Clube dos três

Fonte: deviantart

Simplificação exagerada da narrativa, enxugamento do texto literário e o redimensionamento de situações da história dos personagens em detrimento do apequenamento (ou exclusão) de outras são estratégias utilizadas na transposição de livros para as telas. Tais artifícios vão de encontro às idiossincrasias hiperbólicas que nublam a adolescência com dúvidas, exageros, inseguranças, impulsividade, conflitos, medos e geram um custo emocional alto, mas necessário para a formação da personalidade.

As vantagens de ser invisível” consegue compatibilizar uma amostragem das infinitas contradições emocionais da adolescência – exploradas no romance homônimo – com as imposições comerciais da indústria ao empreender um expediente simples, mas eficaz: o escritor americano Stephen Chbosky foi incumbido de roteirizar e dirigir a versão de seu próprio livro para as telas. Controlando todo processo, o realizador, devoto de John Hughes, foi capaz de garantir a integridade de sua obra e se certificar de que a tradução, mesmo sendo um produto diferente do livro, carregasse a alma autoral impressa nas páginas.

Hughes foi o porta-voz dos questionamentos da juventude da década de 1980, com obras como “Clube dos cinco” (1985) e “Curtindo a vida adoidado” (1986). “The perks of being a wallflower”, no original, é a proposta de Chbosky para rediscutir de forma séria uma época conturbada, fugindo de comédias escrachadas como “Superbad” (2007) e do surrealismo da linguagem dos quadrinhos e videogames de “Scott Pilgrim contra o mundo” (2010) – aproximando sua filosofia estética de produções como “A lula e a baleia” (2005), de Noah Baumbach, e “Rocket Science” (2007), de Jeffrey Blitz.

Charlie (o talentoso Logan Lerman, o Michael Cera de Chbosky) está passando pelo desconforto do primeiro ano do ensino médio, um trote que se estende por todo calendário letivo, talvez além. O garoto é discriminado por não se enquadrar no modelo de comportamento considerado cool pelas tribos de it teenagers que dominam a área da escola. Se desvia como pode das farpas do bullying, rito de passagem pelos corredores para os diferentes. Não há nada pior para alguém que, influenciado pelas altas taxas hormonais, deveria pensar somente numa coisa: garotas, de preferência nuas.

Deveria, numa outra dimensão em que não existissem ambiguidades. Típico nerd, tímido, introspectivo, dedicado aos estudos e à literatura, sem traquejo com rituais sociais considerados ortodoxos, que lhe renderiam algumas amizades, Charlie é resgatado de sua misantropia pelos “irmãos” Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson). Os dois apresentam outra realidade para Charlie, repleta de possibilidades. Não é difícil adivinhar que o Holden Caulfield do escritor/diretor se perde por Sam – moleza interpretar alguém apaixonado por Emma Watson; não é preciso ter talento ou frequentar o Actors Studio para convencer. O problema é que algo freia seu ímpeto de expressar o que sente.

Fonte: deviantart

Com o desenrolar da trama, o filme/texto de Chbosky mascara os esqueletos que os três guardam no armário com as inconstâncias e rompantes da idade. Questões como homossexualismo, o primeiro namoro, a primeira transa, as descobertas por meio de tentativa e erro, as escolhas precoces que podem determinar o futuro, a aflição das aplicações para as universidades, as atitudes irresponsáveis, as contradições sentimentais provocam reações que são confundidas com comportamentos que escondem traumas psicológicos mais sérios.

Flashbacks vão desvelando razões por trás das relutância de Charlie em se enturmar, arriscar, amar, ser adolescente. Seu único diálogo é com os livros, que estreitam sua relação com o professor de literatura inglesa, seu John Keating, interpretado por Paul Rudd. Estimulado, ele se entrega à escrita, único exercício de que gosta, solitário, na tentativa de desatar um nó em seu peito.

O sol é para todos, de Nelle Harper Lee, e On the road, de Jack Kerouac, não à toa integram a seleta de leituras obrigatórias. Mas a literatura só atinge toda sua grandiosidade quando diz algo sobre nós mesmos, e não quando é somente um mero instrumento de fuga ou passatempo vazio. Charlie se liberta por meio da coragem de Patrick e Sam para se desvencilhar de preconceitos e recalques que os impediam de crescer e assumir as rédeas de suas vidas.

Fonte: deviantart

A sensibilidade para tratar de temas considerados tabus se mescla e se confunde com a instabilidade psicológica e emocional de um período complicado. Aí está o excepcional… “The perks of being a wallflower” questiona valores rotulando metaforicamente problemas com os “defeitos morais” da adolescência. O “desvio” para falar do “desvio”, estabelecendo causas e consequências distintas. Chbosky pede que sua juventude seja ouvida para além de estereótipos e das condutas imputadas à idade. E ela grita alto. É só filtrar os ruídos.

Senhoras e senhores, sou o Carlos Eduardo Bacellar e posso dizer que sobrevivi à adolescência quase incólume… Acho… Mas continuo por aqui, tentando me entender; saber quem sou e para onde vou. Qualquer lugar com Emma Watson estaria perfeito.

p.s. Há imagens muito bacanas no tumblr do filme.

Fonte: “The perks of being a wallflower”, por Joel Amat Güell

 

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1 comentário

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

Uma resposta para “Clube dos três

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