Antes da chuva

Para Milcho Manchevski – com seu cinema, ensinou-me que a circularidade do tempo é uma das melhores formas de capturar e entender o humano

A letra “E” em itálico no pôster de “Sudoeste” já indica movimento deslocado. Insurgência. Paradoxo aflitivo: um moto-perpétuo que acelera para se livrar das convenções que o impossibilitam, mas permanece estático em sua insistência improdutiva e eterna de se livrar dos elos entre passado, presente e futuro.

Em seu primeiro longa, Eduardo Nunes esculpe o tempo numa narrativa circular, cuja sofisticação estrutural está subordinada à linguagem alegórica. A recursividade do tempo, círculos concêntricos que hipnotizam nosso olhar com o estranhamento, é a estratégia para subverter o relógio biológico de Clarisse (Simone Spoladore, sempre se impondo tremendamente quando capturada pelas câmeras). Moradora de uma comunidade ribeirinha que agoniza sob suas ruínas, perdeu a mãe no parto e foi criada por uma senhora estigmatizada como bruxa pelos moradores locais.

O cronômetro (imaginário) de Clarisse atropela o (real) dos personagens com que ela se envolve. Como um moinho que gira mais ou menos rápido de acordo com a velocidade dos ventos, Clarisse, ao longo de um dia, é atropelada pelos anos ao ser atingida pela força das circunstâncias de um círculo social de início desconhecido, mas que se mistura com o sangue em suas veias.

A história da protagonista, intricado mosaico de fragmentos temporais e emocionais enquadrados pela soberba fotografia em preto e branco de Mauro Pinheiro Jr. — que mantém aquela localidade como num estado de suspensão; uma foto antiga pendurada na parede de uma cidade fantasma que carrega o conflito em estado latente, só percebido no contexto dos envolvidos —, colide com a de outros personagens e desestrutura a árvore genealógica de uma família por meio de insinuações e elipses à medida que Clarisse envelhece. O tempo cronológico não é respeitado pelo convulsionamento psicológico, que brinca com os ponteiros como se fosse um relojoeiro insano – ou curioso pelo que está por vir ou querendo extinguir o depois, abominável. O mais importante deve ser apreendido no que foge à visão, nos desvãos, nos esconsos. A escuridão, no filme de Nunes, instiga o pensamento, criador maior. As impressões sinestésicas são realçadas pela trilha sonora. Ao prestar atenção, é possível encontrar, além de ordem na complexidade daquela narrativa não linear e devastadora, texturas, cheiros, sabores, sonoridade, cores. E quando digo “complexidade” não me refiro ao encadeamento da história, plano macro, até fácil de ser percebido e montado — sem menosprezo ao trabalho de Flavio Zettel, muito pelo contrário –, mas a todos os elementos que compõem o simbolismo do filme, plano micro.

Há vários elementos que desidratam junto com Clarisse à medida que um dos tempos se esvai (o oprimido pelo que já trancorreu): o lago que seca aos poucos, único indício de que o mar esteve ali um dia, mas abandonou aquele local; conchas que forram o chão como um tapete de fósseis; o desvelamento do desvio de caráter do homem que a acolhe; a ciranda e o moinho, reforçando a circularidade; o sal, tentativa desesperada de preservar.

A poética trágica de “Sudoeste” desafia num jogo de sentidos. A idade de Clarisse, corrompendo F. Scott Fitzgerald, avança no mesmo compasso de seu amadurecimento interno, impulsionado por uma desilusão muda para o exterior, mas ensurdecedora para si mesma. “O tempo nunca morre, o círculo nunca se completa.” É a epígrafe, segundo Marcelo Perrone, da obra-prima “Antes da chuva”, produção de Milcho Manchevskique intitula este texto. Epitáfio para Nunes. Empolgado por sua proposta, o diretor estende sua obra por mais de 2h. É aí que ele peca. Desdobrando uma linguagem críptica, que certamente vai encontrar resistência do público habituado a narrativas convencionais, Eduardo perde a oportunidade de atravessar a sensibilidade com a eficiência de um Haicai.

Clarisse talvez queira esquecer, recomeçar, mas este não é o seu “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (Michel Gondry, 2004). A memória gira a roda do tempo numa estrutura sem números, que só permite um novo início para o mesmo final. Causalidade captura extratos de passado, presente e futuro, que se repetem num tormento infinito.

O mestre François Truffaut, num artigo em que espinafra a crítica – Os sete pecados capitais da crítica –, diz que “o crítico só é eficaz a respeito dos pequenos filmes ambiciosos, sem grandes estrelas. Parafraseando Truffaut, arrisco dizer que o destino de “Sudoeste” depende unicamente da opinião da crítica, à qual não deve ser dada tanta importância.

Sudoeste” é uma obra-prima? Só o tempo dirá.

Manual de instruções

Não tenho nenhuma vergonha de dizer que o cinema de Eduardo Nunes é algo novo para mim. Ainda não tive acesso aos seus curtas. Felizmente, tenho a quem recorrer.

O crítico Carlos Alberto Mattos publicou em seu blog um ensaio magistral sobre a estética que impregna as produções de Nunes – e acerca de como seus trabalhos anteriores “pavimentaram” seu caminho até “Sudoeste”.

O envolvimento profundo do Carlinhos com as obras de Eduardo resultaram num texto belíssimo, sem o qual fica mais árdua a interpretação de um filme que exige do espectador. É óbvio que não esgota a reflexão, mas possibilita caminhos numa trilha que parece impenetrável e testa a todo instante transeuntes que se arriscam por ela.

Os grandes acontecimentos com as suas personagens se dão em espaço ou tempo inatingidos pela câmera. Nos interstícios da narrativa é que se passa a ação, da qual recebemos tão-somente os rebatimentos. Narrativa em que o tempo psicológico sobrepõe-se à duração cronológica. Por trás do tempo real existe sempre um tempo virtual mais dilatado, que se explicita ora em sequências ‘fora do tempo’, ora na inquietação que torna tensos o ambiente e a expressão das personagens. Tempo e espaço se articulam com liberdade, mas sem anarquia, segundo uma narratividade que incorpora as produções mentais das personagens, em vez de ater-se somente aos seus atos exteriores.” Algumas ideias dele que é bom termos em mente ao fruir o trabalho de Eduardo Nunes.

Não digo isso por amizade, ou porque o Carlinhos é mais bonito, mais forte, mais alto, mais inteligente e tem um órgão sexual maior que o meu. Ele não é mais bonito, não é mais forte, a desvantagem vertical em relação a mim é nítida, certamente é mais inteligente e dificilmente tem o órgão sexual maior. Digo isso porque entender cinema exige vontade, curiosidade e humildade. Trocas são fundamentais. Estou sempre voltando ao banco da escola e pedindo mais. Compartilho aqui minhas anotações de sala de aula.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Moral do filme: antes da festa, não se esqueça de colocar a fantasia no palhaço.

Anúncios

3 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

3 Respostas para “Antes da chuva

  1. Meu caríssimo CEB, agradeço as menções profissionais, mas questiono as pessoais. Considero-me mais bem apanhado que o senhor e não fugiria a uma disputa de queda de braço. Quanto ao órgão sexual, procedamos a uma acareação ao vivo, porque há controvérsias.

  2. Pingback: Os melhores e, claro, os piores filmes de 2012 | Doidos por Cinema

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s