Arquivo do mês: outubro 2012

A origem do desejo

Nunca fiquei satisfeito com o conto Missa do galo, de Machado de Assis. Algo na narrativa me incomodava, apesar de adorar a sugestão de putaria velada. Refletindo, resolvi me arriscar e reescrevê-lo, dando voz a outros personagens e novas perspectivas para a história. O resultado está aí, inaugurando a seção de ficção no blog.

Fonte: deviantart

Era a chance que eu esperava para me vingar de Meneses. Mulherengo que só, achou que eu ia engolir calada mais uma traição. Pois bem… O Sr. Nogueira não poderia ter se hospedado conosco em melhor hora. Já estava pensando em me engraçar para o primeiro desconhecido que me olhasse com concupiscência, tamanha minha fúria. Mas é melhor que seja assim. As piores decisões são tomadas de cabeça quente. Com um conhecido tornará tudo mais doloroso para meu marido, mulherengo incorrigível.

Chegou minha hora de ir ao “teatro”; a ribalta nunca esteve mais próxima. O Sr. Nogueira não é nenhum protagonista, devo confessar… Coitado, sempre sozinho, imerso nos estudos, poucas (um eufemismo) relações… Duvido que, aos dezessete, tenha experiência com mulheres, o que tornará tudo mais divertido. Mas cumprirá seu papel como um bom coadjuvante, tenho certeza. Se necessário, será rebaixado a figurante para fazer o que deve ser feito. Só é preciso um pouco de provocação.

Esta noite será perfeita! Meneses foi para sua farra habitual. O menino prolongou sua estada conosco até o Natal, para ver a missa do galo na corte. Vai ver coisa muito melhor! Certamente mais interessante que a missa. Só depende dele. Antes de o galo cantar, a jeba há de levantar! Deus que me perdoe, mas é melhor arder no fogo do inferno que ser consumida pelas labaredas que me incendeiam por dentro.

Pelo que percebi, ele nem pretende dormir, já que aguarda vestido na sala da frente. Ótimo! Pensa que me recolhi. Vou aguardar mamãe cair nos braços de Morfeu e mostrar que esta balzaca ainda tem muita lenha para queimar. E lenha da boa!

Meneses… Esse não merece a mulher que tem. Permaneci calada tempo suficiente. Confusa e obliterada pela raiva, no começo, quase cometi o desatino de meter-me com escravos. Seria muito fácil – e compensador, já que dizem que os negros são anatomicamente avantajados. Eu mando, eles obedecem. Mas só daria a Meneses munição para destruir minha reputação. Mamãe, aquela cobra conivente, ajudaria meu marido a me apedrejar. Nada melhor do que esfriar a cabeça e aguardar o momento certo. E talvez o modo certo… Quem sabe a dúvida não pode despedaçar mais que a tristeza? Lembrei-me de Capitu. Bentinho se tornou prisioneiro de sua própria imaginação, alimentada pelo ciúme. Melhor que a concretude da confirmação é a falta de chão da incerteza. Veremos pelo andar da carruagem… Sabendo depois Nogueira de todos os contornos da verdade ou não, quero consumar o adultério.

O Sr. Nogueira… Pensa que não percebo… Fica me olhando de soslaio e, quando confrontado, dissimula. Acredita que eu deveria ser canonizada. Vamos ver o que ele acha de colocar as mãos numa santa que arde de raiva e de luxúria. Afinal, quem disse que vingança e prazer não podem caminhar de mãos dadas? É chegada a hora. Vamos assustar o garoto. Este roupão não me entrega, mas me condena.

— Ainda não foi?

Não sabe nem como reagir… Fica me olhando com cara de bobo.

— Que é que estava lendo? 

— Gosta de romances?

E embarcamos num papo chato sobre literatura. Tinha que mudar logo o rumo daquela prosa, ou seriam horas de ele partir para ver a missa.

— D. Conceição, creio que são horas, e eu…

Pensado e feito…

– Não, não, ainda é cedo…

Sinto que ele me deseja, mas me respeita. Até que ponto? Todos têm um ponto de ruptura. Botões e cintos masculinos certamente. Quanto tempo será que ele aguenta segurar as calças no lugar? Levanto e passeio próxima, pensando no que fazer. Digo que a missa não tem nada de especial, é a mesma da roça. Não percebe, Sr. Nogueira, que há outra liturgia, a da carne, muito mais interessante?

Vou instigá-lo à ação. Hora, é ou não é homem? Começo uma aproximação estudada, sento-me próxima, provoco com o olhar, as folgas de meu roupão certamente fazendo com que sua imaginação entre em ebulição. Enfim responde alterando o tom de voz, perturbado. Tive que reprimi-lo. Mamãe pode acordar e frustrar meus intentos. Deixo ele respirar por um segundo, um segundo apenas. Nossos rostos estão próximos. Por que não me beija? Estou aqui. Por que outra razão uma mulher casada estaria fazendo companhia a um rapazote no meio da noite se não… Bom, ele precisa decifrar meus sinais e agir. A hora da missa é minha principal rival no momento. O eterno embate entre o sagrado e o profano. Eita, homem mole! Só falta me sentar em seu colo. Não seria má ideia… Seria possível saber com mais precisão se seu sexo me dá mais informações do que ele. Termômetro melhor para a lascívia não há. A estocada por cima das calças, chamamento para o sexo. Inclino-me, outra alteração de voz.

– Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.

– Eu também sou assim.

Ousada, aproximo-me ainda mais, fingindo não ouvir direito. Ele fica inebriado com meu cheiro, sinto seu desnorteamento. Por que não me toca? Estou ao alcance de suas mãos, de sua boca. O Sr. Nogueira parecia hipnotizado, atado pelo seu desejo. O que mais é preciso para incentivá-lo? Bato a ponta dos cintos em meu joelho, como que para livrá-lo do transe, e cruzo as pernas. Ele estremece. Não quero que ele passe do torpor ao infarto.

Ai… Ai… Ai… Não pode pensar que estou sendo apenas simpática. Devo estar meio enferrujada. Provavelmente já fui melhor nisso. O casamento pode fazer um mal para nossas artimanhas de sedução. A falta de prática leva à imperfeição. Como eu e Meneses nos afastamos… Juntos sob o mesmo teto, mas indiferentes ao outro. Talvez minha raiva não brote da traição, mas do que pode ter levado meu marido a ela. Terei eu perdido meus encantos? O tempo é inexorável. Este garoto não me achou velha, mas talvez esteja sendo gentil. Há outros freios invisíveis. Estive outro dia na cartomante. Ela vaticinou detalhes da produção de um escritor inglês do século XX, que irá escrever sobre o choque das convenções vitorianas com a revolução moral que está por vir. Tal contradição já ocorre aqui, entre mim e esse água de salsicha. Até mesmo entre as duas que digladiam dentro do mim. Atada pela etiqueta, sobre a qual desliza o estilete do desejo. Estou devaneando… A letargia do Sr. Nogueira me dá sono… Vou acabar pegando no sono. Olho-me no espelho. Não é uma visão muito bonita. Gravuras na parede. Mulheres. Mais belas que eu. Por que não são meus retratos de Dorian Gray?

– Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Meneses para comprar outros.

São bonitos, reponde o Sr. Nogueira.

– São bonitos; mas estão manchados (seria minha visão distorcida que macula as obras?). E depois, francamente, eu preferia duas imagens, duas santas (estariam elas a salvo do pecado, da prostituição?). Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.

— De barbeiro? A senhora nunca foi à casa de barbeiro.

Que rapaz inocente… Uma última investida.

– Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas…

Nenhuma reação. Chegou a abrir a boca, mas engoliu suas palavras. Nesta altura, eu que deveria estar engolindo algo. Voltamos às mesmas trivialidades, o que me aborrecia e me distanciava do meu objetivo. Não trocava mais de lugar. Para quê? Quanto mais me aproximo, menos ele reage. Minha atitude, ou falta dela, se tornou linear como a (falta) de ritmo cardíaco de um cadáver. Sem mais esperanças, comecei a mirar as paredes. Talvez elas se movessem. Os olhos do Sr. Nogueira fugiam dos meus, o que acabou me constrangendo. O que estaria ele pensando? Por fim, o silêncio. Não havia mais o que ser dito. Deste mato não sai coelho, que dirá galo.

Pancada na janela: “Missa do galo! Missa do galo!” Pedi que fosse, não havia por que segurá-lo mais tempo. O momento se foi. Minha desforra teria de ser adiada. Será com ele? Ainda será? Não sei mais… Caso for, estarei realmente disposta a ir até o final? Será que o chumbo trocado realmente não dói? Meu casamento estaria falido? Irrecuperável? Quero recuperá-lo? Alguém ainda se encantaria por mim? Sr. Nogueira vai tão longe, como o som dos sinos…

Antes de deixá-lo, uma provocação final. Andando em direção ao meu quarto fiz dos movimentos de meu corpo a repreensão às rédeas do garoto, que perdeu a oportunidade de ser homem, meu homem por alguns momentos. Os sinos, ainda ouço os sin…

Dona Inácia acorda assustada. Forçada à realidade, ainda desorientada, apalpa o colchão em busca de alguma segurança. Sente-se ao mesmo tempo aliviada, decepcionada, eufórica e constrangida. A hora está avançada. Alguém se movimenta pela casa. Com cuidado, levanta-se para averiguar. Anda sorrateira pela casa. Encontra, na sala, próximo à porta, a origem do ruído, de seu sonho, de seu tormento libertador. É só o Sr. Nogueira. Parece irrequieto, andando nervoso de um lado para o outro. Ah, Sr. Nogueira… “Ansioso pela missa” – por que mais seria? –, pensa D. Inácia, que, após observá-lo no escuro por alguns segundos, volta para seu quarto; sem dançar com seus quadris, sem ser notada, molhada de suor e de tesão.

Carlos Eduardo Bacellar

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Em qual grupo você está?

À noite, um casal ocupa uma mesa em um restaurante. À meia luz e com som ambiente, cada um saboreia seu prato e taça de vinho. Observam mais o alimento do que o companheiro à sua frente. Enquanto uma mão segura o talher ou a taça, a outra segue displicentemente sobre a mesa. Eles nunca se tocam; eventualmente trocam um sorriso ou um aceno com a cabeça, indicando aprovação à comida.

Se você não vive essa situação diariamente, certamente já observou um casal assim algum dia. Uns tratam isso como intimidade; outros entendem que falta paixão.

Ao primeiro grupo pertence o autor de livros de culinária Lou, personagem de Seth Rogen em “Entre o Amor e a Paixão” (2011), em cartaz na 36a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para ele, o silêncio é uma consequência natural do relacionamento diário. Na segunda e incomodada turma está a aspirante a escritora Margot, a heroína vivida por Michelle “Marilyn Monroe” Williams no romance da atriz e diretora canadense Sarah Polley, autora de “Longe dela” (2006), em que Julie Christie interpreta uma mulher cuja memória é deletada pelo Alzheimer, testando a resiliência do amor do marido Grant, encarnado por Gordon Pinsent. A produção, adaptação para as telas do conto The Bear Came Over the Mountain, de Alice Munro, conterrânea literária de Polley, publicado originalmente no livro Hateship, Friendship, Courtship, Loveship, Marriage (editado pela primeira vez nos Estados Unidos em 2001 por Alfred A. Knopf, divisão da Random House), foi indicada a dois Oscar: melhor atriz e melhor roteiro adaptado.

Mundo pequeno

O filme acompanha a agonia vivida por Magot ao conhecer, durante uma viagem a trabalho, o artista Daniel, que ganha seus trocados como puxador de riquixá  interpretado por Luke Kirby. Por ironia do destino (e de Polley, que também assina o roteiro), o desconhecido é também o novo vizinho do casal.

Assim, o tormento de Margot se desenrola: de um lado, o marido, a quem define como a pessoa mais doce do mundo e com quem vive uma relação, por vezes, infantil e irritante; de outro, o interessante desconhecido. Embora dê a ela o espaço necessário, Daniel está sempre presente – em uma das cenas tem o seu momento Cinquenta tons de cinza ao detalhar o que faria com Margot caso tivesse a oportunidade.

Apimentada é também a cena que remete ao título original do filme, “Take This Waltz”. Polley não só pegou emprestado o nome da música do canadense Leonard Cohen, como também reservou alguns minutos para a canção, que, por sua vez, foi inspirada no poema Pequeño vals vienés, de Federico García Lorca.

Drama ou comédia?

Embora o pôster nacional defina o filme como uma “comédia romântica ácida e engraçada”, o longa apresenta sua parcela de drama. E, acredite se quiser, quinhão que cabe à comediante Sarah Silverman, que surpreende como Geraldine, irmã alcoólatra de Lou. As tiradas afiadas da esposa de Jimmy Kimmel não entram em conflito com a sensibilidade da personagem para perceber o que acontece ao redor e viver o próprio drama. Como a própria Geraldine diz: “Life has a gap in it, it just does. You don’t go crazy trying to fill it” (“A vida tem um vazio, simplesmente tem. Você não sai feito louca tentando preenchê-lo). E é nessa mistura de drama, romance e erotismo que se encontra o mérito de Sarah Polley.

A fotografia, assinada por Luc Montpellier (com quem a diretora trabalhou em “Longe dela”), que abusa (e acerta!) nas cores e luzes, e a trilha dão um delicioso tom de verão a “Entre o Amor e A Paixão” – convergência estética entre “Sob o sol da Toscana” (Audrey Wells, 2003) e “Para Roma, com amor” (Woody Allen, 2012) filmada em solo canadense. Polley só peca na narrativa, que se estende além do necessário. No final, seu filme não é uma obra-prima, mas pode ser uma boa diversão e, quem sabe, servir como terapia para alguns casais.

Tatiane Lima é autora do blog @osindicados, espaço dedicado ao cinema, e correspondente do Doidos na 36a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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Clube dos três

Fonte: deviantart

Simplificação exagerada da narrativa, enxugamento do texto literário e o redimensionamento de situações da história dos personagens em detrimento do apequenamento (ou exclusão) de outras são estratégias utilizadas na transposição de livros para as telas. Tais artifícios vão de encontro às idiossincrasias hiperbólicas que nublam a adolescência com dúvidas, exageros, inseguranças, impulsividade, conflitos, medos e geram um custo emocional alto, mas necessário para a formação da personalidade.

As vantagens de ser invisível” consegue compatibilizar uma amostragem das infinitas contradições emocionais da adolescência – exploradas no romance homônimo – com as imposições comerciais da indústria ao empreender um expediente simples, mas eficaz: o escritor americano Stephen Chbosky foi incumbido de roteirizar e dirigir a versão de seu próprio livro para as telas. Controlando todo processo, o realizador, devoto de John Hughes, foi capaz de garantir a integridade de sua obra e se certificar de que a tradução, mesmo sendo um produto diferente do livro, carregasse a alma autoral impressa nas páginas.

Hughes foi o porta-voz dos questionamentos da juventude da década de 1980, com obras como “Clube dos cinco” (1985) e “Curtindo a vida adoidado” (1986). “The perks of being a wallflower”, no original, é a proposta de Chbosky para rediscutir de forma séria uma época conturbada, fugindo de comédias escrachadas como “Superbad” (2007) e do surrealismo da linguagem dos quadrinhos e videogames de “Scott Pilgrim contra o mundo” (2010) – aproximando sua filosofia estética de produções como “A lula e a baleia” (2005), de Noah Baumbach, e “Rocket Science” (2007), de Jeffrey Blitz.

Charlie (o talentoso Logan Lerman, o Michael Cera de Chbosky) está passando pelo desconforto do primeiro ano do ensino médio, um trote que se estende por todo calendário letivo, talvez além. O garoto é discriminado por não se enquadrar no modelo de comportamento considerado cool pelas tribos de it teenagers que dominam a área da escola. Se desvia como pode das farpas do bullying, rito de passagem pelos corredores para os diferentes. Não há nada pior para alguém que, influenciado pelas altas taxas hormonais, deveria pensar somente numa coisa: garotas, de preferência nuas.

Deveria, numa outra dimensão em que não existissem ambiguidades. Típico nerd, tímido, introspectivo, dedicado aos estudos e à literatura, sem traquejo com rituais sociais considerados ortodoxos, que lhe renderiam algumas amizades, Charlie é resgatado de sua misantropia pelos “irmãos” Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson). Os dois apresentam outra realidade para Charlie, repleta de possibilidades. Não é difícil adivinhar que o Holden Caulfield do escritor/diretor se perde por Sam – moleza interpretar alguém apaixonado por Emma Watson; não é preciso ter talento ou frequentar o Actors Studio para convencer. O problema é que algo freia seu ímpeto de expressar o que sente.

Fonte: deviantart

Com o desenrolar da trama, o filme/texto de Chbosky mascara os esqueletos que os três guardam no armário com as inconstâncias e rompantes da idade. Questões como homossexualismo, o primeiro namoro, a primeira transa, as descobertas por meio de tentativa e erro, as escolhas precoces que podem determinar o futuro, a aflição das aplicações para as universidades, as atitudes irresponsáveis, as contradições sentimentais provocam reações que são confundidas com comportamentos que escondem traumas psicológicos mais sérios.

Flashbacks vão desvelando razões por trás das relutância de Charlie em se enturmar, arriscar, amar, ser adolescente. Seu único diálogo é com os livros, que estreitam sua relação com o professor de literatura inglesa, seu John Keating, interpretado por Paul Rudd. Estimulado, ele se entrega à escrita, único exercício de que gosta, solitário, na tentativa de desatar um nó em seu peito.

O sol é para todos, de Nelle Harper Lee, e On the road, de Jack Kerouac, não à toa integram a seleta de leituras obrigatórias. Mas a literatura só atinge toda sua grandiosidade quando diz algo sobre nós mesmos, e não quando é somente um mero instrumento de fuga ou passatempo vazio. Charlie se liberta por meio da coragem de Patrick e Sam para se desvencilhar de preconceitos e recalques que os impediam de crescer e assumir as rédeas de suas vidas.

Fonte: deviantart

A sensibilidade para tratar de temas considerados tabus se mescla e se confunde com a instabilidade psicológica e emocional de um período complicado. Aí está o excepcional… “The perks of being a wallflower” questiona valores rotulando metaforicamente problemas com os “defeitos morais” da adolescência. O “desvio” para falar do “desvio”, estabelecendo causas e consequências distintas. Chbosky pede que sua juventude seja ouvida para além de estereótipos e das condutas imputadas à idade. E ela grita alto. É só filtrar os ruídos.

Senhoras e senhores, sou o Carlos Eduardo Bacellar e posso dizer que sobrevivi à adolescência quase incólume… Acho… Mas continuo por aqui, tentando me entender; saber quem sou e para onde vou. Qualquer lugar com Emma Watson estaria perfeito.

p.s. Há imagens muito bacanas no tumblr do filme.

Fonte: “The perks of being a wallflower”, por Joel Amat Güell

 

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Wes Anderson e Todd Solondz: duas faces da mesma moeda

Fonte:deviantart

Não sou jovem o suficiente para saber tudo” (Oscar Wilde)

Numa disputa de cara ou coroa entre Wes Anderson e Todd Solondz, jogando para o alto a moeda de Harvey Dent/Duas Caras, instrumento/juiz que entrega à probabilidade questões relativas à família, Anderson sempre vai escolher o lado imaculado, enquanto Solondz, seu duplo degenerado, vai escolher a face arranhada.

O diretor de “Felicidade” (1998), cronista das perturbações dissimuladas da classe média americana, enxerga a família ianque, cujo hábitat natural são os subúrbios – retratados em suas produções como verdadeiros depósitos de traumas psicológicos, conflitos e perversões escamoteadas, maquiados pela fragilidade das aparências e da hipocrisia –, com pessimismo e desesperança.

Já Anderson, mesmo reconhecendo as disfuncionalidades inerentes a um núcleo familiar, aproveita essas mesmas anomalias para estreitar laços entre personalidades conflitantes e criar narrativas singelas e lúdicas acerca do amadurecimento emocional de pessoas ligadas pelo sangue. As ovelhas negras em suas obras, figuras de destruição/reconstrução, são sempre transformadas em velocinos de ouro pela condescendência do olhar delicado.

Em “Os excêntricos Tenenbaums” (2001), a doença terminal do patriarca, um advogado falido interpretado por Gene Hackman, é o remédio produzido pela necessidade para cicatrizar desavenças, rancores, incompreensões e corações partidos. “A vida marinha com Steve Zissou” (2004), com Bill Murray no traje de mergulho de uma paródia de Jacques Cousteau, é um ensaio de Anderson sobre a paternidade tardia e seus efeitos colaterias, desvirtuados pela dor da perda e a sede de vingança, como a tentativa de recuperar o tempo perdido e ao mesmo tempo lidar com um sentimento novo e incômodo: o afeto por um filho cujo parentesco não resistiria a um exame de DNA. “Viagem a Darjeeling” (2007) trata da jornada espiritual de três irmãos. Viajando pela índia a bordo de um trem, são obrigados a aproveitar o tempo juntos para se harmonizarem e discutirem o relacionamento que tiveram com o pai falecido e a mãe que os abandonou. Cheirando a incenso, é o “Nós e eu” (Michel Gondry, 2012) da era analógica para maiores de 18 anos de Anderson.

Solondz formula seus trabalhos com ironia, sarcasmo, violência psicológica, individualismo e senso de humor doentio. Anderson manuseia transparência de sentimentos, inocência, pureza, ingenuidade e solidariedade.

A trilha autoral construída com os negativos do realizador de “A vida durante a guerra” (2009) e “Dark Horse” (2011) nunca foi um caminho viável para Anderson. Ele optou pela via positiva que o levou até “Moonrise Kingdom”, seu último longa, produção que rivaliza com a animação “O Fantástico Senhor Raposo” (2009) – sobre, adivinhe?, uma família de canídeos que se encrenca porque o papai raposo não consegue negar sua verdadeira natureza – pelo posto de melhor projeto do portfólio de Anderson.

Ah, o primeiro amor… A história de dois pré-adolescentes que descobrem (e vivem) intensamente o amor é adaptada na matriz familiar do maior fã de Bill Murray de que se tem notícia – Ruben Fleischer deve estar se mordendo todo e se autoinfectando com o vírus da inveja, aproveitando o trocadilho canibal para fazer referência a “Zumbilândia” (2009). O escoteiro Sam (Jared Gilman) tem um missão ordenada por seus hormônios. Ele abandona sua tropa, acampada em algum local na nova Inglaterra, década de 1960, para fugir com sua amada Suzy (Kara Hayward). Os pais da moça, Walt (Bill murray) e Lara (Frances McDormand) Bishop, não aceitam muito bem o relacionamento. Junto com o líder escoteiro da tropa de Sam, Ward (Edward Norton), seus asseclas mirins e o capitão da polícia local, Sharp (Bruce Willis), empreendem uma operação de busca e salvamento da virgindade perdida. Sam é o Charlie, sobrenome “As vantagens de ser invisível”, da família adotiva que o rejeita. Esperto, pragmático, aplicado, introspectivo, retraído, solitário, tachado como esquisito por causa de seu comportamento singular. Suzy é a Dawn Wiener do clã Bishop. Introvertida, leitora voraz, tímida, sonhadora, voluntariosa, explosiva, incompreendida. Almas gêmeas.

Fonte:deviantart

Wes Anderson e seu conceito estético vintage, influência dos anos 1960 – como se tivesse dado caixas de lápis de cor para crianças pintarem os cenários de “Mad Men”, os quais serviriam como locações para seus filmes –, emolduram, com imposições sociais (as incongruências e distúrbios da família), uma história sobre o florescimento do amor em seu estado mais inocente, repleto de dúvidas, descobertas e expectativas – portanto, mais intenso e inabalável. A primeira paixão, o primeiro entrelaçamento de mãos, o primeiro beijo, a primeira apertada de peitinho, a primeira ereção… Anderson torna o constrangimento e o desconforto encantadores e poéticos.

Os personagens caricaturais, a ambientação que tangencia o irreal, as situações inverossímeis, o olhar infantilizado, os silêncios que maturam as ações, as tomadas em câmera lenta, os exageros habituais das histórias em quadrinhos são elementos da grife Anderson, que assina o roteiro com Roman Coppola. Tudo fotografado por Robert D. Yeoman, colega de trabalhos anteriores que, ou por uma falha no tratamento do filme (segundo o IMDb, o formato original do negativo era 16mm; posteriormente foi convertido para 35mm), ou por opção, confere à projeção um aspecto granulado, escurecido e de pouca definição, característico do formato Super-8 – proporcionando uma atmosfera cult. O diretor faz do cinema sua caixa de brinquedos, com a qual volta no tempo e realiza suas fantasias mais íntimas. Seu jogo LEGO de US$ 16 milhões.

Moonrise Kingdom” é a versão cor-de-rosa de Wes Anderson para “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995), em que, diferentemente da ficção desencatadora de Solondz, sobre o lado odioso da natureza humana, os melhores sentimentos prevalecem.

 Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Anderson é extremamente conservador na escolha do elenco. Apostar em Bill Murray e Anjelica Huston é sempre recompensador. Os irmãos Owen e Luke Wilson e Jason Schwartzman também são figurinhas fáceis em seus filmes. Felizmente, desta vez ele abriu espaço para Frances McDormand, Bruce Willis e Edward Norton. Os dois últimos brilham, especialmente Norton, um líder que ainda está aprendendo o significado de liderança. McDormand desempenha um papel inexpressivo – que ramifica a trama num envolvimento extraconjugal para afirmar mais uma vez os problemas que solapam as relações familiares nas obras de Anderson –, assim como Tilda Swinton, numa ponta como assistente social.

p.s.2 Muitos críticos se rasgam de elogios para a trilha sonora dos filmes de Anderson, no meu entendimento superestimada. Manohla Dargis, crítica do Times, destaca em sua resenha O Guia da Orquestra para Jovens, obra do compositor inglês Benjamim Britten, que disseca os naipes de uma orquestra durante os créditos de “Moonrise Kingdom”. Quem assina a trilha é Alexandre Desplat, mito da indústria. Para eles, só digo dois nomes para encerrar o assunto: Cameron Crowe e Nancy Wilson. Segurem essa!

Fonte:deviantart

 

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Antes da chuva

Para Milcho Manchevski – com seu cinema, ensinou-me que a circularidade do tempo é uma das melhores formas de capturar e entender o humano

A letra “E” em itálico no pôster de “Sudoeste” já indica movimento deslocado. Insurgência. Paradoxo aflitivo: um moto-perpétuo que acelera para se livrar das convenções que o impossibilitam, mas permanece estático em sua insistência improdutiva e eterna de se livrar dos elos entre passado, presente e futuro.

Em seu primeiro longa, Eduardo Nunes esculpe o tempo numa narrativa circular, cuja sofisticação estrutural está subordinada à linguagem alegórica. A recursividade do tempo, círculos concêntricos que hipnotizam nosso olhar com o estranhamento, é a estratégia para subverter o relógio biológico de Clarisse (Simone Spoladore, sempre se impondo tremendamente quando capturada pelas câmeras). Moradora de uma comunidade ribeirinha que agoniza sob suas ruínas, perdeu a mãe no parto e foi criada por uma senhora estigmatizada como bruxa pelos moradores locais.

O cronômetro (imaginário) de Clarisse atropela o (real) dos personagens com que ela se envolve. Como um moinho que gira mais ou menos rápido de acordo com a velocidade dos ventos, Clarisse, ao longo de um dia, é atropelada pelos anos ao ser atingida pela força das circunstâncias de um círculo social de início desconhecido, mas que se mistura com o sangue em suas veias.

A história da protagonista, intricado mosaico de fragmentos temporais e emocionais enquadrados pela soberba fotografia em preto e branco de Mauro Pinheiro Jr. — que mantém aquela localidade como num estado de suspensão; uma foto antiga pendurada na parede de uma cidade fantasma que carrega o conflito em estado latente, só percebido no contexto dos envolvidos —, colide com a de outros personagens e desestrutura a árvore genealógica de uma família por meio de insinuações e elipses à medida que Clarisse envelhece. O tempo cronológico não é respeitado pelo convulsionamento psicológico, que brinca com os ponteiros como se fosse um relojoeiro insano – ou curioso pelo que está por vir ou querendo extinguir o depois, abominável. O mais importante deve ser apreendido no que foge à visão, nos desvãos, nos esconsos. A escuridão, no filme de Nunes, instiga o pensamento, criador maior. As impressões sinestésicas são realçadas pela trilha sonora. Ao prestar atenção, é possível encontrar, além de ordem na complexidade daquela narrativa não linear e devastadora, texturas, cheiros, sabores, sonoridade, cores. E quando digo “complexidade” não me refiro ao encadeamento da história, plano macro, até fácil de ser percebido e montado — sem menosprezo ao trabalho de Flavio Zettel, muito pelo contrário –, mas a todos os elementos que compõem o simbolismo do filme, plano micro.

Há vários elementos que desidratam junto com Clarisse à medida que um dos tempos se esvai (o oprimido pelo que já trancorreu): o lago que seca aos poucos, único indício de que o mar esteve ali um dia, mas abandonou aquele local; conchas que forram o chão como um tapete de fósseis; o desvelamento do desvio de caráter do homem que a acolhe; a ciranda e o moinho, reforçando a circularidade; o sal, tentativa desesperada de preservar.

A poética trágica de “Sudoeste” desafia num jogo de sentidos. A idade de Clarisse, corrompendo F. Scott Fitzgerald, avança no mesmo compasso de seu amadurecimento interno, impulsionado por uma desilusão muda para o exterior, mas ensurdecedora para si mesma. “O tempo nunca morre, o círculo nunca se completa.” É a epígrafe, segundo Marcelo Perrone, da obra-prima “Antes da chuva”, produção de Milcho Manchevskique intitula este texto. Epitáfio para Nunes. Empolgado por sua proposta, o diretor estende sua obra por mais de 2h. É aí que ele peca. Desdobrando uma linguagem críptica, que certamente vai encontrar resistência do público habituado a narrativas convencionais, Eduardo perde a oportunidade de atravessar a sensibilidade com a eficiência de um Haicai.

Clarisse talvez queira esquecer, recomeçar, mas este não é o seu “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (Michel Gondry, 2004). A memória gira a roda do tempo numa estrutura sem números, que só permite um novo início para o mesmo final. Causalidade captura extratos de passado, presente e futuro, que se repetem num tormento infinito.

O mestre François Truffaut, num artigo em que espinafra a crítica – Os sete pecados capitais da crítica –, diz que “o crítico só é eficaz a respeito dos pequenos filmes ambiciosos, sem grandes estrelas. Parafraseando Truffaut, arrisco dizer que o destino de “Sudoeste” depende unicamente da opinião da crítica, à qual não deve ser dada tanta importância.

Sudoeste” é uma obra-prima? Só o tempo dirá.

Manual de instruções

Não tenho nenhuma vergonha de dizer que o cinema de Eduardo Nunes é algo novo para mim. Ainda não tive acesso aos seus curtas. Felizmente, tenho a quem recorrer.

O crítico Carlos Alberto Mattos publicou em seu blog um ensaio magistral sobre a estética que impregna as produções de Nunes – e acerca de como seus trabalhos anteriores “pavimentaram” seu caminho até “Sudoeste”.

O envolvimento profundo do Carlinhos com as obras de Eduardo resultaram num texto belíssimo, sem o qual fica mais árdua a interpretação de um filme que exige do espectador. É óbvio que não esgota a reflexão, mas possibilita caminhos numa trilha que parece impenetrável e testa a todo instante transeuntes que se arriscam por ela.

Os grandes acontecimentos com as suas personagens se dão em espaço ou tempo inatingidos pela câmera. Nos interstícios da narrativa é que se passa a ação, da qual recebemos tão-somente os rebatimentos. Narrativa em que o tempo psicológico sobrepõe-se à duração cronológica. Por trás do tempo real existe sempre um tempo virtual mais dilatado, que se explicita ora em sequências ‘fora do tempo’, ora na inquietação que torna tensos o ambiente e a expressão das personagens. Tempo e espaço se articulam com liberdade, mas sem anarquia, segundo uma narratividade que incorpora as produções mentais das personagens, em vez de ater-se somente aos seus atos exteriores.” Algumas ideias dele que é bom termos em mente ao fruir o trabalho de Eduardo Nunes.

Não digo isso por amizade, ou porque o Carlinhos é mais bonito, mais forte, mais alto, mais inteligente e tem um órgão sexual maior que o meu. Ele não é mais bonito, não é mais forte, a desvantagem vertical em relação a mim é nítida, certamente é mais inteligente e dificilmente tem o órgão sexual maior. Digo isso porque entender cinema exige vontade, curiosidade e humildade. Trocas são fundamentais. Estou sempre voltando ao banco da escola e pedindo mais. Compartilho aqui minhas anotações de sala de aula.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Moral do filme: antes da festa, não se esqueça de colocar a fantasia no palhaço.

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ULTIMATEMAN

Nosso colaborador bissexto de Curitiba resolveu dar sinal de vida e propôs uma reflexão tardia acerca de “The Dark Knight Rises”, longa que encerra a trilogia do homem-morcego de Christopher Nolan. Como o editor é um cara legal e aqui pode tudo, menos mulher feia – o padrão de qualidade do Doidos flutua entre Anne Hathaway e Eva Green –, o blog publica. Que venham outros textos do Cris!

Fonte: deviantart

Quem, no Brasil de hoje, não quer ver policiais encontrando amarrado um Cachoeira, a seus pés provas documentais de mil e um crimes? Mas quem teria capacidade e vontade pra realizar isso? Espionar, interrogar, espancar capangas em uma invasão clandestina atrás de pistas, abdicando da própria segurança, agindo à margem da lei em nome do interesse de uma entidade abstrata como o Povo ou a Justiça? Eu? Você? Qualquer um de nós? Nós, quem?

A figura do vigilante é um fantasma, por vezes esperado, nas sociedades onde existe um Estado teoricamente responsável por administrar a prática da Justiça. Seria um indivíduo que age clandestinamente, ignorando as amarras da Lei, perpetrando a justiça do deus-povo, quando a dos homens tropeçou na própria toga. Envolto em escuridão, amedrontador – mas carregando uma luz – assim é o Batman da trilogia de Christopher Nolan, encerrada com “The Dark Knight Rises”.

O FILME

Fonte:deviantart

Será que alguém não conhece a história do homem-morcego clássico? Ele foi criado em 1938 (OU 39) por um tal Bob Kane e era uma colagem de várias ideias já presentes nos pulps em quadrinhos noir da época. Ou você deve ter pensado que eu ia dizer: Batman é o menino que testemunha o assassinato dos pais em um assalto. Ao crescer, viaja pelo mundo por vários anos e prepara-se, mental e fisicamente, para ter os meios de realizar seu objetivo: uma vingança sublimada, que Bruce Wayne leva a cabo disfarçando-se de uma figura meio morcego, combatendo o crime em sua cidade, como tantas outras, mergulhada em corrupção e violência.

E é uma cruzada que Batman (ou melhor, Nolan) traz de forma tecnicamente impecável, em cenas poderosas sustentadas por um elenco de grosso calibre em todos os filmes. As sequências de ação carregadas de adrenalina juvenil evocam o espírito quadrinesco original do personagem. Mesmo assim, a proposta do diretor para o homem-morcego era mais realista, e ele conseguiu construir sua narrativa mantendo a maioria dos elementos clássicos da HQ.

A história das histórias em quadrinhos é coalhada de releituras e recomeços, destinados a apresentar um mesmo conjunto de ideias a sucessivas gerações de leitores. Os irmãos Nolan – Jonathan Nolan também assina o roteiro – foram muito felizes ao preservar certos aspectos que apareceram em décadas de publicação, entre personagens e eventos, e rearranjar outros, tanto representando as contradições do combate ao crime, como garantindo unidade ao longo da trilogia, com trama substancial e clímax em cada filme. E aqui é obrigatório mencionar o Coringa de Heath Ledger.

Não vou entrar na polêmica se a estrutura de “The Dark Knight Rises” ficou muito parecida com “A Origem” (2010), filme anterior dos Nolan. Todo diretor tem seu estilo, ao passo que qualquer filme de aventura urbana precisa ter mistério e revelações surpreendentes. Mais interessante é compararmos às outras versões cinematográficas. As duas primeiras, do início dos anos 90, foram dirigidas por Tim Burton, e seu estilo gótico circense deu o tom de toda a franquia, nas sequências dos anos seguintes. Mesmo quem gosta dos dois do Burton detesta o resto – apesar de o pai do cinema obscuro ter produzido “Batman eternamente” (1995), considerado por muitos um terceiro Burton da franquia, dirigido por Joel Schumacher. O último, com Arnold Schwarzenegger, ex-governador da Califórnia, fazendo o Homem de Gelo, estava tão perdido que virou um Batgay.

Nolan imprime o tom realista que tomou conta dos filmes de heróis de quadrinhos nos últimos anos (vide o recente “Os Vingadores”, dirigido por Joss Whedon). Não só os apetrechos tecnológicos, a roupa, o batmóvel, etc., ganham “explicações” críveis, mas principalmente a motivação de Bruce Wayne – e dos outros personagens. Afinal, ele é um de nós, quer dizer, não tem poderes como o Hulk, Thor e cia., sua luta é uma parte de sua personalidade, em vez de algo que se apresenta em sua vida, e essa é a parte mais sedutora da história. Ao contrário de Burton, que nos apresenta um Batman já feito e na ativa, Nolan nos convida a mergulhar na cabeça de Bruce Wayne e descobrir donde Batman saiu.

O MITO

Fonte: deviantart

Em qualquer lugar onde a impunidade é uma possibilidade talvez exista o desejo de fazer justiça com as próprias mãos. Assim, parece-me que a figura do vigilante é indissociável do nosso modelo de sociedade e de direito. Diria até que nós, no Brasil, nos contentaríamos com o Justiceiro, herói da Marvel que mata os criminosos. Seu nome tupiniquim, aliás, não é uma tradução fiel do original, “Punisher”, que é punidor; ou seja, mais pra um instrumento de pura vingança do que a altivez que a palavra “justiça” sugere. Mas o que move Bruce Wayne é desejo de vingança?

O vigilante, no fundo, é só mais um forte. A vida em sociedade, regida pela lei, é construída pelo diálogo, não pela força. Viver num mundo em que a justiça é imposta pelos fortes é tão ruim como viver num mundo dominado pelos fortes, tão-somente. O bairro que queremos, a cidade, estado, país depende do ideal da justiça alicerçada na lei, e quando essa chama está enfraquecida, é preciso uma luz na escuridão. Foi isso que o órfão Bruce Wayne buscou ser como Batman.

A trilogia nos contou a história de um exemplo reestruturante, que, mesmo por caminhos tortuosos, efetivamente levou os gothenses a recuperar a fé e combater o crime, eles mesmos, restaurando o ideal de lei e justiça. Bruce Wayne atinge seu objetivo, que era o de alçar o Batman a símbolo desse ideal; como lenda, superar as limitações de carne-e-osso. E aí vem uma tirada genial dos Nolan, inédita nos quadrinhos.

As HQs, todo editor sonha, são publicadas Ad infinitum, então nunca se pensou em aposentar um herói. Os Nolan, porém, dentro de sua proposta realista, o fazem: e precisamente o difícil de alguns personagens é acreditar que o cara gosta de ficar batendo em bandido até a velhice. Assim, aposentam Bruce Wayne, que, como qualquer ser humano, deseja viver em paz, mas fazem Batman perdurar, justificando o ideal que representa. Nolan devolve o orgulho perdido desde Clooney e Schwarzenegger, deixando os fãs à vontade para, uma vez mais, repetir: Batman é foda.

Cristiano Kusbick Poll

Fonte: deviantart

 

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Amor nos tempos da cólera

Cadáveres enterrados em valas comuns adubam com o veneno do ódio um sentimento que já nasce contaminado. A guerra na Bósnia-Herzegovina, resultado de conflitos étnico-religiosos que fragmentaram a antiga Iugoslávia na década de 1990, é o campo minado para a história de amor entre o soldado sérvio Danijel (Goran Kostic, o Daniel Craig dos Balcãs) e a artista bósnia Ajla (a belíssima Zana Marjanovic, perfeita ao disfarçar as ambiguidades de uma mulher destruída pelas circunstâncias) em “In the land of blood and honey”, estreia de Angelina Jolie como diretora de um longa ficcional.

Miss Brad Pitt debutou como realizadora no documentário “A place in time”. Orçado em US$ 500 mil, “A place…” é um projeto experimental que dilui barreiras nacionais, culturais e religiosas ao alinhar, em 70 minutos, fragmentos de imagem capturados em diversos pontos do planeta, em dia e horário específicos. Segundo o site Filmstalker, Jolie reuniu amigos de profissão, os muniu com um câmera de mão mini-DV e despachou cada um para um ponto diferente do globo. Entre eles estavam o eterno goonie Sean Astin (Argentina), Colin Farrell (Itália), Ryan Gosling (Chade), Anne Hathaway (Camboja) , Djimon Hounsou (Los Angeles), Jude Law (Nova Orleans), e Hillary Swank (Nova Iorque). No dia 11 de janeiro de 2005, exatamente ao meio-dia (horário de Greenwich), os “diretores”, posicionados em 27 locações com longitudes e latitudes distintas, acionaram simultaneamente suas câmeras e filmaram durante 3 minutos o que achassem mais interessante. O doc, lançado em 2007 no Festival de Tribeca, em Nova Iorque – que tem como fundador Robert De Niro –, foi montado com esses pedaços digitais de nacionalidades diferentes.

Essa experiência documental foi um ensaio para as filmagens de “In the land…”, cujo diretor de fotografia é o australiano Dean Semler – que deixou estilizações, exageros e absurdos gerados pelos efeitos de computador – empregados em “2012” (Roland Emmerich, 2009) – de lado para se aproximar do registro das ruínas de geografias urbanas assoladas pela guerra civil.

Durante o conflito entre sérvios e bósnios, Ajla é capturada e levada para uma base inimiga sob o comando de Danijel. De lados opostos do campo de batalha, mas envoltos pelo arame farpado de um sentimento que não permite fuga sem danos, eles estabelecem um romance clandestino.

As atrocidades da guerra são escancaradas pela diretora – estupros, assassinatos a sangue frio, “limpezas” étnicas, morte de infantes, abusos e humilhações –, que não é condescendente com o público e choca. Ninguém deveria esperar nada menos de Jolie.

A degradação dos valores, diretamente proporcional à escalada da barbárie, não deixa incólume o envolvimento de Ajla e Danijel, que se deteriora em meio à suspeita e aos embates retóricos sobre razões e justificativas. Num cárcere de lençóis mornos e desejos inflamados, o soldado sérvio é sensibilizado pelo drama de Ajla ao mesmo tempo que se torna alheio à realidade ao seu redor.

Danijel se humaniza numa zona de desesperança, que não permite hesitações. Quando se humaniza, enfraquece. Quando enfraquece, não consegue pensar com clareza. Perdendo sua missão de foco, deixa de ser um combatente e se torna vítima de suas próprias ilusões, peão de um jogo que coloca sua vida em risco. O que move Ajla? Síndrome de Estocolmo, carinho verdadeiro, revolta, oportunidade e traição volatilizam qualquer interpretação, que se confunde com a fumaça que emerge dos escombros de Danijel.

Angelina Jolie, que também assina roteiro e produção, conta uma história do que não aconteceu em sua plenitude para falar do que poderia ter sido. Metáfora da contradição de situações extremas, nas quais a arma é apontada para sonhos. Amor e ódio se amalgamando e sendo dilacerados pela mesma baioneta. “In the land of blood and honey” é um grito catártico, apaixonado, de uma militante dos direitos humanos; estrela de cinema de carne e osso, que ama, sofre, sangra e chora como todos nós.

Carlos Eduardo Bacellar

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