Em qual grupo você está?

À noite, um casal ocupa uma mesa em um restaurante. À meia luz e com som ambiente, cada um saboreia seu prato e taça de vinho. Observam mais o alimento do que o companheiro à sua frente. Enquanto uma mão segura o talher ou a taça, a outra segue displicentemente sobre a mesa. Eles nunca se tocam; eventualmente trocam um sorriso ou um aceno com a cabeça, indicando aprovação à comida.

Se você não vive essa situação diariamente, certamente já observou um casal assim algum dia. Uns tratam isso como intimidade; outros entendem que falta paixão.

Ao primeiro grupo pertence o autor de livros de culinária Lou, personagem de Seth Rogen em “Entre o Amor e a Paixão” (2011), em cartaz na 36a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para ele, o silêncio é uma consequência natural do relacionamento diário. Na segunda e incomodada turma está a aspirante a escritora Margot, a heroína vivida por Michelle “Marilyn Monroe” Williams no romance da atriz e diretora canadense Sarah Polley, autora de “Longe dela” (2006), em que Julie Christie interpreta uma mulher cuja memória é deletada pelo Alzheimer, testando a resiliência do amor do marido Grant, encarnado por Gordon Pinsent. A produção, adaptação para as telas do conto The Bear Came Over the Mountain, de Alice Munro, conterrânea literária de Polley, publicado originalmente no livro Hateship, Friendship, Courtship, Loveship, Marriage (editado pela primeira vez nos Estados Unidos em 2001 por Alfred A. Knopf, divisão da Random House), foi indicada a dois Oscar: melhor atriz e melhor roteiro adaptado.

Mundo pequeno

O filme acompanha a agonia vivida por Magot ao conhecer, durante uma viagem a trabalho, o artista Daniel, que ganha seus trocados como puxador de riquixá  interpretado por Luke Kirby. Por ironia do destino (e de Polley, que também assina o roteiro), o desconhecido é também o novo vizinho do casal.

Assim, o tormento de Margot se desenrola: de um lado, o marido, a quem define como a pessoa mais doce do mundo e com quem vive uma relação, por vezes, infantil e irritante; de outro, o interessante desconhecido. Embora dê a ela o espaço necessário, Daniel está sempre presente – em uma das cenas tem o seu momento Cinquenta tons de cinza ao detalhar o que faria com Margot caso tivesse a oportunidade.

Apimentada é também a cena que remete ao título original do filme, “Take This Waltz”. Polley não só pegou emprestado o nome da música do canadense Leonard Cohen, como também reservou alguns minutos para a canção, que, por sua vez, foi inspirada no poema Pequeño vals vienés, de Federico García Lorca.

Drama ou comédia?

Embora o pôster nacional defina o filme como uma “comédia romântica ácida e engraçada”, o longa apresenta sua parcela de drama. E, acredite se quiser, quinhão que cabe à comediante Sarah Silverman, que surpreende como Geraldine, irmã alcoólatra de Lou. As tiradas afiadas da esposa de Jimmy Kimmel não entram em conflito com a sensibilidade da personagem para perceber o que acontece ao redor e viver o próprio drama. Como a própria Geraldine diz: “Life has a gap in it, it just does. You don’t go crazy trying to fill it” (“A vida tem um vazio, simplesmente tem. Você não sai feito louca tentando preenchê-lo). E é nessa mistura de drama, romance e erotismo que se encontra o mérito de Sarah Polley.

A fotografia, assinada por Luc Montpellier (com quem a diretora trabalhou em “Longe dela”), que abusa (e acerta!) nas cores e luzes, e a trilha dão um delicioso tom de verão a “Entre o Amor e A Paixão” – convergência estética entre “Sob o sol da Toscana” (Audrey Wells, 2003) e “Para Roma, com amor” (Woody Allen, 2012) filmada em solo canadense. Polley só peca na narrativa, que se estende além do necessário. No final, seu filme não é uma obra-prima, mas pode ser uma boa diversão e, quem sabe, servir como terapia para alguns casais.

Tatiane Lima é autora do blog @osindicados, espaço dedicado ao cinema, e correspondente do Doidos na 36a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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5 Comentários

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5 Respostas para “Em qual grupo você está?

  1. Pingback: Entre o Amor e a Paixão por Melhor Trilha | Cinema e TV: E os indicados são…

  2. Olá doidos! Muito legal o blog de vocês! Aliás, me identifiquei muito com os perfis. Sou jornalista e digo que também não ganho dinheiro, mas me divirto muito. Tenho um blog que também fala de cinema de uma maneira ” não jornalística”. Se puderem, deem uma passadinha lá.
    http://www.raquelmariano.wordpress.com

    Bjos!

    Raquel de Belo Horizonte

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