Wes Anderson e Todd Solondz: duas faces da mesma moeda

Fonte:deviantart

Não sou jovem o suficiente para saber tudo” (Oscar Wilde)

Numa disputa de cara ou coroa entre Wes Anderson e Todd Solondz, jogando para o alto a moeda de Harvey Dent/Duas Caras, instrumento/juiz que entrega à probabilidade questões relativas à família, Anderson sempre vai escolher o lado imaculado, enquanto Solondz, seu duplo degenerado, vai escolher a face arranhada.

O diretor de “Felicidade” (1998), cronista das perturbações dissimuladas da classe média americana, enxerga a família ianque, cujo hábitat natural são os subúrbios – retratados em suas produções como verdadeiros depósitos de traumas psicológicos, conflitos e perversões escamoteadas, maquiados pela fragilidade das aparências e da hipocrisia –, com pessimismo e desesperança.

Já Anderson, mesmo reconhecendo as disfuncionalidades inerentes a um núcleo familiar, aproveita essas mesmas anomalias para estreitar laços entre personalidades conflitantes e criar narrativas singelas e lúdicas acerca do amadurecimento emocional de pessoas ligadas pelo sangue. As ovelhas negras em suas obras, figuras de destruição/reconstrução, são sempre transformadas em velocinos de ouro pela condescendência do olhar delicado.

Em “Os excêntricos Tenenbaums” (2001), a doença terminal do patriarca, um advogado falido interpretado por Gene Hackman, é o remédio produzido pela necessidade para cicatrizar desavenças, rancores, incompreensões e corações partidos. “A vida marinha com Steve Zissou” (2004), com Bill Murray no traje de mergulho de uma paródia de Jacques Cousteau, é um ensaio de Anderson sobre a paternidade tardia e seus efeitos colaterias, desvirtuados pela dor da perda e a sede de vingança, como a tentativa de recuperar o tempo perdido e ao mesmo tempo lidar com um sentimento novo e incômodo: o afeto por um filho cujo parentesco não resistiria a um exame de DNA. “Viagem a Darjeeling” (2007) trata da jornada espiritual de três irmãos. Viajando pela índia a bordo de um trem, são obrigados a aproveitar o tempo juntos para se harmonizarem e discutirem o relacionamento que tiveram com o pai falecido e a mãe que os abandonou. Cheirando a incenso, é o “Nós e eu” (Michel Gondry, 2012) da era analógica para maiores de 18 anos de Anderson.

Solondz formula seus trabalhos com ironia, sarcasmo, violência psicológica, individualismo e senso de humor doentio. Anderson manuseia transparência de sentimentos, inocência, pureza, ingenuidade e solidariedade.

A trilha autoral construída com os negativos do realizador de “A vida durante a guerra” (2009) e “Dark Horse” (2011) nunca foi um caminho viável para Anderson. Ele optou pela via positiva que o levou até “Moonrise Kingdom”, seu último longa, produção que rivaliza com a animação “O Fantástico Senhor Raposo” (2009) – sobre, adivinhe?, uma família de canídeos que se encrenca porque o papai raposo não consegue negar sua verdadeira natureza – pelo posto de melhor projeto do portfólio de Anderson.

Ah, o primeiro amor… A história de dois pré-adolescentes que descobrem (e vivem) intensamente o amor é adaptada na matriz familiar do maior fã de Bill Murray de que se tem notícia – Ruben Fleischer deve estar se mordendo todo e se autoinfectando com o vírus da inveja, aproveitando o trocadilho canibal para fazer referência a “Zumbilândia” (2009). O escoteiro Sam (Jared Gilman) tem um missão ordenada por seus hormônios. Ele abandona sua tropa, acampada em algum local na nova Inglaterra, década de 1960, para fugir com sua amada Suzy (Kara Hayward). Os pais da moça, Walt (Bill murray) e Lara (Frances McDormand) Bishop, não aceitam muito bem o relacionamento. Junto com o líder escoteiro da tropa de Sam, Ward (Edward Norton), seus asseclas mirins e o capitão da polícia local, Sharp (Bruce Willis), empreendem uma operação de busca e salvamento da virgindade perdida. Sam é o Charlie, sobrenome “As vantagens de ser invisível”, da família adotiva que o rejeita. Esperto, pragmático, aplicado, introspectivo, retraído, solitário, tachado como esquisito por causa de seu comportamento singular. Suzy é a Dawn Wiener do clã Bishop. Introvertida, leitora voraz, tímida, sonhadora, voluntariosa, explosiva, incompreendida. Almas gêmeas.

Fonte:deviantart

Wes Anderson e seu conceito estético vintage, influência dos anos 1960 – como se tivesse dado caixas de lápis de cor para crianças pintarem os cenários de “Mad Men”, os quais serviriam como locações para seus filmes –, emolduram, com imposições sociais (as incongruências e distúrbios da família), uma história sobre o florescimento do amor em seu estado mais inocente, repleto de dúvidas, descobertas e expectativas – portanto, mais intenso e inabalável. A primeira paixão, o primeiro entrelaçamento de mãos, o primeiro beijo, a primeira apertada de peitinho, a primeira ereção… Anderson torna o constrangimento e o desconforto encantadores e poéticos.

Os personagens caricaturais, a ambientação que tangencia o irreal, as situações inverossímeis, o olhar infantilizado, os silêncios que maturam as ações, as tomadas em câmera lenta, os exageros habituais das histórias em quadrinhos são elementos da grife Anderson, que assina o roteiro com Roman Coppola. Tudo fotografado por Robert D. Yeoman, colega de trabalhos anteriores que, ou por uma falha no tratamento do filme (segundo o IMDb, o formato original do negativo era 16mm; posteriormente foi convertido para 35mm), ou por opção, confere à projeção um aspecto granulado, escurecido e de pouca definição, característico do formato Super-8 – proporcionando uma atmosfera cult. O diretor faz do cinema sua caixa de brinquedos, com a qual volta no tempo e realiza suas fantasias mais íntimas. Seu jogo LEGO de US$ 16 milhões.

Moonrise Kingdom” é a versão cor-de-rosa de Wes Anderson para “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995), em que, diferentemente da ficção desencatadora de Solondz, sobre o lado odioso da natureza humana, os melhores sentimentos prevalecem.

 Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Anderson é extremamente conservador na escolha do elenco. Apostar em Bill Murray e Anjelica Huston é sempre recompensador. Os irmãos Owen e Luke Wilson e Jason Schwartzman também são figurinhas fáceis em seus filmes. Felizmente, desta vez ele abriu espaço para Frances McDormand, Bruce Willis e Edward Norton. Os dois últimos brilham, especialmente Norton, um líder que ainda está aprendendo o significado de liderança. McDormand desempenha um papel inexpressivo – que ramifica a trama num envolvimento extraconjugal para afirmar mais uma vez os problemas que solapam as relações familiares nas obras de Anderson –, assim como Tilda Swinton, numa ponta como assistente social.

p.s.2 Muitos críticos se rasgam de elogios para a trilha sonora dos filmes de Anderson, no meu entendimento superestimada. Manohla Dargis, crítica do Times, destaca em sua resenha O Guia da Orquestra para Jovens, obra do compositor inglês Benjamim Britten, que disseca os naipes de uma orquestra durante os créditos de “Moonrise Kingdom”. Quem assina a trilha é Alexandre Desplat, mito da indústria. Para eles, só digo dois nomes para encerrar o assunto: Cameron Crowe e Nancy Wilson. Segurem essa!

Fonte:deviantart

 

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2 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

2 Respostas para “Wes Anderson e Todd Solondz: duas faces da mesma moeda

  1. Pingback: Os melhores e, claro, os piores filmes de 2012 | Doidos por Cinema

  2. pedro

    adorei a critica!!!

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