Um olhar enviesado

By Kiarostami não se recomenda paixão no Japão. Seu “Um alguém apaixonado” é um rumo ao nada numa urbis claustrofóbica. Contexto totalitário: o célebre iraniano trapaceia com o espectador, que resta à deriva sobre a narrativa, pinçando sentidos para personagens e ações.

Muna-se de nervos de aço para acompanhar o filme. É um noite/dia/tarde de respiração presa na glote, entre lapsos entre pensamento e ação, lentas lacunas de desejo ou ato, à medida oriental. A obra persegue a verossimilhança do “tempo real” (intencional?) que resulta em ritmo aflito que resiste ao CORTA! Menos mal que se desfruta, em trilha, o balanço de Slowtrane, de John Coltrane…

A desorientação nos é imposta de início. A conversa que se escuta não é bem a que se vê ou será que é? Bar apertado, ruídos opressivos, ofuscam, atordoam. Adiante, uma narrativa entre cubículos, sem espaço sequer para abrir portas. Nos carros, entretanto, tudo parece caber confortável. Fortuitas conversas compõem o xadrez da dúvida e, em nossa alma, o incômodo. Perdoai-vos: eles, personagens, não sabem o que querem (exceto “um alguém apaixonado”). Ou será que podem saber?

Kiarostami nos lança a Tóquio de olhos enviesados. Akiko (Rin Takanashi) é a jovem no bar, supostamente garota de programa, a quem um homem insiste que vá ver um conhecido. Reluta Akiko, mas sem certeza, pois precisaria encontrar sua avó. Talvez. Ela namora, também sem convicção, um jovem mecânico – o “alguém apaixonado” – que desconhece seu ofício. Fechada em um táxi, segue, sem saber, rumo ao tal “conhecido”, atravessada por rastros de infinitos néons. O homem é um velho senhor, que vive em diminuto apartamento. Akiko se deita em sua cama, mas ele tampouco parece interessado no serviço. Dia seguinte, entre portas e vidros de carros, o destino planta a peça – que falta – e revela ao apaixonado o engano.

A vida empurra a todos, a rodo. O velho é levado a uma encenação sem volta, move-se como alucinado a proteger a moça, com um ritmo cardíaco de dar nó e dó, até que… (!) Quase o harakiri, onde o que resta é o dom Kiarostami de iludir.

Claudia Furiati

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1 comentário

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Uma resposta para “Um olhar enviesado

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