Esconjurado

Twixt”, thriller sobrenatural do diretor Francis Ford Coppola, é um despacho estético que em vez de afastar a má sorte, espanta os espectadores. Aquele frio na espinha característico dos filmes de suspense é substituído por um formigamento na perna, indicando que é hora de fazer o sangue circular se levantando da poltrona e correndo para fora da sala escura.

Coppola, com saudade de seu flerte com as forças ocultas em “Drácula” (1992), resolveu, neste trabalho, misturar numa tigela de barro elementos de “O sexto sentido” (M. Night Shyamalan, 1999), “Deixa ela entrar” (peço que o perdoem, Tomas Alfredson e John Ajvide Lindqvist), “O chamado” (Gore Verbinski, 2002), “O massacre da serra elétrica” (Marcus Nispel, 2003), “O grito” (Takashi Shimizu, 2004), “Silent Hill” (Christophe Gans, 2006), “O orfanato” (Juan Antonio Bayona, 2007) e obras de Edgar Allan Poe (1809-1849) – como os contos Berenice e Gato Preto e o poema O Corvo – num roteiro assustadoramente mal elaborado que ele deve ter escrito sob o efeito da cachaça, numa sessão espírita – possivelmente motivada pela falta de inspiração do realizador, tinha como objetivo colocá-lo em contato com autores que já passaram desta para melhor.

Ele teria ideias melhores à disposição se tivesse feito laboratório nas mostras de dois mestres do terror homenageados pelo Festival do Rio: Dario Argento e John Carpenter, contemplados com retrospectivas em 2011 e 2012 respectivamente.

Coppola resolveu ornamentar seu infortúnio com o apelo do fantástico para criar “Twixt” – palavra que denomina um jogo de tabuleiro cuja estratégia é criar caminhos e conexões, ligando as bordas por meio de peças coloridas. Com pedaços de referências em decomposição, arriscou-se a brincar de Deus e criar seu Frankestein.

Val Kilmer, numa atuação constrangedora, interpreta Hall Baltimore, um escritor de livros de suspense do segundo escalão movido a álcool e devastado pela perda. Seu projeto de se tornar o novo Stephen King passa primeiro pela necessidade de pagar as contas e colocar comida na mesa. A turnê de divulgação de seu novo livro – Witch Hunter, título sugestivo para uma trama que deixa implícita a transição do fenômeno literário J. K. Rowling para o de Stephenie Meyer, sem deixar de, sutilmente, ironizar a produção das duas autoras – o leva a uma pequena cidade chamada Swan Valley, no interior dos Estados Unidos, cercada de segredos, com moradores estranhos (“que desejam ser deixados em paz”) e um passado sinistro. Quem gritou clichê não vai ter o pé puxado à noite por assombração. Curiosidade da arquitetura local: acima do campanário da igreja há sete relógios, cada um marcando uma hora diferente. Seria uma referência ao Poema de sete faces de Carlos Drummond de Andrade?

Lá, por meio do xerife local, o aspirante a romancista Bobby LaGrange (Bruce Dern), ele fica sabendo de um massacre que manchou a história da comunidade com sangue. Instigado a escrever sobre o crime (ora, ele não tem nehuma ideia melhor), Baltimore é afetado pelo clima de Swan Valley e se perde em alucinações que o esgarçam entre sonho e realidade, delírio e lucidez. Eu não devia te dizer/mas/essa lua/mas esse conhaque/botam a gente comovido como o diabo. Ecos do poeta mineiro novamente.

Em seu estado alterado de consciência, Baltimore encontra a misteriosa V (Elle Fanning), menina da pele de vela, dos olhos de sangue e do sorriso de aço, freio para os caninos rebeldes. Caracterizada com uma maquiagem exagerada, mais lembra uma artista do Cirque du Soleil. Além dela (ou no além dela), imagine você, o próprio Edgar Allan Poe (Ben Chaplin) se apresenta para se tornar o mentor de Baltimore em teoria literária e construção do romance. O nome do protagonista, aliás, é uma referência ao prédio histórico Westminster Hall, situado em Baltimore, Maryland (EUA). Lá foram enterradas diversas personalidades, entre elas, trick or treat?, Edgar Allan Poe.

A única menção horroro…, digo, honrosa, fica para a fotografia de Mihai Malaimare Jr., parceiro de Coppola em “Tetro” (2009) – convence nos contrastes de luz entre dimensões alternativas.

O descalabro maior deste terreiro de despautérios é a tentativa de equilibrar uma projeção híbrida, que mescla 2D com 3D. Como saber quando começa um formato e termina o outro? O próprio filme avisa, “colocando” e “retirando” os óculos na tela entre um e outro tipo de exibição. Será que o ingresso vai ter valor diferenciado? Cobrar uma entrada inteira em 3D não vale. Melhor dar o passe para outro…

NevermoreChuta que é macumba!

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Coppola, em 2013, o mestre do terror homenageado pelo Festival do Rio será George Andrew Romero. Fica a dica.

p.s.2 É melhor encarar “Pietà”.

Fonte: deviantart

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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Fuja dessa roubada!!!

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