Desentendimento à primeira vista

O realizador iraniano Abbas Kiarostami repudia os limites estreitos da experiência e, por meio de seu metacinema, busca desfazer o origami que representa o real de modo a entender o enigma de suas dobras. “Um alguém apaixonado”, empreendimento nipônico do diretor – que, a partir de “Cópia fiel” (2010), passou a ostentar em seu passaporte uma vocação cosmopolita –, traz no título uma charada de sua ficção, em sua natureza repleta de equívocos e ambiguidades.

Kiarostami nos ilude com uma suposta história de amor, desenvolvida com os paradoxos da própria metalinguagem, para tratar da incomunicabilidade no centro mundial da conexão: Tóquio, cidade em que a solidão é grafada com luzes de néon e mascarada pelo brilho das cores excessivas. A linguagem é instrumento de compreensão e comunicação, mas seu manejo é arriscado, traiçoeiro, podendo provocar ruídos e, consequentemente, mal-entendidos. Gustavo Bernardo, professor de Teoria da Literatura da Uerj, entende que ela é simultaneamente pletórica e insuficiente: falo, logo falo mais do que queria e menos do que devia. A palavra, construção da língua, usada para propiciar o acesso à coisa, afasta o utente da coisa em si.

Quando a discussão envolve o cinema de Abbas, a palavra de ordem é menos. E a interação fantasiosa entre os personagens de “Um alguém apaixonado”, se de um lado possibilita o contato que seria complicado na transparência incômoda e decepcionante da sinceridade, de outro afasta qualquer envolvimento genuíno com um jogo conturbado que aposta no ponto de ruptura da carência emocional. O filme explora as elipses e a retórica de dissimulação envolvendo Akiko (Rin Takanashi, decalcada das páginas de um mangá erótico), uma jovem de procedência suspeita e intenções não esclarecidas, o professor de sociologia interpretado por Tadashi Okuno e o ciumento namorado de Akiko, vivido por Ryo Kase.

Os três se aproximam e se afastam, num movimento ondular, na tentativa de criar laços de reconhecimento. Mas os gestos esbarram em expectativas refratárias, barreira que se torna inexpugnável com incompatibilidade das conversas, patente na expressão dos atores. O silêncio, trilha dos personagens em trânsito numa Tóquio sonora e luminosa, funciona como amálgama. Os diálogos banais reforçam a aflição, são pedidos de socorro numa existência medíocre, desprovida de significados que não a satisfação imediata. Há ojeriza ao contato físico, mesmo quando existe uma finalidade prática. A família é um inconveniente, núcleo de embaraço e incompreensão – pode ser restrita a mensagens digitais. O Japão se torna mundo.

Em mais um trabalho em que o iraniano está determinado a apagar os traços de sua participação, deixando as cenas transcorrerem com o mínimo de intervenção – aqui o cineasta se afasta da estética de Monte Hellman, que, apesar da cinematografia desafiadora, deixa sua marca de autor manipulando incessantemente as cenas, a montagem e o texto –, o que não é dito claramente deve ser encaixado no que foi suprimido. Os fragmentos de diálogos impulsionam à próxima pergunta, para a qual não há resposta. As identidades se permutam (ou se complementam): de prostituta para universitária; de professor para avô; de namorado para agressor. Esse fluxo de movimento incessante intriga e força a reflexão ao mesmo tempo que conduz a trama a novas ações – e interrogações. Não é essa mesma a função do metacinema? Instigar a busca por explicações, mesmo quando elas só geram mais dúvidas. Quando Kiarostami termina de desdobrar seu origami, não encontra os segredos que procura, mas novas figuras humanas, cujos dramas falam a mesma língua, apesar das diferenças.

Carlos Eduardo Bacellar

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