo outro – que se torna um meio para o atingimento de um fim – o levam a degenerar. Os exames médico diários são sintomas da putrefação de seu caráter, alijado de qualquer valor moral.

Na sequência final, a mais perturbadora, numa clara metáfora do inconformismo com as perversidades do sistema capitalista, Eric se defronta com um refugo da sua pegada de dólares: Benno Levin/Richard Sheets (Paul Giamatti, brilhante como o sujeito devastado, privado de tudo, sem nada a perder), o homem que quer meter uma bala na testa de Packer. O algoz decadente expressa as contradições de um herdeiro/vítima de um modelo econômico que privilegia alguns em detrimento de milhões. Benno/Richard hesita no gatilho porque na ponta do cano está alguém que representa um sistema no qual ele acreditou, alguém que um dia ele acreditou poder ser ele. Em vez disso, foi destruído por um sonho de grandeza inatingível, que não passava disso, um sonho. Desequilibrado. Homem em queda. Eric não precisa dele para tombar também.

 Carlos Eduardo Bacellar

 p.s. Alicerçado no diálogo, “Cosmópolis” se confunde com o teatro. Mas, ao contrário da literatura para os palcos (peças registradas em livros), que só encontra seu sentido pleno ao ser desfraldada na ribalta, o romance de Delillo, transposto para as telas, só atinge sua completude, e, consequentemente, sua razão de ser, no texto. Quem não conhece sua obra se perde na palavra em vez de se perder dentro de si e chafurdar em seus desvãos, onde se encontra aquilo de nós que não queremos ver.

Fonte: deviantart

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