“Jogos Mortais” sul-coreano

O escritor pernambucano Raimundo Carrero acredita que a vida sem literatura seria insuportável. Para o cineasta sul-coreano Kim Ki-duk, o entendimento é parecido. As letras – mais especificamente a linguagem poética – funcionam como um cilindro de imersão de modo que ele possa submergir na podridão humana sem que a pressão se torne intolerável e provoque fissuras na frágil constituição moral do indivíduo, deixando a barbárie invadir.

Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera” (2003) é um ensaio sobre a disciplina, barragem de vícios. “O arco” (2005) tratava do amor obsessivo e da tentativa fracassada de domar sentimentos. “Fôlego” (2007), uma produção acerca das possibilidades onde não há nenhuma.

Pietà”, laureado com o Leão de Ouro no último Festival de Veneza, não deixou ninguém indiferente em suas exibições no Festival do Rio 2012.

No longa, um acerta-contas de agiota, o “açougueiro” Kang-do (Lee Jung-jin), utiliza métodos brutais para não deixar seu patrão no prejuízo, ao mesmo tempo que anestesia suas perturbações psicológicas. Ele aleija quem não pode pagar a dívida (sempre acrescida de juros extorsivos), a maioria dos “clientes” de uma zona industrial pobre, com o objetivo de receber o seguro por invalidez. Kang-do segue como principal garoto propaganda dos ortopedistas – ameaçando o posto de Steven Seagal –, numa franquia sul-coreana de “Jogos Mortais”, até que surge uma estranha mulher que diz ser a mãe que o abandonou quando ainda era pequeno.

A narrativa, filmada no distrito Cheonggyecheon de Seoul, esquiva-se dos artifícios poéticos com que Kim Ki-duk habitualmente adorna seus filmes e se aproxima de estéticas mais cruas como as do diretor franco-argentino Gaspar Noé. Com cenas que testam a resistência do espectador ao grotesco, “Pietà” envereda pelo manifesto anticapitalista que traz na entrelinhas um questionamento sobre as responsabilidades da maternidade, código para uma vingança engendrada na perda.

Se há algo de interessante no roteiro, da lavra do próprio diretor, é a câmara de tortura psicológica em que o protagonista se encarcera. As dúvidas, carências, frustrações e privações de Kang-do são peias mentais que o travam num jogo de dissimulações, no qual não existem vencedores. O absurdo é que esse processo de lobotomia por meio do amor de mãe catalisa mudanças de personalidade inverossímeis.

Na análise do crítico Carlos Alberto Mattos, o diretor, “festejado por apreciadores de orientalismo naïf (“Primavera, Verão…”, “O Arco”) e melodramas disfarçados de filme de arte (“Fôlego”, “Time”), chega ao ápice com este conto moral sobre os horrores do capitalismo e da orfandade […] está sempre a um passo do dramalhão, a um centímetro do kitsch e a um milímetro do ridículo.”

O sul-coreano sempre se equilibrou entre realidade e imaginação, mas desta vez resolveu fazer diferente. Afastando-se de um terreno ambíguo em que transita tão bem, o do realismo mágico, Kim Ki-duk se aproxima de forma canhestra do trabalho de um conterrâneo, Bong Joon-ho, autor de “Mother” (2009) – uma narrativa inteligente e sem apelação sobre a enormidade do afeto materno, que se mantém funcional mesmo limitado pelo poço escuro da loucura.

Kim Ki-duk almeja se tornar uma versão sul-coreana para as telas de Haruki Murakami. Só que Murakami é candidato ao Nobel, enquanto Kim Ki-duk concorre ao Ig Nobel.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. O diretor Walter Salles não resistiu à proposta estética de “Pietà”. Depois de, abismado, medir a reação da pessoas olhando de um lado para o outro, abandonou no meio a sessão das 22h do dia 5/10, no Espaço Sesc Ipanema. A gota d’água – para ele e muitos outros que assistiam à exibição – foi a sequência em que o filho humilha sua suposta mãe na tentativa de desvelar uma fraude. Doentio. Gostaria de saber o que se passava na cabeça do diretor de “Central do Brasil”. Infelizmente, a única foto do Waltinho que consegui foi a dele pondo o pé na estrada.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Fuja dessa roubada!!!

2 Respostas para ““Jogos Mortais” sul-coreano

  1. Pingback: Esconjurado | Doidos por Cinema

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s