Amor nos tempos da cólera

Cadáveres enterrados em valas comuns adubam com o veneno do ódio um sentimento que já nasce contaminado. A guerra na Bósnia-Herzegovina, resultado de conflitos étnico-religiosos que fragmentaram a antiga Iugoslávia na década de 1990, é o campo minado para a história de amor entre o soldado sérvio Danijel (Goran Kostic, o Daniel Craig dos Balcãs) e a artista bósnia Ajla (a belíssima Zana Marjanovic, perfeita ao disfarçar as ambiguidades de uma mulher destruída pelas circunstâncias) em “In the land of blood and honey”, estreia de Angelina Jolie como diretora de um longa ficcional.

Miss Brad Pitt debutou como realizadora no documentário “A place in time”. Orçado em US$ 500 mil, “A place…” é um projeto experimental que dilui barreiras nacionais, culturais e religiosas ao alinhar, em 70 minutos, fragmentos de imagem capturados em diversos pontos do planeta, em dia e horário específicos. Segundo o site Filmstalker, Jolie reuniu amigos de profissão, os muniu com um câmera de mão mini-DV e despachou cada um para um ponto diferente do globo. Entre eles estavam o eterno goonie Sean Astin (Argentina), Colin Farrell (Itália), Ryan Gosling (Chade), Anne Hathaway (Camboja) , Djimon Hounsou (Los Angeles), Jude Law (Nova Orleans), e Hillary Swank (Nova Iorque). No dia 11 de janeiro de 2005, exatamente ao meio-dia (horário de Greenwich), os “diretores”, posicionados em 27 locações com longitudes e latitudes distintas, acionaram simultaneamente suas câmeras e filmaram durante 3 minutos o que achassem mais interessante. O doc, lançado em 2007 no Festival de Tribeca, em Nova Iorque – que tem como fundador Robert De Niro –, foi montado com esses pedaços digitais de nacionalidades diferentes.

Essa experiência documental foi um ensaio para as filmagens de “In the land…”, cujo diretor de fotografia é o australiano Dean Semler – que deixou estilizações, exageros e absurdos gerados pelos efeitos de computador – empregados em “2012” (Roland Emmerich, 2009) – de lado para se aproximar do registro das ruínas de geografias urbanas assoladas pela guerra civil.

Durante o conflito entre sérvios e bósnios, Ajla é capturada e levada para uma base inimiga sob o comando de Danijel. De lados opostos do campo de batalha, mas envoltos pelo arame farpado de um sentimento que não permite fuga sem danos, eles estabelecem um romance clandestino.

As atrocidades da guerra são escancaradas pela diretora – estupros, assassinatos a sangue frio, “limpezas” étnicas, morte de infantes, abusos e humilhações –, que não é condescendente com o público e choca. Ninguém deveria esperar nada menos de Jolie.

A degradação dos valores, diretamente proporcional à escalada da barbárie, não deixa incólume o envolvimento de Ajla e Danijel, que se deteriora em meio à suspeita e aos embates retóricos sobre razões e justificativas. Num cárcere de lençóis mornos e desejos inflamados, o soldado sérvio é sensibilizado pelo drama de Ajla ao mesmo tempo que se torna alheio à realidade ao seu redor.

Danijel se humaniza numa zona de desesperança, que não permite hesitações. Quando se humaniza, enfraquece. Quando enfraquece, não consegue pensar com clareza. Perdendo sua missão de foco, deixa de ser um combatente e se torna vítima de suas próprias ilusões, peão de um jogo que coloca sua vida em risco. O que move Ajla? Síndrome de Estocolmo, carinho verdadeiro, revolta, oportunidade e traição volatilizam qualquer interpretação, que se confunde com a fumaça que emerge dos escombros de Danijel.

Angelina Jolie, que também assina roteiro e produção, conta uma história do que não aconteceu em sua plenitude para falar do que poderia ter sido. Metáfora da contradição de situações extremas, nas quais a arma é apontada para sonhos. Amor e ódio se amalgamando e sendo dilacerados pela mesma baioneta. “In the land of blood and honey” é um grito catártico, apaixonado, de uma militante dos direitos humanos; estrela de cinema de carne e osso, que ama, sofre, sangra e chora como todos nós.

Carlos Eduardo Bacellar

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