Holy shit!

holy-motors-lg

Leos Carax é doente! Dodói da cabeça! A construção camaleônica do personagem de Denis Lavant – seu ator-assinatura desde “Boy meets girl” (1984) – em “Holy motors” é sintoma de sua obsessão patológica. Obsessão voltada não para formas tortuosas de amor, estruturadas na improbabilidade, de que trata nos seus quatro longas anteriores, mas para marcas estéticas de outros realizadores que tornam o próprio Carax um transmorfo, destituído de impressão artística própria – sacralizador dos grandes movimentos, expressões e autores do cinema, mas profanador de uma incipiente autoralidade que se perde num retalho de estilos já patenteados e se torna uma farsa – mosaico de (des)significação.

“Sangue ruim” (1986), mais conhecido pelos puristas como “Mauvais sang”, é sua tentativa – ou seja, substantivo travestido de ação fracassada – de reproduzir a narrativa poética de Julio Medem em seu “Os amantes do círculo polar” (1998). O poema audiovisual de Medem serviu de matriz para uma história de amor de tons mais sombrios marcada pelo signo da inconcretude. (ver errata) “Sangue ruim” (1986), mais conhecido pelos puristas como “Mauvais sang”, é sua tentativa – ou seja, substantivo travestido de ação fracassada – de criar, mais de uma década antes, um envolvente poema audiovisual como o declamado em “Os amantes do círculo polar” (1998), do diretor espanhol Julio Medem, só que carregado de tons mais sombrios. Uma história de amor marcada pelo signo da inconcretude. Carax gosta de explorar (e forçar) o amor inusitado entre corações que batem em descompasso. Seja pelo contraste social ou por estados de espírito antípodas. Ambos são caudatários do diretor italiano Federico Fellini (1920-1993) e de suas atmosferas feéricas, que transitam entre sonho e realidade. Medem se empenhou em refinar suas narrativas poéticas de modo a criar uma assinatura estética própria, apostando na interseção entre fantasia/imaginação e o prosaico, enquanto Carax criou pastiches num exercício de antropofagia cinematográfica.

No já citado “Boy meets girl”, Carax tenta surfar tardiamente a Nouvelle Vague que Jean-Luc Godard dropou com tanta habilidade. Além de Godard, Alain Resnais, François Truffaut, Claude Chabrol, Agnès Varda e Louis Malle, entre outros, inconformados com os postulados cediços do cinema francês à época (uma percepção que tem como marco temporal a transição da década de 1950 para a de 1960), propuseram a libertação da câmera que, com mais mobilidade e praticidade, rebelde e provocativa, participava da ação como um personagem das produções de baixo orçamento da nova geração de cineastas, muitas vezes bancadas com recursos dos próprios diretores. Os filmes, nas palavra do crítico Luiz Carlos Merten, “eram todos confessionais, falavam de jovens parisienses da pequena-burguesia, suas aspirações, seus amores, suas frustrações”. Ironicamente, ao adotar tal postura em “Boy meets girl”, Carax trai dois temas caros ao movimento nouvelle-vaguista: fuga da hipocrisia e autenticidade.

“Pola X” (1999) é sua incursão num formato de distopia caudatário dos textos de Ray Bradbury e George Orwell, experiências literárias que se desdobram para as telas em filmes do próprio Truffaut – “Fahrenheit 451” (1966) –, Michael Radford – “1984” (1984) – e John Carpenter – “Fuga de Nova Iorque” (1981).

“Holy motors” é uma bricolagem que supostamente almeja homenagear o cinema e se consagrar como cult. Não consegue nem uma coisa nem outra. O shape shifter encarnado por Denis Lavant, um tal de senhor Oscar, trafega por Paris – o feioso Lavant só perde lugar na predileção de Carax para a tal ponte Neuf, locação-fetiche do realizador – numa limusine-camarim protagonizando um teatro nonsense em que o “público” (ou clientes) tem participação ativa. É possível até se confundir, se entrar na sala de exibição no susto, sem conferir os créditos, e achar que aquilo é um filme de David Lynch. Não… Perdão, David…

Carax, imiscuindo-se na plêiade, até importa dos esgotos de Tóquio seu Quasimodo ensandecido, que teve como balão de ensaio o média “Merde”, um dos episódios de “Tokyo!” (2008). Figura iconoclasta que alude ao cinema de Pier Paolo Pasolini e sua aversão a valores burgueses como a alienação, o conservadorismo, o consumismo, a falsa moralidade e a hipocrisia num episódio de conotação erótica com a tesuda Eva Mendes. E não pense que o francês é refratário à tecnologia. Há um quadro que evoca a revolucionária técnica de captura de movimento celebrizada por Andy Serkis, que, por meio de sensores, deu vida ao persongem Gollum na trilogia “O senhor dos anéis”.

holy-motors04_eva mendes

Não entenda mal estas linhas… Referências são essenciais, mas elas não podem se tornar quem o artista é em detrimento da valorização de uma assinatura estética – uma linha autoral – própria. Leos Carax é todo mundo, menos ele mesmo.

O trabalho de Carax que tangencia alguma pretensão autoral, curiosamente o mais comercial (consequentemente palatável), intitula-se “Os amantes da ponte Neuf” (1991). O envolvimento entre os personagens de Denis Lavant e Juliette Binoche, outra queridinha do diretor, funda-se na necessidade. As circunstâncias, mais do que o sentimento genuíno, transformam um na muleta do outro, o que torna aquela existência suportável. Mesmo assim, é um projeto moldado na temática social do neorrealismo – que traz em seu bojo o naturalismo e a preocupação com a realidade humana – e seu foco na esperança.

A febre do diretor francês por cinema é sintoma de sua síndrome de (Leonard) “Zelig” (1983). Com medo da rejeição, Carax se camufla no outro e, paradoxalmente, torna-se o próprio protagonista de “Holy motors” – Oscar, segundo Manohla Dargis, crítica do Times, seria um anagrama de Alex Oscar, jogo de palavras derivado do verdadeiro nome do diretor, Alexandre Oscar Dupont.

Carax (ou Zelix?) equivoca-se ao tentar se tornar autor e não protagoniza nada, exceto mais um pastiche, encenações do absurdo que o afastam da originalidade e o aproximam do repúdio que ele tanto tenta evitar.

 Carlos Eduardo Bacellar

 p.s. SPOILER!!! Meu Deus, o que é aquela conversa de limusines na sequência final?!

Holy-Motors-Poster

Anúncios

6 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Fundo do Poço (suicídio estético)

6 Respostas para “Holy shit!

  1. O filme é uma mala, sem alça, sem rodinha, pesada(o), muito chato e pretensioso: eu vi as mudanças do Sr. Ocar como uma “metáfora” [muito concreta] da crise de identidade na contemporaneidade, deslizamento do sujeito, etc etc – mas sem nenhuma sutileza: exibição óbvia, redundante, sofrendo de perseveração e pelonasmos. “W. Allen em “Zelig” foi criativo ao abordar este tema; Carax, não.

  2. baudelaire

    leos carax é um dos cineastas franceses das últimas três décadas que mais consistentemente desenvolveu uma obra e um estilo que, para não partilhar de seus parâmetros à cerca de originalidade, pelo menos se serviram de matriz e influência para muitos outros cineastas. discordo que originalidade seja parâmetro de valoração estética, estilística, que um autor deva seguir caminho próprio. já é terreno esgotado essa discussão a cerca de autoria, sobretudo no cinema, uma arte eminentemente coletiva. e dizer que os amantes da ponte neuf é um filme que bebe do neorealismo é ignorar sua feitura numa Paris pessoal (marcadamente influenciada por um repertório cinefílico do diretor) e construída em estúdio! quer dizer, trata-se muito mais de uma Paris impressionista e antinaturalista, que uma Paris exposta em carne crua.

    a parte isso, não entendi como mauvais sang pode ter sofrido influência, ou melhor, ter tentado reproduzir uma ‘narrativa poética’ de um filme posterior em mais de 10 anos. não sei o que quis dizer com isso…

    ps.: não vi holy motors, ainda, e acho que a questão da crise de identidade supostamente debatida no filme multiplica ainda mais os horizontes do sujeito que, todos sabemos, é fragmentário, consiste numa multidão, e negar isso ou diagnosticá-lo como uma crise, um problema, não passa de falta de criatividade.

    • Opa! Discussão de alto nível! Discordo que a questão da autoria esteja esgotada. Vai de encontro a tudo que espero do cinema. Quando vejo o trabalho de diretores como Nuri Bilge Ceylan, Fatih Akin, Tarantino, Abbas Kiarostami, entre outros, recuso-me a acreditar que o coletivo eclipsou o individual. Posso concordar que Carax romantiza Paris, da mesma forma que Woody Allen idealizou sua Nova Iorque em “Manhattan” (1979), para ficar no exemplo mais óbvio. Ele arquiteta, como você bem disse, uma Paris “impressionista e antinaturalista”, uma cidade luz muito pessoal — erigida em sonhos, não em concreto e aço. Essa reflexão não nega toda temática neorrealista que grita por trás da encenação. Fico irritado com a obsessão de Carax pela ponte Neuf e pela ereção de Denis Lavant. Com relação à comparação entre “Mauvais Sang” (1986) e “Os amantes do círculo polar”, você tem razão, é uma contradição. Meu pensamento revolto se precipitou sobre a coerência. Ambos os diretores, Carax e Medem, bebem na fonte de um italiano chamado Federico Fellini. O relizador espanhol reverteu sua narrativa poética, delineada por elementos feéricos, em projetos de beleza singular. Já Carax não consegue nada mais do que um pastiche da obra felliniana, apostando naquele reme-reme de almas fadadas à segregação num ambiente urbano e cultural que salienta os contrastes sociais e emocionais. Nunca neguei esse “deslizamento do sujeito”, como bem disse meu amigo e crítico Luiz Fernando Gallego, nem o classifiquei como crise, já que constitui o mosaico de que somos feitos. Só que Carax não multiplica, e sim fatora, decompondo suas identidades em simulacros de outras fontes.
      Assim como demonstrado por um dos personagens de “Os amantes do círculo polar”, pode ser que haja alguma presciência na obra do francês. Ele, bem como o tailandês Apichatpong Weerasethakul, estaria à frente de seu tempo. Grande parte da crítica acredita nisso. Eu não. Ninguém está totalmente certo nem totalmente errado, pois estamos falando de arte — e arte é disenso. Só o futuro dirá quem conseguiu focar com mais acuidade os elementos significativos (negativos ou positivos) da proposta estética de Carax.
      Saliento que a minha opinião é só mais uma opinião, e não a opinião.
      Quero deixar registrado que respeito suas opiniões, todas relevantes, e reconheço meus tropeços. Assista ao filme para podermos conversar mais.
      Apareça sempre. O blog precisa de mais comentários como o seu.
      Abraços!
      CEB

  3. Pingback: Os melhores e, claro, os piores filmes de 2012 | Doidos por Cinema

  4. Pingback: Os melhores e, claro, os piores filmes de 2012 | Doidos por Cinema

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s