Arquivo do mês: novembro 2012

Um olhar enviesado

By Kiarostami não se recomenda paixão no Japão. Seu “Um alguém apaixonado” é um rumo ao nada numa urbis claustrofóbica. Contexto totalitário: o célebre iraniano trapaceia com o espectador, que resta à deriva sobre a narrativa, pinçando sentidos para personagens e ações.

Muna-se de nervos de aço para acompanhar o filme. É um noite/dia/tarde de respiração presa na glote, entre lapsos entre pensamento e ação, lentas lacunas de desejo ou ato, à medida oriental. A obra persegue a verossimilhança do “tempo real” (intencional?) que resulta em ritmo aflito que resiste ao CORTA! Menos mal que se desfruta, em trilha, o balanço de Slowtrane, de John Coltrane…

A desorientação nos é imposta de início. A conversa que se escuta não é bem a que se vê ou será que é? Bar apertado, ruídos opressivos, ofuscam, atordoam. Adiante, uma narrativa entre cubículos, sem espaço sequer para abrir portas. Nos carros, entretanto, tudo parece caber confortável. Fortuitas conversas compõem o xadrez da dúvida e, em nossa alma, o incômodo. Perdoai-vos: eles, personagens, não sabem o que querem (exceto “um alguém apaixonado”). Ou será que podem saber?

Kiarostami nos lança a Tóquio de olhos enviesados. Akiko (Rin Takanashi) é a jovem no bar, supostamente garota de programa, a quem um homem insiste que vá ver um conhecido. Reluta Akiko, mas sem certeza, pois precisaria encontrar sua avó. Talvez. Ela namora, também sem convicção, um jovem mecânico – o “alguém apaixonado” – que desconhece seu ofício. Fechada em um táxi, segue, sem saber, rumo ao tal “conhecido”, atravessada por rastros de infinitos néons. O homem é um velho senhor, que vive em diminuto apartamento. Akiko se deita em sua cama, mas ele tampouco parece interessado no serviço. Dia seguinte, entre portas e vidros de carros, o destino planta a peça – que falta – e revela ao apaixonado o engano.

A vida empurra a todos, a rodo. O velho é levado a uma encenação sem volta, move-se como alucinado a proteger a moça, com um ritmo cardíaco de dar nó e dó, até que… (!) Quase o harakiri, onde o que resta é o dom Kiarostami de iludir.

Claudia Furiati

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Desentendimento à primeira vista

O realizador iraniano Abbas Kiarostami repudia os limites estreitos da experiência e, por meio de seu metacinema, busca desfazer o origami que representa o real de modo a entender o enigma de suas dobras. “Um alguém apaixonado”, empreendimento nipônico do diretor – que, a partir de “Cópia fiel” (2010), passou a ostentar em seu passaporte uma vocação cosmopolita –, traz no título uma charada de sua ficção, em sua natureza repleta de equívocos e ambiguidades.

Kiarostami nos ilude com uma suposta história de amor, desenvolvida com os paradoxos da própria metalinguagem, para tratar da incomunicabilidade no centro mundial da conexão: Tóquio, cidade em que a solidão é grafada com luzes de néon e mascarada pelo brilho das cores excessivas. A linguagem é instrumento de compreensão e comunicação, mas seu manejo é arriscado, traiçoeiro, podendo provocar ruídos e, consequentemente, mal-entendidos. Gustavo Bernardo, professor de Teoria da Literatura da Uerj, entende que ela é simultaneamente pletórica e insuficiente: falo, logo falo mais do que queria e menos do que devia. A palavra, construção da língua, usada para propiciar o acesso à coisa, afasta o utente da coisa em si.

Quando a discussão envolve o cinema de Abbas, a palavra de ordem é menos. E a interação fantasiosa entre os personagens de “Um alguém apaixonado”, se de um lado possibilita o contato que seria complicado na transparência incômoda e decepcionante da sinceridade, de outro afasta qualquer envolvimento genuíno com um jogo conturbado que aposta no ponto de ruptura da carência emocional. O filme explora as elipses e a retórica de dissimulação envolvendo Akiko (Rin Takanashi, decalcada das páginas de um mangá erótico), uma jovem de procedência suspeita e intenções não esclarecidas, o professor de sociologia interpretado por Tadashi Okuno e o ciumento namorado de Akiko, vivido por Ryo Kase.

Os três se aproximam e se afastam, num movimento ondular, na tentativa de criar laços de reconhecimento. Mas os gestos esbarram em expectativas refratárias, barreira que se torna inexpugnável com incompatibilidade das conversas, patente na expressão dos atores. O silêncio, trilha dos personagens em trânsito numa Tóquio sonora e luminosa, funciona como amálgama. Os diálogos banais reforçam a aflição, são pedidos de socorro numa existência medíocre, desprovida de significados que não a satisfação imediata. Há ojeriza ao contato físico, mesmo quando existe uma finalidade prática. A família é um inconveniente, núcleo de embaraço e incompreensão – pode ser restrita a mensagens digitais. O Japão se torna mundo.

Em mais um trabalho em que o iraniano está determinado a apagar os traços de sua participação, deixando as cenas transcorrerem com o mínimo de intervenção – aqui o cineasta se afasta da estética de Monte Hellman, que, apesar da cinematografia desafiadora, deixa sua marca de autor manipulando incessantemente as cenas, a montagem e o texto –, o que não é dito claramente deve ser encaixado no que foi suprimido. Os fragmentos de diálogos impulsionam à próxima pergunta, para a qual não há resposta. As identidades se permutam (ou se complementam): de prostituta para universitária; de professor para avô; de namorado para agressor. Esse fluxo de movimento incessante intriga e força a reflexão ao mesmo tempo que conduz a trama a novas ações – e interrogações. Não é essa mesma a função do metacinema? Instigar a busca por explicações, mesmo quando elas só geram mais dúvidas. Quando Kiarostami termina de desdobrar seu origami, não encontra os segredos que procura, mas novas figuras humanas, cujos dramas falam a mesma língua, apesar das diferenças.

Carlos Eduardo Bacellar

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Goodfella!

Hoje é aniversário do diretor Martin Scorsese. Parabéns para o mestre! Que continue fazendo por muito anos filmes incríveis.

Carlos Eduardo Bacellar

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