Ocaso do cidadão nacional

A parafernália da indústria do cinema foi o arsenal utilizado pelo agente da CIA Tony Mendez para detonar uma ficção de forma a encobrir uma mentira com a cortina de fumaça da ilusão. Tarefa complexa, pois a mentira apresenta bordas irregulares, que deixam à mostra partes do que se quer esconder.

A situação se torna mais crítica quando a prestidigitação envolve vidas humanas, ameaçadas pelos desdobramentos da Revolução Iraniana – período no qual o regime autoritário do xá Mohammad Reza Pahlevi, títere dos interesses do Tio Sam, foi substituído pela era dos aiatolás. Mendez foi o responsável por, em 1979, retirar de território iraniano seis funcionários da embaixada americana, invadida por detratores de Reza Pahlevi, que se refugiaram na representação canadense.

Dirigida por Ben Affleck, que interpreta Mendez, a produção – baseada no livro Argo: how the CIA and Hollywood pulled off the most audacious rescue in history, escrito por Mendez e Matt Baglio (os autores utilizaram como matéria-prima um artigo de Joshuah Bearman), que está sendo editado em português pela Intrínseca – conta como um filme (e não como num filme) os americanos se passaram por membros de uma equipe de cinema na tentativa de enganar as forças de segurança iranianas e fugir do país. Affleck teve seu talento chancelado pelo Oscar de melhor roteiro original, que dividiu com o amigo Matt Damon pelo trabalho em “Gênio indomável” (Gus Van Sant, 1997), e pela direção de “Atração perigosa” (2010), thriller de ação sobre uma gangue de Boston especializada em assaltos a bancos.

A produção (a de mentirinha), o expresso da meia-noite para os americanos em perigo, é baseada num roteiro de ficção científica cujo título é Argo. Em algum momento entre o agente 007, fiel à coroa britânica, passando pelos mercenários de aluguel de “Os mercenários 1 (Sylvester Stallone, 2010) e 2 (Simon West, 2012)” – cujas sequelas psicológicas são exploradas por Ken Loach em “Route Irish” (2010) –, e chegando ao projeto cancelado de super soldado que tem como garoto-propaganda Jason Bourne, o cidadão nacional se perdeu.

Esse homem comum, sem músculos avantajados e armas de destruição de massas em punho, cuja principal arma é o cérebro – um herdeiro de George Smiley/Gary Oldman no filme “Tinker Tailor Soldier Spy” (Tomas Alfredson, 2011) –, que passaria despercebido na multidão, foi perdendo força ao longo da História.

O historiador Eric Hobsbawm, que nos deixou recentemente, refletiu (também) acerca das crises de identidade nacional no livro Globalização, democracia e terrorismo (Cia. das Letras, 2007). Ao ler as análises de Hobsbawm, por inferência delineamos de forma mais exata o perfil de Mendez: abnegado, impassível, determinado, disposto a tudo pelo país – inclusive morrer por ele. Perfil que reforça o maniqueísmo da trama, colocando os americanos como civilizados e intelectuais de um lado, e os iranianos como bárbaros e boçais do outro – polarização que tenta ser diluída por condescendências à Guarda Revolucionária do Irã.

Hobsbawm afirma que “o processo [de formação de cidadãos americanos] está sendo revertido e dissolve as grandes identidades, como a do Estado nacional, convertendo-as em identidades grupais auto-referentes, ou mesmo em identidades particulares não-nacionais, sob o lema ubi bene ibi patria [onde existe o bem, aí está a pátria]. E isso, por sua vez, reflete, em grande medida, a diminuição da legitimidade do Estado nacional para os que vivem no seu território, assim como das exigências que esse Estado pode fazer aos seus cidadãos. Se os Estados do século XXI agora preferem fazer suas guerras com exércitos profissionais, ou mesmo através da terceirização de serviços bélicos, não é apenas por razões técnicas, mas porque já não se pode confiar em que os cidadãos se deixem ser recrutados, aos milhões, para morrer no campo de batalha em nome dos seus países. Homens e mulheres podem estar preparados para morrer (mais provavelmente para matar) por dinheiro, ou por algo menor, ou por algo maior, mas, nos lugares onde se originou o conceito de nação, não mais pelo Estado nacional.”

O desaparecimento desse modelo de cidadão nacional está no centro das reflexões do thriller de Affleck, que utiliza elementos da estética de cunho político de Costa-Gravas (“Z”, 1969) e Olive Stone (“JFK”, 1991) para imprimir um crescendo de ação que enreda o espectador nas engrenagens daquela narrativa e o deixa sem respirar, até o último segundo.

Affleck ainda tira sarro de sua profissão e explora as funcionalidades ambíguas da imprensa. Como diz Hobsbawm, “as manchetes e, mais ainda, as irresístiveis imagens de televisão são o objetivo imediato de todas as campanhas políticas, porque são mais efetivas do que a mobilização de dezenas de milhares de pessoas. E evidentemente muito mais fáceis de obter […] O papel central da grande imprensa na política moderna é flagrante. Graças a ela, a opinião pública é mais poderosa do que em qualquer período anterior, o que explica a ascensão ininterrupta das profissões que se especializam em influenciá-la.”

A CIA é, sem dúvida, uma das melhores Assessorias de Imprensa do mundo; pelo simples fato de nos fazer acreditar nisso.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Hobsbawm… Que perda…

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1 comentário

Arquivado em Aprecie com Moderação (dá um caldo), Carlos Eduardo Bacellar

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