Memóri@ e @mor

Adolescentes gostam de andar em bando, como uma alcateia de hienas. Riem de tudo, fazem algazarra num instante sim e no outro também, são avessos à autoridade e são carniceiros impiedosos. Com sentidos aguçados, capazes de detectar padrões de comportamento “anômalos”, que divergem da escala cool em vigor no momento, atacam presas em desvantagem, inclusive da mesma espécie – solitárias, incompreendidas, deslocadas, humilhadas, rechaçadas. O canibalismo psicológico (rotulado de bullying) tem como objetivo preservar o status dos teens dominantes e manter o grupo coeso, refratário ao diferente, quase sempre ameaçador.

O diretor francês Michel Gondry, de “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004) – filme com o qual se consagrou como um ensaísta da questão da memória e do esquecimento no cenário contemporâneo –, explora em seu nova longa, “The We and the I” (“Nós e eu”, numa tradução livre), três ploblemáticas que lhe são caras, segundo estudos da professora de Teoria da Comunicação da UFF Maria Cristina Franco Ferraz: “o esgotamento da matriz moderna da subjetividade em favor da tendência culturalmente disseminada de se reduzir tudo o que somos à materialidade do corpo, especialmente ao cérebro; o vínculo entre essa ênfase e a referência crescente a imagens do cérebro (neuroimagens) tecnologicamente produzidas; a alteração do fenômeno da memória e do esquecimento nesse novo contexto, em suas implicações políticas, filosóficas, existenciais.”

Envelopando um ônibus com sua estética pop, o diretor, egresso dos comerciais e videoclipes, que se recusa a abandonar sua Terra do Nunca – espírito lúdico expresso em seu carinho por ícones da cultura pop, como os quadrinhos e desenhos animados, e numa versão autoral para todos os públicos de “Taxi driver” (Scorsese, 1976) –, força a convivência de tribos antagônicas de adolescentes após o último dia de aula antes das férias.

A encenação transcorre quase totalmente dentro de um busão, Mercedes-Benz de quem é duro, durante o trajeto da linha por áreas menos afortunadas de Nova Iorque (a produção foi filmada em locações no Bronx). Num cercado sobre rodas, a bagunça, as brincadeiras e os conflitos são vetores para reflexões acerca do amor, da sexualidade, da amizade, da situação social, do preconceito, das relações familiares, da perda. Todas as relações são mediadas por telefones de última geração.

Transpondo as análises de Maria Cristina acerca de “Brilho eterno…” para a proposta de “Nós e eu”, é possível perceber que essas interações digitais exploram “[…] por meio de vários detalhes certos indícios do declínio de registros escritos ou gravados em antigos suportes, em favor de tecnologias digitalizantes […] O esgotamento cultural da referência letrada – cultura vinculada a uma temporalidade mais dilatada, menos contraída” – se torna mais evidente com a proliferação da mediação digital.

Segundo a professora, “todas essas tecnologias de registro, cada uma delas ligada a temporalidades próprias e potencialmente distintas, passam a servir a uma espécie de digitalização da memória, que as integra ao mesmo tempo que as subordina. O processo de digitalização alia-se à atual sedução exercida por imagens computadorizadas […] que revelariam, supostamente com precisão, de modo transparente, complexos processos cerebrais a partir dos quais se explicariam todos os fenômenos humanos […] A imagem digital parece atrair para si o forte efeito de crença, a ilusão de verossimilhaça que imagens analogicamente produzidas, por motivos mais evidentes, promoveram desde o século XIX.”

Gondry fala da religião/escravidão tecnológica que se tornou (talvez o único) espaço legitimado para discussões, a praça pública binária da contemporaneidade. O registro não é o da memória, falha, indomável, traiçoeira, mas o do chip de dados – que, ironicamente, pode ser corrompido, editado e descontextualizado.

A reconfiguração das relações amorosas (e suas frustrações), como em “Brilho eterno…”, também é incorporada em “Nós e eu”. Apesar das novas formas de conexão interpessoais, que traduzem eu te amo para a linguagem abreviada das mensagens de texto, no final do dia tudo ainda se resume a um garoto de mãos dadas com uma garota (ou não). Amor, um tema batido, que mesmo na tela de um telefone celular ainda molda desejos, anseios e seus efeitos colaterias, como euforia, depressão, alegria, tristeza.

Pena que esses pensamentos, chacoalhados – por traquinagens e idiotices típicas dos adolescentes com hormônios em ebulição – durante os solavancos do trajeto, sejam diluídos pela balbúrdia incontrolável de diferentes núcleos de personagens, cujas histórias se intercalam freneticamente num espaço exíguo, onde não há assento preferencial. Zona que dispersa a atenção no banal, no constrangedor, na farra incômoda. Fica a impressão de que alguém desceu com uma câmera na hora do recreio para filmar um episódio de Malhação, mas numa instituição para recuperação de menores. Ponto final para Michel Gondry? É óbvio que não. Desta vez ele pegou o ônibus errado. Apesar disso, quem ama ou já amou, e gosta de cinema, continua aguardando o próximo “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” do diretor.

Carlos Eduardo Bacellar

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2 Comentários

Arquivado em Aprecie com Moderação (dá um caldo), Carlos Eduardo Bacellar

2 Respostas para “Memóri@ e @mor

  1. Luiz Fernando Gallego

    Mas o novo “Brilho eterno…” parece cada vez mais longe de se repetir. Aos meus olhos, o Gondry não deu mais nenhuma dentro. Nem fui ver esse filme, talvez se for lançado depois do Festival, quem sabe? mas sem expectaiva nenhuma.

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