Rosário da sobrevivência

A genuflexão da religião não pelas imposições da fé, mas por pressões econômicas, políticas, sociais e pelas urgências do corpo, que contestam a vocação para o sacerdócio com os argumentos do desejo, soprados ao pé do ouvido – bafo morno que embaça qualquer racionalidade.

É partindo desse entendimento que o cineasta argentino Pablo Trapero propõe reflexões acerca das rotinas de uma comunidade pobre em Buenos Aires, excluída, corroída pelo tráfico, carente de oportunidades e com poucas perspectivas para seus moradores, e suas relações frágeis com o Estado formal – máquina burocrática, cujas engrenagens precisam ser lubrificadas com impostos, que caracteriza aquela região como um câncer que precisa ser controlado e absorvido; não pode ser extirpado devido à metástase social, que ameaça se espalhar para além da fronteira separando barracos do asfalto.

Pablo Trapero poderia ser um cientista político, um assistente social ou um jornalista, mas preferiu canalizar seu espírito crítico para a profissão de cineasta. Em “Leonera” (2008), o diretor antecipa para as telas, antes mesmo do lançamento literário, uma versão para a obra Carcereiras, sobre o trabalho do médico Drauzio Varella na Penitenciária Feminina de São Paulo. O livro encerrará a trilogia do cárcere de Drauzio, que já escreveu Estação Carandiru (Cia. das Letras, 1999) e Carcereiros (Cia. das Letras, 2012). O filme retrata as dificuldades de uma mulher, interpretada pela charmosa Martina Gusman, atriz-assinatura do diretor, para criar seu filho atrás das grades. “Abutres”, filme em que Martina contracena com o mito da dramaturgia portenha Ricardo Darín, é um ficção sobre o mercado de seguros envolvendo acidentes automotivos e os questionamentos éticos que suscita.

Elefante Branco” – que faz referência a uma estrutura abandonada que se transformou num lar para sem-teto – apresenta Darín (sempre soberbo) como o padre Julián. Juntamente com o padre Nicolás (Jeremie Renier) e a assistente social Luciana (Martina), ele é o responsável por harmonizar os interesses da Igreja, da comunidade, dos governantes e do empresariado. Tarefa que executa tendo que se desviar de balas, fazer vista grossa para o tráfico local, gerir conflitos de toda sorte e ainda cuidar da orientação religiosa de seu rebanho. Só mesmo um milagre poderia aliviar o tormento de Julián. Ironicamente, esse milagre, como uma travessura do Senhor, ou uma bênção do Diabo, apresenta-se como uma enfermidade que tornará o sacrifício final mais fácil.

Trapero, uma mistura de Hector Babenco com José Padilha, não testa a força da fé só do padre Julián. Nicolás encontra em Luciana sua maça no “paraíso”.

O roteiro arte-finaliza aquela favela horizontal, apenas esboçando a história pessoal de cada personagem, como se aquele fosse o único local em que o sentido pode existir – ou como artifício para voltar todas as atenções para lá e sublinhar o que geralmente provoca o desvio do olhar. A fotografia de Guillermo Nieto registra com apuro documental o labirinto de privações que cimenta sonhos entre estruturas de alvenaria aparente.

A produção enfoca tanto as contradições humanas como as institucionais – esferas de poder que encaram o comunidade pobre como uma deformidade que precisa da constante maquiagem dos investimentos, das intenções políticas e da anestesia do discurso religioso para disfarçar as “imperfeições” – desvios necessitados de uma cirurgia plástica mais extensa –, tornando ilegíveis os rótulos de heróis e vítimas.

Apesar do esforço dos padres, militantes de uma crença que provoca mais dúvidas do que respostas, indivíduos de batina (portanto, com seus vícios, defeitos e fraquezas) que precisam ser mais políticos do que catequizadores até no altar, rezar perde fiéis para sobreviver.

Carlos Eduardo Bacellar

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3 Comentários

Arquivado em Aprecie com Moderação (dá um caldo), Carlos Eduardo Bacellar

3 Respostas para “Rosário da sobrevivência

  1. Tati

    Sabe que quando terminei de ver esse filme, corri pra cá. Não acho melhor o Darín de todos, até porque em alguns momentos ele tem um papel secundário, mas acho que o que mais incomoda nesse filme é como a ficção imita a vida real. Quantos elefantes brancos existem nesse país? Quantos Julián? Quantas pessoas vivendo em meio a tanta miséria? Life sucks.
    bjo

    • É verdade, Tati. O filme instiga reflexões acerca das desigualdades nos grandes centros urbanos e, principalmente, como cada um reage em relação a isso. É uma produção mais sobre posturas críticas, tomadas de posição e contradições do que retrato social.
      Bjs do amigo!
      CEB

  2. Pingback: Os melhores e, claro, os piores filmes de 2012 | Doidos por Cinema

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